por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 23 de maio de 2012

64 - O "GALO" CANTOU...




Apesar do susto inicial, o passar dos dias fez dos confortos da cidade uma leve referência, tudo compensado, de sobra, pela ventura das novas descobertas: a vida indolente do sertão, o inebriante cheiro de mato e o ócio reconfortante de tempos sem responsabilidades.
Alberto e Marina deveriam sofrer com nossas irreverências, de certo, maus hábitos de meninos mimados da cidade grande.
Desde o primeiro momento os dois tornaram-se nossos amigos para sempre, e cúmplices de nossas peraltices ao longo daquela maravilhosa temporada, primeira de mais outras.
A liberdade da vida sem compromissos compensava as pequenas obrigações de todos os dias, verdadeiros desafios às nossas habilidades, força e rapidez: bombear água, carregar aos ombros pesados sacos de roupa suja, até o alto do morro, e gritar a plenos pulmões pelo socorro de Dona Maria, a lavadeira.
Também cercar cavalos no pasto e quando não mais possível adiar, uma cansativa faxina no quarto compartilhado por seis vândalos. Tudo virava uma competição, do mais forte, mais rápido ou mais adestrado.
 Evidentemente, Carlos Alberto e Jorge, já acostumados com a vida campeira, levavam alguma vantagem nas tarefas da gente da terra. 
         Na andança dos dias, o banho frio não era atrativo para apurar o asseio pessoal, deixando rapidamente de ser hábito diário. Muitas vezes, completava-se um tríduo malcheiroso; afinal, estávamos na época mais rigorosa do inverno, que nos anos cinqüenta eram certamente mais sentidos, talvez ignorantes da destruição causada pela crescente poluição, ou do devastador “efeito estufa” dos anos de depois.
         Querendo ou não, as disputas dividiam o grupo; os do São Bento, Jorge, Paulo e Afonso e os do São José, Carlos Alberto, Fadini e Leal.
Somente no carteado, à luz do lampião de pressão e prolongando-se até o cantar do primeiro galo, cada um respondia por si, para evitar brigas.
Apesar de nossas cautelas, em certa noite não foi possível evitar a pauleira.
O jogo corria solto. A todo o momento Beco pedia licença para ausentar-se. A cada saída correspondia nova vitória do nosso “tentação”.
 Desconfiado, em certo momento decidi segui-lo na ponta dos pés.
 Munido de vários baralhos nosso esperto amigo trocava as cartas escondendo as imprestáveis debaixo de seu travesseiro. Estava descoberta a farsa. Desnecessário descrever as cenas seguintes...
Em certos fins de semana, tio Álvaro e tia Nilda, nosso carinho fazia chamá-los assim, vinham até a fazenda, acompanhados dos filhos menores, Álvaro Augusto, Marco Antônio e Roseane.
Nestes momentos o comportamento devia ser esmerado, afinal não devíamos deixar má impressão. Mesmo assim não foi possível evitar um terrível e constrangedor acidente.
Certa noite, todos já deitados, éramos sete. Ao grupo somara-se o Luiz Mário, irmão do Carlos Alberto, e mais novo que ele. Aconteceu justamente de ele ter que sair do quarto por um motivo qualquer, carregando um lampião para iluminar sua caminhada. Rapidamente a combinação foi feita: quando retornar, deverá ser recebido com uma chuva de tudo que estiver ao alcance de cada um.
Em poucos minutos viu-se no corredor o clarear da aproximação de alguém.
Dado o sinal, despencaram sobre o chegante uma chuva de chuteiras, sapatos e... Consternação geral e vergonha sem limites. Não era o Luiz Mário e sim tio Álvaro que vinha dar alguma recomendação a seu filho Jorge. Silêncio embaraçoso.
Dia seguinte, à mesa do café, tio Álvaro apareceu com um “galo” na testa, protegido por um discreto esparadrapo.
Ninguém teve coragem de levantar os olhos do chão... Tio Álvaro não fez nenhuma menção ao acontecido.

- Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997.

          

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