por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 17 de maio de 2012

59 - "INTERMEZZO"




         O relembrar é uma atividade mental que não exercitamos com freqüência porque é desgastante ou embaraçosa. Mas é uma atividade salutar. Na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos decorridos, os mil fatos vividos”, escreve Norberto  Bobbio em “O tempo da memória”.
         Para mim, relembrar não tem sido decididamente desgastante ou embaraçoso. Talvez, quem sabe, mais adiante, mude de opinião, forçado que possa ser por algum acidente de percurso.
Concordo que este reencontro tem sido realmente salutar, repleto de  momentos de intensa emoção. Até agora o passado não precisou de retoques e nem estive tentado a fazê-los.
Ainda, Norberto: “Quando percorremos uma vez mais os lugares da memória, os mortos perfilam-se em torno de nós em número cada vez maior. Parte dos que nos acompanharam já nos abandonou. Mas não podemos apagá-los como se nunca tivessem existido. No momento em que os trazemos à mente, os fazemos reviver e ao menos por um instante não estão de todo mortos, não desapareceram no nada... São os afetos que o tempo não consumiu”.
         Palavras  verdadeiras; as tenho vivido intensamente ao longo destas páginas. Sinto a felicidade perene de viver novamente tantas experiências, mesmo aquelas carregadas de dor ou desânimo. Como foram importantes!  Só agora posso avalia-las, alma aberta, sem prevenção ou atitudes preconcebidas.
A rigidez de minha mãe, a ausência várias vezes sentida de meu pai, mescladas ao contrastante cheiro de verão, resultaram em profundas vivências, somente consolidadas na maturidade conquistada a pouco e pouco.
Sinto-os perto, como que participando comigo de cada lembrança, cada sorriso ou lágrima desta história. Visto assim, restam apenas suaves reminiscências, boas de saborear. Todas misturadas no tempo, desde a cadeira de balanço que embalou os meus primeiros sonhos, ao frio chão de ladrilhos da madrugada na varanda lá de casa em noite de vigília, porta trancada à rebeldia juvenil.
Minha avó, meus tios, os vizinhos, muitos amigos... Quantos já se foram e agora quando as recordações vêm ao meu auxílio, estão de novo junto a mim e me acompanham nesta jornada. Tem sido muito bom tê-los de volta.
Mais uma vez, Norberto Bobbio: “...o que logramos desencavar desse poço sem fundo, é apenas uma ínfima parcela da história de nossa vida. Nada de parar. Devemos continuar a escavar! Cada vulto, gesto, palavra ou canção, que parecia perdido para sempre, uma vez reencontrado, nos ajuda a sobreviver”.
Confesso: já não sinto o imenso desalento das primeiras linhas.
Ainda há muitas laudas a viver...
 
            - Trecho de meu livro "Cheiro de Verão"

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