Logo, também eu ficaria apaixonado pôr um “brotinho” da terra, a Leila, e novamente o “fantasma” das noites insones começaria a me afligir.
Aqueles olhinhos azuis não abandonavam meus pensamentos. Não devia ser muito estudiosa pois freqüentava o colégio das “Dorotéias” apesar de ser período de férias. Provavelmente alguma “Segunda Época”.
Mesmo vestindo aquele uniforme de colégio de freiras, era uma “gracinha”.
Em alguns fins de semana, poucos felizmente, papai e mamãe faziam uma visitinha de inspeção. Logo ao entrar no quarto, Dona Tininha exclamava: “Isto aqui está um cochichó de porca velha !”, e passava algumas horas procurando colocar tudo em ordem. Cochichó : vale uma consulta ao “Aurélio” !
A tranqüilidade voltava no domingo à tarde quando após ouvir uma série de recomendações, da mamãe, naturalmente, deixava-os no ônibus da Viação Friburguense com destino ao Rio, via Niterói.
Havia momentos em que o dinheiro acabava, e prevenido como sempre foi, papai providenciara, previamente, socorros de emergência.
Nossos salvadores eram dois de seus amigos, o Zarife da casa “O Dragão” e o Elias da “Casa das Meias”. Um turco e outro, judeu. Na hora do aperto recorríamos aos empréstimos de cada um deles
“Semana passada vocês foram pedir dinheiro àquele judeu. Na certa foram mal tratados. Não façam isso! Procurem sempre o Zarife que é grande amigo de seu pai! Não façam mais isso! De quanto vocês estão precisando mesmo ?...”, vociferava o Zarife, cenho bem carregado.
Era sempre assim, cada um querendo atender melhor que o outro, falando com seus sotaques característicos, envolvidos nas eternas questões de conflitos raciais.
Na medida do necessário tirávamos proveito desta competição. Ao papai restava pagar a conta, em cada visita que fazia a Friburgo, naturalmente sem incluir juros.
Tudo coisa de amigo, de “bons amigos”.
Em certos dias, sei lá por que motivos, o Luiz Cesar incorporava as responsabilidades de meu pai e minha mãe ao mesmo tempo. Havia de ter paciência para aturá-lo e não “entornar o caldo” de vez, certamente com prejuízos para mim.
Vejam só !
Num dia azedo, não lembro mais por qual motivo, o senhor “tutor” decidiu castigar-me, proibindo a saída do quarto após a almoço. Situação mais que ridícula ! Fiquei com muita raiva e humilhado de sobejo.
A reação foi imediata e bastante corporativa. Fizeram até passeata pelo hotel pedindo minha liberação. Luiz curvou-se à maioria, e raciocinando com mais clareza - provavelmente considerando meus quinze anos - resolveu voltar atrás. Meu algoz tinha dezenove anos e se achava o "Rei da cocada- preta"!
Afinal, fui libertado.
Eu continuava com raiva, a cabeça quente, mas finalmente livre.
Acho que roguei tanta praga para ele que na madrugada seguinte fui acordado por meu “algoz”, que com febre muito alta pedia ajuda.
Providenciado um antitérmico, o efeito foi tão brusco que em pouco tempo a temperatura descia próximo a 35ºC. Nosso paciente precisava urgentemente ser aquecido.
Talvez uns bons tapas fizessem efeito, mas isto não teria coragem de fazer e nem seria um ato cristão. De um só pulo, troquei de roupa e saí pela cidade adormecida a procura de um bar que pudesse fornecer um café, o mais quente possível, de preferência fervendo, para tirar nosso “enfermo” da crise aguda que o acometera.
Em vão ! Tudo fechado na madrugada deserta.
De volta ao hotel, a situação era a mesma. Só restava uma alternativa, chamar a mãe do Jaime, no quarto bem ao fundo de nosso corredor, e pedir ajuda.
Resultado: invadimos a cozinha do Seu Lulú para coar um café bem quente que foi passado num coador gigante apoiado num “mancebo” não menos colossal. A cena foi por demais hilariante. Tanto aparato para encher uma pequena xícara de café.
Finalmente a fumegante infusão foi sorvida pelo “doente” que em poucos minutos dormia tranqüilo.
A “vida” de meu irmão estava salva !...E eu, com a alma lavada...
- Trecho do meu livro "Cheiro de Verão"
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