por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 4 de maio de 2012

45 - SERENATA PARA LAURA


         Um dia daquele janeiro de 1956 valia muito; devia ser saboreado como se degusta uma taça do champanhe da melhor safra, deleitando-se da doçura de cada pequeno gole.
Era a liberdade fermentada em uva espumante.
         Coisa “muito séria” aquelas férias. O longo café da manhã no salão do hotel era o ponto de encontro onde se planejava o que fazer, normalmente passeios de bicicleta que a cada dia ficavam mais longos e mais desafiadores.
         Um  bom começo : o  Parque São Clemente, com seus imensos gramados, seus lagos atalhados por românticas pontes, testemunhas de longas conversas algumas quase sussurrantes, em belos exercícios de futurismo feitos, sempre que havia oportunidade, a dois.
Minhas primeiras sensações de homem e mulher, o masculino e o feminino, suas visões, sonhos, verdades e inquietações.
         Na volta, todos juntos, as vezes dez, doze ou mais rapazes e moças.
Devíamos fazer um belo espetáculo somando nossas bicicletas coloridas às muitas que faziam de Friburgo uma cidade especial, a cidade  das bicicletas.
Valia o suor despendido no pedalar ofegante para levar no quadro ou na garupa  a menina mais bonita ou aquela que no momento fazia mais sucesso junto à turma. Afinal, o que valia mesmo era a brincadeira, a sensação de estar vivendo intensamente aquela “sorte grande” que o destino nos presenteava.
         No restaurante do hotel - restaurante seria um nome muito pomposo para o que nos oferecia o Engert - todos reuniam-se novamente. O apetite atiçado pelas energias gastas pela manhã fazia com que ninguém se atrasasse.
         No refeitório - melhor assim - eram servidas pelo garção Alcides as refeições preparadas pelo Seu Lulú - o “carcereiro” - como fora apelidado por alguém com o assentimento de todos.
Durante o almoço combinava-se o que fazer à tarde : vôlei, à sombra do bambual do hotel, ou piscina no Olifas, ou ainda uma pescaria no Parque Dom João VI ?
Nos dias de chuva, o “pingue-pongue”, o “banco imobiliário” ou mesmo, um carteado, faziam a festa.
         À noite, um cineminha.
Os três cinemas da cidade, Eldorado, o melhor deles, Marabá e o Leal, poeirinha simpático todo de madeira e com um balcão com cadeiras rangentes, local preferido para uma bagunça discreta, trocavam de filme no máximo de três em três dias, o que garantia programa certo para todas as noites e saciando todos os gostos.
         Era oportunidade, inclusive, para rever os melhores filmes que já tinham saído de cartaz no Rio, alguns já há bastante tempo.
Lembro-me de grandes sucessos que vi naquelas férias; muitos se tornariam clássicos como por exemplo, “Os brutos também amam - Shane”, até hoje o meu “western” predileto, ou  “Sindicato de Ladrões”, ou “A um passo da eternidade”, e ainda “Depois do vendaval” estrelado pela minha atriz preferida da juventude,  Maureen O’Hara, a inesquecível e indomável “Mari Kate”.
         Um dos filmes antigos revisto naquelas férias foi “Laura” cujo lindo tema musical fez com que o Ronaldo, apaixonadíssimo pela Laura, nossa companheira de todos os dias, organizasse com muita dedicação uma serenata que deveria ser acompanhada por todos os rapazes.
A função deveria acontecer de preferência em noite de luar, à janela do quarto da moça, o mais rapidamente possível, o que foi feito com muito sucesso.
         Resultado: muitos suspiros e muitas lágrimas também, principalmente dos “coroas” daquela ala do hotel que ficaram enlevados, certamente recordando os bons tempos que pareciam estar de volta.
Foi emocionante !
Mas, e o cinema ?
         Acabada a sessão, quase sempre complementada com uns docinhos com coca-cola no “Danúbio Azul” e depois, já sem as moças, o programa poderia ser: uma pescaria noturna no Parque São Clemente, roubar jabuticabas no Tiro de Guerra na Praça do Suspiro, ludibriando a guarda de prontidão, um papo descontraído sobre os acontecimentos do dia nos bancos da Praça Getúlio Vargas, e nos dias mais frios, um carteado na varanda do hotel, aquecidos por goles de um vinho de quinta categoria.
         Noite alta, o sono profundo precedia um novo dia, certamente cheio de fortes e perenes emoções.
         Em tempo: tanto o Parque São Clemente como a atual Praça Getúlio Vargas, foram projetadas pelo paisagista Auguste François Marie Glaziou, um botânico que veio do Museu de História Natural de Paris para ser nomeado, por Dom Pedro II,  Diretor de Parques e Jardins da Casa Imperial.
         O casarão do parque, na segunda metade do século XIX, foi residência do Barão de Nova Friburgo (*) e do Conde, seu filho. Nele ocorreram grandes festas, inclusive com a presença do Imperador.
         Quanto a Glaziou, participou de diversas obras paisagísticas importantes como: a atual Praça Tiradentes, o Largo de São Francisco, os jardins da casa da Marquesa de Santos, bem como  o Passeio Público e os jardins da Quinta da Boa Vista.
         Os eucaliptos e casuarinas seculares plantados ao longo das alamedas da praça serviam para drenar o pântano que primitivamente existia no local, segundo a lenda, a cratera de um vulcão extinto.
         Na Praça do Suspiro atraiam a atenção dos visitantes a gruta e a fonte. Diziam: “cuidado com a água, quem a tomar acaba sempre voltando a Nova Friburgo”.
         E precisava tomar dessa água ?...



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(*) – O Barão de Nova Friburgo, português de uma família de “cristãos novos” originada em Ovelha-do-Matão, no interior de Portugal,  formou riquesa com o comércio do café na região, chegando a ser dono de 15 fazendas localizadas em Cantagalo, Friburgo e São Fidelis.
Em 1858 adquiriu uma propriedade no Rio de Janeiro, o que seria mais tarde o Grande Hotel Internacional, posteriormente Palácio do Catete e hoje, Museu da República.


- Capítulo de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997.

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