por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 4 de maio de 2012

43 - O JÓQUEI E SEU DESAFIO

                                 

         Com rapidez incômoda, o ano aproximava-se do fim. Cada dia ficava mais inviável uma reação e a pouco e pouco se evidenciava a real possibilidade da perda do ano letivo.
         Paradoxalmente, fui ficando mais popular entre os colegas chegando mesmo a liderar alguns movimentos em defesa de coisas que a maioria almejava alcançar.
De certo modo era isto que procurava há muito tempo. Só que o preço a pagar por esta liderança seria demasiado pesado - uma provável humilhante repetência.
         Vivia às turras com o Ir. Gregório. Seguidamente fazia-o perder as estribeiras para gáudio de toda a turma que de um modo geral gostaria em desafiá-lo também.
Certo dia, de limites ultrapassados, de ambos os lados, o “grisalho mestre” desabafou em alto e bom som para ser ouvido por toda turma: “... seu José Carlos Leal, do jeito que o senhor é,... e magro assim, não será nada na vida;... no máximo um jóquei!...”.
         Aquela ofensa teve um efeito possivelmente contrário ao que desejava o irado professor. No íntimo, repeti várias vezes, convencendo-me da empreitada a ser iniciada de imediato: “... não perdes por esperar, velho ranzinza. Certamente ainda terás o dessabor de ver onde está o jóquei !...
         Assumi um sério compromisso comigo mesmo que a partir daquele momento todos os esforços seriam no sentido de prová-lo que estava errado em sua afrontosa previsão.
         Infelizmente esta missão deveria ser adiada para 1956.
A “bomba” veio consolidada na reprovação em matemática, física e química. Não havia nem a possibilidade de exames de “segunda época”.
Aliás, nada de se admirar, pois há alguns meses Dona Tininha vinha alertando: “... pelo andar da carruagem, já se sabe quem vem dentro!”.
         Seguiram-se noites insones a procura de uma explicação. Seria a doença do papai? A morte da vovó? A solidão do início do ano? O sarampo?
Não encontrava nenhum motivo convincente para tamanho fracasso. Por alguns dias temi pelo meu sucesso na vida e achei que talvez tivesse sido muito pretensioso meu desafio ao “velho” Gregório.
         O tempo daria a devida resposta...  
   
        - Trecho do meu livro "Cheiro de Verão".  



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