Naquele início de 1956 muito se falava da “juventude transviada”, da “geração coca-cola” e dos “rebeldes sem causa”. Imagino a preocupação dos pais com o comportamento dos filhos.
Os “transviados” até hino tinham. Começava mais ou menos assim:
“Nos somos da juventude
Da juventude transviada
O lema da nossa escola
E a lambreta e a coca-cola...”
E mais adiante :
“Arroz se come com feijão
Cachaça se bebe com limão
Porém se a pátria amada
Precisar da macacada
Saberemos dizer não...”
Evidentemente não vestíamos tal modelo.
O principal momento de encontro da mocidade era nos bailes, quase sempre realizados nas casas de família havendo ou não, motivo especial - tempos em que à classe média ainda era permitido morar em casas
As “soirées” aconteciam geralmente nas noites de sábado, sempre sob o olhar vigilante das mães que levavam as filhas e suas coleguinhas, encarregando-se de devolvê-las aos seus lares sãs e salvas nas primeiras horas da madrugada.
Era comum exigir-se dos rapazes o uso de paletó e gravata combinando com o cabelo curto, penteado com rigor, e assentado com “brilhantina” ou “gumex” arrematando um pomposo topete.
As moças exibiam exuberantes penteados fixados com “laquê” e muitas vezes avolumados com a ajuda de um chumaço de “bom-bril”. Usando vestidos rodados e protegidas por muitas anáguas, aguardavam com ansiedade de um lado do salão a aproximação de um rapaz convidando-as para uma dança.
O “chá de cadeira” era humilhação de umedecer os olhos.
Com rostos - quando a vigilância permitia - ousadamente coladinhos, os pares deslizavam ao som de músicas suaves, invocando uma doçura de despertar os mais nobres sentimentos.
Quantos romances começaram ao som da voz de Nat “King” Cole cantando An Affair to Remember, Autumn Leaves, Unforgettable ou, ainda, embalados ao vibrar dos metais da orquestra de Ray Conniff ?
Os mais “avançadinhos” demonstravam sua rebeldia exagerando da Cuba Libre e passavam, automaticamente, à lista das Personas non Gratas e provavelmente esquecidos de futuros convites.
Poucos tinham carro - faltavam, ainda, alguns anos para a implantação da indústria automobilística no país . Os trajetos de retorno aos lares eram feitos utilizando-se os ligeiríssimos “lotações”, micro-ônibus de 20 lugares, onde todos viajavam sentados, e que circulavam durante toda a madrugada, principalmente nas noites de fins de semana.
Os maridos delegavam às mulheres a tarefa de acompanhar as filhas e, raramente, um pai era visto freqüentando estes “saraus”. Muito provavelmente reflexo de uma cidade segura, com suas ruas guarnecidas pelos “Cosme e Damião”, assim apelidadas as duplas de guardas que circulavam a passos cadenciados pelas calçadas, e pelos “guardas noturnos” com seus nostálgicos “apitos” sibilantes a furar o silêncio da noite alta.
Normalmente, alguns “heróis” se ofereciam para acompanhar as jovens donzelas, naturalmente acompanhadas da mãe “escudeira”, até suas casas.
Muitas vezes estes passeios eram o melhor da “festa”; muitas mãos se encontraram e inocentes beijos foram roubados no aconchego dos bancos apertados do “coletivo” veloz a fazer “abençoadas” curvas fechadas, aproximando definitivamente os casais ainda “castamente” separados.
Missão cumprida, a volta era feita muitas vezes à pé, visto que a “mesada” curta deveria ser guardada para melhores proveitos. Acelerando os passos, casacos pendurados no dedo indicador com as costas das mãos apoiadas nos ombros suados, selecionávamos o litro de leite e o pão fresquinho, a poucos instantes depositados à soleira das portas das casas a espera de seus legítimos donos, e que deveriam ser sumariamente confiscados, a título de empréstimo, evidentemente.
Com um grande senso de reponsabilidade e justiça social, escolhíamos a casa mais abastada para tal apropriação; com sofreguidão, matávamos a fome que começava a fazer-se presente.
Em dias sem muita pompa as festinhas mais simples reuniam moças e rapazes para um “Copo d’água dançante” ou um “Arrasta” como diziam os mais moderninhos.
Aí, em qualquer sala de apartamento, com os moveis devidamente afastados para um canto, improvisava-se uma pista de dança com espaço suficiente para os pares enlaçarem-se ao som de uma moderna e possante Hi-Fi com capacidade de até cinco discos 78, ou no caso das mais modernas, “bolachas” de 33 rotações e 12 polegadas . Chegara a época moderna dos long-playings !
Quando havia necessidade de animar a turma, aumentava-se o volume da eletrola ao som de um novo ritmo : “one, two, three o’clock, four o’clock rock ! five, six, seven o’clock...” , música usada na trilha sonora do filme “Sementes de Violência” com Glenn Ford e Sidney Poitier que nos Estados Unidos chegou a gerar explosões de violência nas cidades onde fora exibido.
Coisas da “juventude transviada” inspirada no filme do mesmo nome, estrelado pelo ator representativo de toda a rebeldia do momento, James Dean, que morreria em setembro de 1955 num acidente envolvendo sua Porsche Spyder.
Na verdade, aquele ritmo alucinante nunca fez muito minha cabeça. Preferia as músicas mais suaves ou quando não, o ritmo vibrante das “big-bands”.
As vezes o sucesso de uma festa era mais caseiro. Bastava um disco qualquer, bem nacional, de “Waldyr Calmon e seu Conjunto” para fazer todo mundo dançar, nunca olvidando o toque bem brasileiro de um samba cadenciado.
A agulha da vitrola gastava-se rapidamente deslizando sem parar sobre “Uma Noite no Arpege nº 1, nº 2, nº 3 ...” As faixas, bastante longas, faziam a felicidade dos pares enamorados.
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