por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 24 de maio de 2012

66 - A "CEU AZUL"



         Os dias em Santiago corriam indesejavelmente rápidos.
Aquelas férias talvez fossem as últimas a serem gozadas com tranqüilidade. Depois, 1958, último e decisivo  ano de colégio; ano de escolha da futura profissão e  de preparação ao vestibular.
         Brasão, Guarani, Danúbio, Volúpia, Pindorama, Estrela, Colibri, Tropicão. Em poucos dias, estes nomes tornaram-se muito familiares a todos nós; cavalos e éguas testemunhas cansadas de nossos passeios e aventuras.
         Certa noite saímos destino desconhecido, pelas estradas e atalhos, desacompanhados da lua, numa escuridão preocupante para nós, cavaleiros de poucos talentos.
Sem saber, estavam preparando uma cilada para mim.
         Montando Tropicão, que já meio idoso, tinha dificuldades em acompanhar a tropa, por muito tempo consegui, com não pouco esforço, mante-lo no meio da cavalgada. As cantorias a seis vozes, em altos brados,  espantavam o frio e afastavam os temores do negrume embaraçoso.
         Súbito, minha montaria empacou. Calmamente procurei convence-la a continuar. Nada!
         Aumentei o ritmo das pancadas, com os calcanhares, na barriga do animal.
Nada!
         Já meio preocupado, pensei: será que é assim que se faz?
         A cantoria já ia longe, quando notei que estava só.
         Comecei a gritar pelos companheiros sem sucesso. Mais um pouco, nem a cantoria ouvia mais.
Convenci-me, então, que devia preparar-me para uma longa vigília, naquele atalho sem nome e solitário no meio da mata. Grande amigo este Tropicão, “filho de uma égua”. Nem percebi da inutilidade do chingamento.
         Passada um boa meia-hora, um século, para mim, desfez-se a tramóia. De volta, todos riam as escancaras de minha desdita. Tudo fora preparado com requintes. Jorge e Carlos Alberto conheciam de sobejo o Tropicão, animal manhoso, sempre pronto a empacar quando derradeiro em uma tropa. Tudo combinado prepararam a farsa que me deixou bastante vexado.
         Felizmente havia passeios mais agradáveis.
         Quando montados a cavalo, em mansas passadas, quinze minutos, um pouco mais, um pouco menos, nos separava do “Céu Azul”, uma antiga fazenda de café, onde morava Dona Elvira, avó do Beco.
         Realmente o contraste ao longo da trilha em sobe-e-desce, aliando os afloramentos de rocha ao verde da mata, realçavam o azul do céu, naquele recanto de muita beleza e paz.
         O curral, a horta, o moinho dolente, o aroma profundo da erva cidreira compunham uma seqüência harmoniosa de paisagens, anunciando a chegada para breve. 
Na virada da curva suave, a visão do antigo terreiro, varrido com esmero como se pronto estivesse para receber os frutos da Rubiácea para secagem.
Mais alguns minutos, apeávamos junto ao avarandado da casa.
Alongando os braços e enchendo os pulmões com o puro ar do vasto sítio, invadimos o pomar.
E, lá vinham laranjas, campista, lima e seletas, os cambucás maduros, os abacates vergando os galhos carregados. Mais, cajueiros, ameixeiras, caquiseiros, abieiros, mangueiras. Os cajás-manga e as carambolas espalhavam-se pelo chão macio... Um sem-fim de doces frutas, tudo muito bem tratado, convidando a um saborear de nunca terminar.
         A vó, com muito carinho, convidou-nos para um cafezinho, ali moído e passado especialmente para nós, e fumegando à mesa, vestida com belas rendas, na sala acolhedora.
As cadeiras de palhinha realçavam a beleza da casa, onde os aparadores e o étagère requintado denotavam o bom gosto de um tempo de passar tranqüilo. As janelas esbanjavam vidros trabalhados com lindas garças em bucólicos panoramas; perene encantamento.
         A água cristalina viajando em meias-canas de bambu, abastecia sem pressa a casa, protegida apenas no cobrir das árvores e pelo imenso céu azul, toque rústico final àquela aquarela de muitas cores, gravadas em nossas memórias para sempre.
         Bem escolhido o nome: “Fazenda do Céu Azul”...
   

         -  Excerto de meu livro "Cheiro de Verão".





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