A dura realidade.
De volta ao Rio, de volta ao colégio.
Adeus liberdade! Hora de pensar no meu desafio.
No primeiro dia de aula, o encontro nada agradável com a figura sinistra do Gregório. Na boca, o amargor das lembranças do ano anterior trazia o alerta de não haver tempo a perder. O bom combate teria que ser enfrentado em todas as frentes. Não bastava estudar, passar de ano.
Deveria haver algo mais.
A imaginação posta a funcionar, e logo a primeira idéia: porque não fazer um jornalzinho? Isto mesmo, um jornal seria o porta-voz ideal de minha rebeldia.
Após alguns dias de muito pensar, surgia enfim “O Manjador”, bem clandestino, assim devia ser com pouquíssimos exemplares distribuídos estrategicamente.
Já no primeiro número, uma reação violenta, em forma de mini-editorial, criticando a norma baixada pela reitoria proibindo o uso das chamadas “calças americanas”; era o “jeans” entrando de vez no mercado brasileiro e conquistando de imediato a juventude.
Comodidade confundida com rebeldia ou cafajestada pelos mais conservadores, e ainda apelidadas de “calças de vaqueiros” pelos mais radicais.
A irreverência do texto, na verdade não muito obediente ao vernáculo, a par do sucesso entre os colegas, fez surgir mais um novo desafeto. Para o irmão João Francisco, o “Azeitona”, tratava-se de um “pasquim” que deveria ser cassado de imediato.
Não entendia tanto rigor. Afinal nosso jornalzinho apresentava até piadinhas bem inocentes como a registrada no seguinte diálogo: - O ambiente das prisões está cada vez pior! - Também, pudera. Continuam mandando para lá apenas ladrões e assassinos!...
Pouco adiantava. A coisa ficava cada vez mais complicada.
Inimigos em dobro!
Pensava: inimigos em dobro, ações em dobro. E lá estava eu candidatando-me à diretoria da A.L.C.A. (Academia Literária Castro Alves). Com a popularidade alcançada pelo meu “pasquim” foi fácil a eleição. Meu cargo, secretário-geral.
Mal empossado, comecei a reorganizar a biblioteca da Academia. Tarefa deliciosa que consumiam muitas das minhas tardes no colégio. Foi a oportunidade de conhecer uma coleção chamada “Brasiliana”, não sei quantos volumes tratando somente de Brasil. Incrível a brasilidade contida nas páginas desta maravilhosa coletânea.
Muitas vezes esquecia-me da empreitada e passava horas lendo, principalmente poesias.
Nesta época, muita intimidade com Castro Alves, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Manuel Bandeira... Positivamente estava tornando-me um “romântico-idealista-nacionalista” e lá sei eu o quê mais.
Hoje, evocando o antigamente nestas linhas, lembro um poema de Manuel Bandeira, talvez o mote inspirador destas recordações:
“Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quanto
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Com tantas atividades, e um mundo imenso a descobrir, não tinha tempo para nada.
Quando em casa, esquecia-me de tudo. Só era interrompido pelos chamamentos de mamãe: “Carlinhos! Vem lanchar! O que você comeu no almoço já saiu pela ponta dos pés!...”, ou então, fruto de sua eterna preocupação: “Bota um agasalho, você está muito à frescata!”
De repente, uma carta do Ronaldo, e todas as recordações das férias maravilhosas faziam-me, olhar perdido no infinito, sair da dura realidade; muito dura realidade..."
OBS. - Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito ao longo do ano de 1997
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