por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 3 de maio de 2012

42 - UMA NOVA AMIZADE


         Felizmente, e não era sem tempo, as coisas começavam a melhorar.
         Na realidade a bicicleta trouxe-me um grande alento.
Imagino o sofrimento de Dona Tininha conjeturando por onde andaria seu filho, agora se locomovendo por seus próprios meios. Acho até que ela tinha uma dose de razão, pois por mais de uma vez me vi em maus lençóis vítima de fechadas indecentes forçadas pelos famosos “lotações” que não circulavam e sim voavam pela cidade, impunemente.
Com o tempo estes motoristas “loucos” dos lotações, a maioria portugueses, conseguiram constituir companhias transportadoras. Hoje, quase todas as empresas de ônibus estão nas mãos desses, agora, ricos empresários. Mas isso é outra história nem sempre com final feliz...
         Livrando-se da Marinha, Guido tinha mais tempo para ficar em casa. Costumava estudar com um grupo de colegas de faculdade. Eu ficava muito atento ao que conversavam e me alegrava muito ver de novo a casa cheia.
         Ao vê-los estudando, mesa repleta de papéis e livros impressionava-me sobremodo a destreza com que manejavam a régua de cálculo e acho que estas jornadas influenciaram-me definitivamente na escolha de minha carreira de engenheiro.
         Mamãe preparava uns lanches memoráveis. Eu não abria mão de participar desta saborosa folia e meio como enxerido, participava das animadas conversas com o Hélio, o Duarte, o Hugo e o Pedro Humberto, amigos de meu irmão e agora já íntimos de mim também.
         Numa das visitas de papai ao Rio, ganhei uma jóia, um rádio de pilha, grande novidade para a época. O meu “Transistone Philco” era lindo e foi um grande companheiro ao longo de muitos anos.
         O rádio tinha um som muito bom e, bastava chegar a casa para ligá-lo. Lembro muito de dois programas meus preferidos. Às 18 horas na Rádio Eldorado, “Um piano ao cair da tarde” e à meia-noite, na Rádio Maua, “Viva meu samba” com Oswaldo Sargentelli, sempre com uma atração ao vivo. Quase sempre dormia ao ritmo de música bem brasileira, de boa qualidade.
Poucos anos mais tarde ouvindo este mesmo programa entusiasmei-me demais com a bossa-nova que começava a fazer sucesso. Toda noite o programa terminava com “Se todos fossem iguais a você; que maravilha viver...”, por muito tempo minha música preferida.
         No colégio as coisas continuavam ruins.
Lembrava muito de uma frase dita à exaustão pela mamãe: “Cria a fama e deita-te na cama!”. Rapidamente ganhei a reputação de mau aluno e ficava cada vez mais difícil reverter este quadro. Bem que eu tentava, mas vez por outra, até incentivado por colegas, lá estava eu a inventar bobagens e a complicar minha situação. No entanto, continuava procurando mudar meus hábitos, tentando de tudo para fugir de um desastre iminente.
         Abandonei definitivamente meu bonde 64 indo todos os dias de bicicleta para o colégio. Por coincidência o Giffoni também fazia o mesmo e por guardarmos nossos veículos no mesmo lugar, estreitamos a nossa amizade.
Pelo menos uma vez por dia, na hora da saída, trocávamos algumas palavras enquanto ajeitávamos nossos materiais prendendo-os com um elástico reforçado na garupa da bicicleta.
         Um belo dia, por causa de um trabalho de francês, em que desesperadamente precisava aumentar minha nota, surgiu a oportunidade de ir pela primeira vez à sua casa. Já era noitinha quando apeei da bicicleta. Ao longe ouvia barulho de louças e um conversar de muitas vozes.
         Bati palmas, uma, duas, três vezes e quando já me dispunha a ir embora fui recebido por uma velha empregada que com muita simpatia me conduziu à sala, com móveis antigos bastante escuros denotando certo requinte.
De onde estava certifiquei-me que realmente a família jantava e confesso que fiquei um pouco constrangido com minha visita inoportuna.
         Consegui identificar a voz de meu amigo que provavelmente discutia com um dos irmãos a respeito de uma criação de frangos, ou algo parecido que exploravam mum terreno ao lado da casa.
         Logo surgiu a dona da casa trazendo um cafezinho e dizendo do prazer em receber um colega do filho na sua casa. Depois, o Carlos Alberto apareceu com o caderno prometido. Conversamos os três, por um breve espaço de tempo. Agradeci e retirei-me em seguida.
         Aquela casa parecia-me especialmente acolhedora. Conseqüência, talvez, da carência de afeto que sentia naqueles últimos tempos. O certo é que enquanto acelerava minha bicicleta, uma alegria inexplicável sacudiu meus sentimentos.
         Algo teria acontecido...


- "Cheiro de Verão" - 1997.





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