por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 24 de maio de 2012

65 - O FRIO E O FUTURO


        
Em noites de muito frio, sentados ao redor da mesa da sala e protegidos pelos cobertores envolvendo os ombros, comprimindo-os ao peito com as mãos geladas, rolavam intermináveis papos, devaneios sobre o destino, nossas profissões, nossos amores, namoradas e até as famílias que certamente iríamos constituir corridos mais poucos pares de anos.
         - Quando pequeno passeio certo em muitos domingos de sol era ir à Praça Mauá. Agarrado à mão sempre quente de meu pai, com olhos brilhantes, acompanhava os transatlânticos atracarem no cais, as manobras dos navios de guerra e a chegada dos pesqueiros sonolentos saudados por uma revoada de gaivotas ariscas.
         Fui interrompido abruptamente.
         - Lindo! E daí?
         - Daí que, empolgado com o que via, não tinha dúvida: minha futura profissão seria a de Oficial de Marinha.
         - Milico?
         - É, mas isto foi coisa de garoto. Agora, não estou tão certo. Engenharia deverá ser minha carreira, talvez influenciado por meu irmão e orgulhoso do que ouço falar de meu avô.
         - É por aí que eu vou; certamente serei seu colega - retrucou o Fadini.
         De repente, ouviu-se o estalar de madeiras. O relincho grave e repetitivo de um cavalo aflito ecoou pelo vale silente. Ato contínuo, o galope nervoso do macho cruzou o terreiro, direção certa, morro acima, até onde pastavam as éguas.
         - É o Brasão - disse Jorge. É sempre assim. Alguma fêmea deve estar no cio e é impossível resisti-la, ainda mais o Brasão. É a força da natureza...
         Passado o inusitado, foi retomado o fio da meada.
         - Desde muito pequeno quero ser médico, apesar das dificuldades de um curso longo e bem mais difícil do que o de engenharia. Serei doutor, com toda certeza - ufanava-se, Afonso, com sua pose peculiar.
         Jorge interrompeu a cantilena emproada do  petulante:
         - Meu caso é o comércio. Não vejo a hora de trabalhar com meu pai.
         - Ainda tenho dois anos para pensar - arrematou Paulo, o mais jovem da turma. Por enquanto, acho advocacia uma bela profissão. E tem mais, o vestibular é bem tranqüilo; nada de noites insones sobre os livros! 
         Enquanto alguém reclamava do frio que aumentava, fez-se uma quietação prolongada, prenunciando o fim do bate-papo. Todos sentiram o apelo convidativo do aconchego de uma cama mais quentinha.
         - Falta o Carlos Alberto!
         - Meu caso é mais complicado. Certamente, ano que vem, estarei na Faculdade de Farmácia. Com meus irmãos, Paulo, estudando geologia em São Paulo e Luiz Mário, no Colégio Naval, acho que devo continuar os negócios de meu pai à frente do Laboratório Giffoni - completou o Beco, sem muito entusiasmo.
         Mais tarde, aquecido pelas várias cobertas que me protegiam, cismei sobre tudo que faláramos naquela noite. Como nunca, senti a necessidade de uma namorada para partilhar comigo todas aquelas incertezas.
         O quê o futuro reservaria para cada um de nós?   
                                                                                            

        - Excerto de meu livro "Cheiro de Verão"


Nenhum comentário:

Postar um comentário