por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 8 de maio de 2012

49 - MEUS "OLHOS AZUIS"


        
              Na “serra” as novidades não davam descanso.
        Num belo dia surgiram, para tentar estragar a “festa”, duas meninas, mais precisamente um par de irmãs, cheias de não-me-toques e salamaleques. Insuportáveis, as gurias. Na verdade, nem procurei saber os seus nomes !
         Intrometidas como só elas, rapidamente conseguiram do grupo uma unanimidade para a decisão final: “deveriam ser defenestradas, sem apelação”. Aí, começou a ser posto em prática um plano diabólico, sem piedade ou compaixão.
         Logo no primeiro dia de função, sumiram suas bicicletas. Como combinado: “ninguém sabe, ninguém viu ...”. Depois, um empurrãosinho na piscina, a barração no jogo de vôlei, e um  “chá de cadeira” nos bailes pré- carnavalescos no salão do hotel.
   Crueldade em doses cavalares !
         Finalmente, o objetivo foi alcançado: as meninas sumiram. Por mera coincidência, logo em seguida, as bicicletas foram encontradas, penduradas que foram no ponto mais alto do mais emaranhado dos bambuais, nos jardins, aos fundos do Hotel.
         A lição valeu.
 Alguns dias passaram, e as mocinhas estavam de volta. Mais sociáveis e menos pedantes, conseguiram a reintegração ao grupo, a ponto de  participar de nossas folias durante os dias de carnaval. Bons tempos aqueles quando os  “lança-perfumes” apenas causavam arrepios nas costas das meninas bonitas, sendo um argumento decisivo nos flertes iniciantes.
       Com o Brasil de presidente novo, cheios de esperança, afinal se falava em cinquenta anos de desenvolvimento em cinco de mandato, todos parecíamos muito animados para as brincadeiras, que começavam ainda pelas manhãs.
  Bem antes do meio-dia, encontravam-se vários “blocos-de-sujos” onde todos se divertiam.
          E lá estávamos nós, escondidos pela proteção de  fantasias de extremo mau gosto complementadas com máscaras feitas de pano vagabundo.
     Era o momento certo para ludibriar os guardiões das donzelas da “terra”; afinal o anonimato permitia aproximações mais ousadas, evidentemente contando com a colaboração, previamente combinada, com os alvos das abordagens.
         E as vozes  que fazíamos ? Absolutamente ridículas!
    A madrugada de quarta-feira de cinzas chegou precocemente, e junto com ela a nostalgia dos dias que não voltariam mais. As camisas suadas misturadas ao remanescente aroma dos lança-perfumes, o cabelo deixando à mostra derradeiros confetes, o silêncio contrastando com a bulha infernal das orquestras de até pouco tempo, tudo isto, só fazia  aumentar, em muito, a saudade que já apertava o coração.
         Para aumentar toda aquela angústia, alguém lembrou que  as férias chegavam ao fim. Segunda-feira, batente para todo mundo.
         Pouco a pouco, a turma foi-se juntando num extremado encontro de despedida na praça deserta. Uma voz fez-se ouvir: “vamos deixar na cidade a última marca de nossa passagem. Vamos homenagear os comerciantes, muitos dos quais não nos trataram com a fidalguia que a boa educação exigia. Mãos a obra !”.
         Rapidamente, numa união que só as grandes causas conseguem consolidar,  foi iniciada a missão final de nossa jornada: trocar o maior número possível de letreiros das casas comerciais.
     Em poucos minutos foram confiscados, provisoriamente, da oficina do hotel, como seria natural, todo ferramental necessário para a empreitada : escadas, alicates, torqueses, chaves de fenda e até um martelo, caso fosse preciso superar algum imprevisto inoportuno.
           Já era dia claro quando os trabalhos foram encerrados.
 Uma beleza. A “Farmácia Santo Eduardo” passava a chamar-se, a partir daquela madrugada, “Funerária Friburguense”, e também o açougue passou a camisaria, a padaria virou armarinho, e assim por diante.
         Agora era só aguardar o abrir das lojas e deliciar-se com o troca-troca de placas que ocupou os desapontados comerciantes durante todo o dia de cinzas e mais bom pedaço da quinta-feira.
         Ninguém, no grupo, deu pela falta de uma noite de sono.
A sexta-feira foi gasta na  arrumação das malas, nas últimas despedidas, e na consumição da saudade dos meus “olhos-azuis” !

Obs. - trecho de meu livro "Cheiro de Verão"
  














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