Janeiro de 1957.
Novamente férias! Desta vez, sem surpresas desagradáveis. Nada de “bombas” ou “segundas-época”.
Guido, já formado, foi trabalhar em São Paulo junto com seu colega de turma Hélio. Engenheiros da ABCP - Associação Brasileira de Cimento Portland, moravam num Hotel bem no centro velho da cidade, um quarteirão não muito recomendável.
“São Paulo Quatrocentão”.
A cidade ainda guardava, com orgulho, as marcas das festas do IV Centenário que a engalanara ao longo de 1954.
Não perdi a oportunidade e fui passar alguns dias com eles.
Quase noivo, e muito comportado, Guido habitualmente não saía à noite.
Restavam duas opções: aproveitar a companhia do Hélio, ótimo contador de piadas ou, o que era mais comum, sair com o Fadini que usualmente passava as férias em São Paulo na casa dos tios. Namorando uma paulistana metida à besta, meu amigo às vezes me deixava a “ver navios”; o jeito era sair sozinho e enfrentar o assédio das mocinhas da noturna paulicéia antes de retornar ao hotel.
São Paulo tinha os mais luxuosos cinemas do Brasil. Uma festa assistir um filme no Marrocos, por exemplo.
Também os restaurantes eram muito atraentes, bons e baratos.
Ir ao cinema e comer bem, principalmente comidas italianas, foram os programas certos de todos os dias. Meu irmão ficava impressionado com meu almoço: lasanha verde acompanhada de um litro de leite.
Inacreditável!
Nesta ocasião Jânio Quadros era prefeito de São Paulo. Era marcante sua popularidade. Quando aparecia no Jornal da Tela - noticiário que precedia à exibição dos filmes - a platéia aplaudia com entusiasmo, manifestação expontânea à sua brilhante administração.
Este fato deixou-me vivamente impressionado, e por muito tempo acalentei a convicção de que aquele homem, no futuro, seria o presidente ideal para o Brasil.
O tempo provaria que eu estava redondamente enganado.
Em julho, um convite irrecusável. Passar um mês na Fazenda Santiago, da família do Jorge. Naturalmente a “turma dos seis” estaria reunida.
Na véspera da partida o pernoite na casa do Carlos Alberto.
Perto da Estação da Leopoldina, bastariam dez minutos a pé, percurso que seria feito antes das 5 da manhã, malas e mochilas a tiracolo.
Finalmente consegui ver a Tania apenas de relance, o bastante para avivar ainda mais meus sentimentos.
A emoção de estar perto de minha amada somada ao ataque agressivo de uns terríveis mosquitos fez-me passar a noite em claro, acompanhando cada badalada do relógio de parede do andar de baixo.
O sol ainda não tinha aparecido e lá estavam “os seis” no velho trem das cinco e vinte cinco, rumo a Cantagalo, onde ficava a fazenda, passando antes pela querida Friburgo, naturalmente.
Uma verdadeira maratona seria enfrentada até chegar à fazenda.
Passagem por Friburgo meio-dia já longe. Cantagalo (*), depois das cinco, e a espera da “viação”, um velho micro-ônibus que nos levaria até a porteira da fazenda, consumiria mais alguns bons quartos-de-hora.
O frio fazia-se presente nas pontas dos dedos enregelados e nos pés começando a ficar dormentes
Já quase oito, rangia a madeira do velho portão para dar passagem aos esfomeados forasteiros.
Ultrapassada a porteira, mais vinte, quem sabe trinta minutos, quase uma eternidade, a pé, carregando todo tipo de bagagem até a sede, acompanhando o vento frio a corar as faces e triscando os lábios numa sucessão de pequenos cortes doloridos.
- Oh! De casa, oh! de casa!...- desde muito longe, um coral dissonante, seis vozes arfantes imploravam um aconchego na noite fria, alguma luz que afastasse aquela insipidez de trevas, o calor e a proteção de quatro paredes.
Cada passo, um sem-fim...
- Oh! De casa! Oh! De casa!...
Finalmente um contorno na escuridão deixou mostrar-se o perfil de uma casa.
Havia vida nela, e na porta aberta com muito cuidado e precaução, uma nesga de claridade deixou ver um assustado casal sonolento.
De repente, uma voz que nos seria muito familiar com o passar dos dias, exclamou:
- Êh! “Beco” tentação! Êh! Jorge! Isso são horas?
Era o Alberto, administrador da fazenda, a luz quase nenhuma realçava sua reluzente careca. Certamente não devia estar muito contente em recepcionar aqueles forasteiros inoportunos, Carlos Alberto, o “Beco’’, mais Jorge e um “bando” de desconhecidos, àquelas horas. Junto a ele, Marina, sua mulher.
Nem luz, nem água corrente. Só lampião e uma bomba manual para fazer brotar alguma água para melhorar nosso asseio já bastante comprometido.
E a lenha para o fogão?
Marina preparou algo para matar a fome daquelas pobres almas. Depois a cama, sem luxos de trocar de roupa.
Um sono profundo terminado com o novo dia já indo pelo meio.
Positivamente, um mundo bem diverso nos esperava.
___________
(*) Cantagalo – A região, até a chegada dos portugueses, era ocupada pelo indios Puris e Coroados.
A colonização começa junto com a “febre do ouro”.
Apesar da proibição da Coroa Portuguesa, por volta de 1761, um aventureiro lusitano Manoel Henrique, apelidado “Mão de Luva” pelos garimpeiros, atravessou o rio Paraíba do Sul, vindo de Minas. Chegou à nascente das Lavrinhas, cujo acampamento foi precursor da descoberta das terras de Cantagalo.
Procurado pela Corte, o cantar de um galo denunciou sua presença no local, sendo então capturado.
Diz a lenda que esta é a origem do nome dado à cidade
- Excerto do livro "Cheiro de Verão".
Nenhum comentário:
Postar um comentário