Nos últimos anos do ginásio fiz forte amizade com o Maurício Mendes.
A extrema simplicidade era seu traço marcante. Morava lá pelas bandas do Alto da Boa Vista e jogava um futebol de alta qualidade. Era um ponteiro veloz, característica muita admirada naqueles tempos, principalmente depois do aparecimento do Garrincha. Com sua fala mansa e seu jeito tranqüilo, transformava-se em campo. Gostava muito de vê-lo jogar. Eu o admirava muito.
Naquele janeiro de 1955 estávamos na mesma situação: teríamos que prestar as temidas provas de segunda época em inglês. Aliás a minha condição ainda era pior pois havia também a terrível matemática.
Com o tempo descobri que a timidez do Maurício tinha causas mais profundas, certamente conseqüência da precária condição financeira de sua família. Ajudava-o na medida do possível, tomando sempre o cuidado de não humilhá-lo.
Quanto aos exames, a coisa estava tão difícil que fui obrigado a tomar aulas particulares com Dona Ignez, uma simpática velhinha, avó do Mario Monteiro, colega de infância do Guido. Achei que era uma boa oportunidade para ajudar ao meu amigo e o convidei para participar graciosamente das aulas comigo.
Finalmente fizemos a prova e a espera do resultado foi coisa para poucos dias. No dia marcado, bem cedinho, já estava no Colégio na expectativa da publicação das notas. Logo chegava o Maurício, muito transtornado, falando coisas que eu não conseguia compreender.
Depois de algum esforço e de certa dose de paciência entendi a questão. Aí, começou o meu pânico.
Na realidade Maurício era bolsista e caso fosse reprovado perderia a bolsa e a possibilidade de continuar os estudos. Seu pai era muito severo e ele não teria coragem de dizer a verdade. Em meio aos prantos que o envolveu, ouvi-o claramente balbuciar: “se eu não passar, dou cabo de minha vida!”.
No colégio deserto, os minutos custavam a passar. Finalmente a lista foi exposta. Eu havia passado; o Mauricio, não.
Estava armada a confusão. O quê fazer? Abandonar o meu amigo numa hora destas? Agarrei-me com todos os santos e finalmente apareceu uma companhia salvadora na figura de um colega de turma, o Carlos Alberto que tinha ido ao colégio naquela manhã sei lá por qual motivo.
Contei-lhe rapidamente o que se passava, obtive sua solidariedade e juntos levamos com muito cuidado e atenção, medindo cada passo, o Maurício até sua casa. A mudez de nosso companheiro era aterradora, e a viagem de bonde até as proximidades das Furnas da Tijuca parecia não mais acabar.
Felizmente tudo terminou bem. Pelo menos o suicídio não passou de uma ameaça.
Do Maurício nunca mais soube notícias. Certamente foi obrigado a trabalhar e estudar. Espero que a vida tenha sido boa para ele após este drama que compartilhamos.
Quanto ao Carlos Alberto que havia sido meu colega desde o primário sem nunca partilharmos maiores amizades, passou a entrar na lista de meus camaradas mais chegados.
O destino preparava suas surpresas e anos mais tarde Carlos Alberto Curty Giffoni se tornaria meu cunhado.
Obs. -Trecho do meu livro "Cheiro de Verão"
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