Naquele 1957, um fato pouco comum.
Já formado em letras anglo-germânicas pela Faculdade Nacional de Filosofia, Luiz César, contratado como professor de inglês do “São José” tornara-se professor do Segundo Colegial, e, portanto meu professor.
Sobrara para mim!
Em véspera de provas e sabatinas, era intensamente assediado por vários colegas na ânsia em conhecer a redação das questões. Evidentemente, eu nunca soube de nada, apesar da descrença de muitos.
- Teu irmão “roda” as provas em mimeógrafo, ali, juntinho, e você vem com essa que não sabe de nada? Essa não! - reclamavam os mais exaltados.
- Calma pessoal! Meu irmão está apenas começando a carreira e tem um nome a zelar.
Os menos honestos não entendiam, ou não queriam entender, meus argumentos.
Este episódio foi bom para mim e ensinou-me, na prática, como são largos os critérios de probidade para certas pessoas. Muitos sempre acharam que eu estava mentindo - para estes, certamente recebia uma “mãozinha” do irmão-professor.
Fora este fato, pouco agradável, não deixava de ser inusitado ter como mestre um ex-colega, contemporâneo de todos, fazia poucos anos. Luiz César havia de ter muita habilidade para contornar a indiscrição dos mais “engraçadinhos” que procuravam abusar de sua pouca idade.
Então vinham as piadas do programa PRK 30, o humorístico de maior audiência que apresentava aos seus rádio-ouvintes as sensacionais aulas de inglês.
A turma não perdoava, e procuravam gozar o novo mestre com os bordões do programa: “dog qui make au, au don’t morde nobody”, “two bicudos don’t se kissing”, “water mole in peter dure, tanto bate até que fure”, etc.
Sempre atento, conseguia levar a bom termo sua missão, adaptando a rigidez ao mínimo necessário ou, esquecendo-a por completo nos casos excepcionais, como por exemplo, no relacionamento com o Rafael, nosso colega de muitos anos, e que se comportava, em suas aulas, como um legítimo “mongolóide”. Luiz tratou-o como se assim ele fosse durante todo o ano, sem maiores perdas.
O que era muito engraçado no início, deixou de sê-lo em pouco tempo. Mas o “artista” não deu o “braço a torcer”, levando a farsa até o final. Um detalhe: Rafael era o melhor aluno de inglês da classe.
Com certeza a grande maioria gostou de ter um professor jovem, leigo, fato raro no “São José” daqueles tempos, e, sobretudo atualizado na matéria que ministrava. Acho que jamais esqueceram as famosas “Idiomatic Expressions”, praticadas exaustivamente ao longo de todo ano letivo.
Ao final, obtive nota média final sete; nem maior, nem menor que as dos anos anteriores.
Graças a Deus!
- Excerto de meu livro "Cheiro de Verão"
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