por José Carlos Coelho Leal

domingo, 27 de maio de 2012

67 - 'CASA DE CHÁ DO LUAR DE AGOSTO"


 
A manhã nem começara quando fomos desafiados a interpretar um bilhete encaminhado a Dona Elvira.
A escrita garranchosa era mais ou menos assim : “Us coloio ton for gordon. Uamos aporo ueita auca tião. Roca mas unis pastus...”
Concluímos, após rápida consulta àquele papelucho disforme,  tratar-se provavelmente de um texto multi-idiomático. Conhecimentos postos à prova, eis a tradução : “Os colonos estão folgados. Vamos aproveitar a ocasião para roçar mais alguns pastos...”.
Naquelas últimas duas semanas a fazenda deixaria de ser só nossa, a turma dos seis. Tia Nilda iria aproveitar com sua tropinha os últimos dias de descanso.
Agradável surpresa: viria também uma convidada especial, Tania.
A notícia deixou-me entre eufórico e apreensivo, afinal não sabia dos sentimentos de minha eleita. Deveria ter muito cuidado para não por tudo a perder. Confesso: não gostei nada da reação do Afonso ao saber da chegada da irmãzinha do meu amigo. Ficou muito entusiasmado o “velhaco”.
Com tia Nilda, alargaram-se os horizontes. Conduzindo com muita desinibição a pick-up verde, os passeios multiplicavam-se. Várias idas e vindas a Cantagalo, compras em Cordeiro, passeios às fazendas do tio Neco e Sidoque ...
Rapidamente todos estavam a postos para uma saída, fosse para onde fosse. Na cabina iam Tia Nilda, Roseane, Tania e Marina, esta, quando permitiam suas ocupações. Atrás, na carroceria, misturados a sacos de ração, o resto do grupo, enfrentando na maior farra o jogar das curvas, o baque nos buracos, o vento, o frio e quando em vez, uma chuvinha impertinente.
Quando na fazenda, já noitinha, tia Nilda convocava-nos para uma oração coletiva, passos lentos pela estrada, quase sempre um piedoso terço e as ladainhas de Nossa Senhora.
Pelas manhãs, nova convocação: todos devíamos dividir a responsabilidade de tomar conta da Rose, então com três ou quatro anos; até que a missão não era das mais difíceis!
Em dias “inspirados”, Carlos Alberto era o que mais  “aprontava”.
Com a colaboração da  Marina, por exemplo, certa tarde, costurou as pernas das calças e as mangas dos pijamas de todos, fato desagradável só descoberto quando na penumbra do quarto, já tarde da noite, tiritando de frio descobriu-se a impraticabilidade de proteger-se do frio como todo bom “cristão”.
Aliás, Carlos Alberto “inspirado”  era desassossego certo para todos.
 Às vezes, puxava longas ladainhas, a seu modo, é claro, exigindo um coro afinado a responder : Saanta Camílae ! Ora pro nobis; Saanta Elvírae! Ora pro nobis; Saanta Marínae! Ora pro nobis... , e por aí continuava, sem parar, por longos minutos, inventando santos, ou “gozando” os mais chegados, notando-se de quando em quando uma pontinha de pirraça, maldades subliminares só compreendidas pelos “entendidos”.
Fazia sucesso na época o filme “Casa de Chá do Luar de Agosto”, estrelado por Glenn Ford fazendo papel de um militar americano, e Marlon Brando interpretando magistralmente um nativo japonês, o Sakini. 
Uma cena famosa do filme mostrava uma viagem que seria feita por Ford, de jipe, onde todos os nativos liderados por Sakini, Marlon Brando, tinham motivos de sobra para pleitear uma carona no pequeno veículo, carregando de tudo, deixando totalmente embaraçado o militar que tinha a missão de angariar a amizade do povo dominado pela conquista americana. No filme, esta cena era hilariante.
Pois bem, Carlos Alberto, decidiu parodiar esta cena fazendo com que todos participassem do enredo. O palco para este espetáculo, foi a velha cozinha da fazenda. Até cabra, patos e galinhas participaram da encenação.
Coisa de louco !
Mais umas férias de deixar saudades ...

OBS - Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

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