por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 1 de maio de 2012

38 - UM SENTIMENTO NOVO


         Com o passar dos anos a vila foi se transformando.
No meio da década de cinqüenta, alguns personagens já haviam saído de cena. Meu mundo também alargava-se, e novas amizades começavam a ser cultivadas, algumas definitivas.
         Arne e Birggit foram morar em Lugano, na Suiça. Logo-logo recebi cartões postais do lago de Lugano, entre a Suiça e a Itália e de catedrais medievais.
Wanda ( ah, seu olhar! ) e Odilon, nunca mais os vi. Seu  Walter e Dona Zita bem como Seu Álvaro e Dona Tereza foram morar no Edifício Genarino, durante alguns anos o mais alto da Tijuca, pertinho, ali na Rua Sabóia Lima.
         Depois foi a vez  do Dr. Rui, Dona Heloísa e seus filhos Luiz Edmundo e Paulo, ainda bem garotos, mudarem-se, também para perto, um prédio novinho construído no início da Rua Dezembargador Izidro, o Hermínia.
         Seu Karl partiria para sempre. Sua idade avançada não permitiu que sobrevivesse a uma bebedeira sem limites. Um infarto surpreendeu-o em pleno botequim do Seu Lourenço.
Foi um grande choque para todos.
         Karl, o “Velho Alemão”, sofreu durante anos as chacotas da criançada, e dos mais crescidinhos também, que impiedosamente teimavam em não respeitar suas neuroses de guerra, saudando-o com um  cínico “Viva Rommel!...”, ao que ele respondia com forte sotaque germânico, em altos brados, encolerizado, a vermelhidão a subir ao rosto tremente: “Vai emborra filho de puta!”.
Muita gente dormiu com bastante remorso naquela noite . Por alguns dias nossos ouvidos pareciam escutar de muito longe: “Vai emborra ! Vai emborra!...”.
         A vila parecia ficar cada vez menor, e seu encanto já não era o mesmo.
Passei a gostar muito de cinema que freqüentava com assiduidade. Também de assistir, quase sempre fugindo ao cerco de Dona  Tininha, aos jogos de futebol no Colégio Baptista, que tinha um time invejável. 
         Sem perceber surpreendia-me de “boca aberta” quando cruzava com dois “brotinhos” sensacionais, Silvinha e Carminha, que insistiam em ficar horas a fio numa conversa de não mais acabar em frente ao Edifício Genarino.
E eu de longe, sentado nos degraus do portão da vila, olhar meio que perdido, abafava platonicamente um sentimento novo, que ainda não sabia explicar.

- Crônica de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

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