A necessidade de acompanhar mamãe fez-me ainda mais isolado de meus amigos. Com todos ausentes, sobrara para mim esta missão.
Os fins de semana sucediam-se numa cansativa rotina. As noites de domingo eram coroadas com umas terríveis sessões de cinema no salão da igreja, com filmes velhíssimos que Dona Tininha insistia em assistir.
Muitas vezes ao voltar para casa via, de longe, meus amigos saindo das tardes dançantes do Tijuca, ou a bater papos descompromissados em frente ao Edifício Genarino, ponto de encontro da turma, único lugar que era permitido sem maiores comentários a convivência pública de moças e rapazes.
Coisas dos anos cinqüenta...
Na abertura das aulas, apesar da novidade do horário matinal - sete e quinze - e da importância que eu sentia de estar iniciando o curso científico, meu ânimo era nenhum. Na realidade aquelas manhãs correspondiam, paradoxalmente, ao único tempo de real liberdade que dispunha.
Apesar de passar horas com os livros à frente, o estudos pouco rendiam e começaram a acontecer notas baixas as quais procurava esconder na medida do possível.
Tornei-me um mau aluno a fazer gracinhas durante as aulas e não raramente era “convidado” a gentilmente abandonar o recinto.
Houve mesmo uma época em que cheguei a ser proibido de assistir às aulas do Ir. Fidelis, logo ele, um grande admirador do meu irmão Guido a quem não poupava rasgados elogios em comparações sem nenhuma graça.
O passo seguinte foi começar a “matar” aulas na Quinta da Boa Vista ou, em dias de chuva, dentro de um bonde em intermináveis viagens solitárias até o Meier, Engenho Novo, Lins, por aí.
A coisa realmente estava começando a ficar insustentável.
Durante o mês de maio o estado de saúde de vovó piorou bastante vindo a falecer antes que junho chegasse.
Pela primeira vez senti a dor da partida de alguém tão próximo e na volta do enterro, na agora casa das tias, fiquei por algum tempo olhando da sacada da varanda, ao longe, o cemitério frio onde momentos antes havíamos deixado vovó. Senti uma forte sensação de vazio e a solidão daquela noite foi muito grande, sem um breve lapso de sono.
A ausência de papai continuava a pesar muito e ao final do primeiro semestre minha situação escolar já era bastante comprometedora.
Nas férias de julho, mais um surpresa. Vamos a ela...
Realizava-se naquele mês o Congresso Eucarístico Internacional na chamada Praça do Congresso, um aterro recém construído na área onde está hoje o Monumento aos Pracinhas e o Museu de Arte Moderna no Aterro do Flamengo.
Na cerimônia de abertura, dia excepcionalmente quente para aquela época do ano, senti muito frio ao contrário de meus companheiros que reclamavam do calor temporão inda mais envergado aquele uniforme de gala deconfortável. Emfim era uma missão que o colégio impunha e foi cumprida à risca.
As horas não passavam.
Ao chegar a casa foi confirmado o que já espera: quase 40 Graus de febre.
Naquela mesma noite Dr. Rui, o da casa oito, diagnosticou o mal que me afligia: “sarampo”. E vieram as recomendações de bastante cuidado, pois na adolescência e considerando meu estado debilitado, muito abatido mesmo, a coisa poderia complicar. Muita atenção!
Mais uma vez senti muito a falta de papai.
Lá se foram as minhas férias, consumidas em quartos a meia-luz, remédios a todo o momento e não sei quantas cautelas mais.
Finalmente com chegada de agosto uma boa notícia. Foi-me dada alta com uma prescrição salvadora de Dr. Rui: “este rapaz está muito preso; precisa se abrir, alargar seus horizontes. Compre uma bicicleta último tipo para ele. Isto fará muito bem!”. Finalmente um pouco de liberadade que eu tanto almejava.
A minha bicicleta Aro 28, com contra-pedal, sueca, marca Hermes, cor grená, toda equipada, era realmente uma beleza!
Pela segunda vez na minha vida foi bom ficar doente...
- Trecho do livro "Cheiro de Verão"
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