Todo meu ginásio decorreu ao longo de uma grande crise política.
Concorrendo à “Presidência da República” pelo Partido Trabalhista Brasileiro - PTB em 1950, Getúlio Vargas derrotou seus opositores Eduardo Gomes (UDN) e Cristiano Machado (PSD).
Seu mandato baseado muma política nacionalista e populista iniciada no Estado Novo teve como principais iniciativas a implantação do monopólio estatal do petróleo, a criação da Petrobrás além da nacionalização da produção de energia elétrica pela Eletrobrás.
Elevados índices de inflação, escândalos administrativos, cerrada oposição de setores civis e militares e o envolvimento de elementos ligados à Presidência num atentado contra o jornalista Carlos Lacerda foram os ingredientes que desencadearam a grande agitação que envolveu todo o país.
Ao passar dos dias, mais e mais me interessavam os acontecimentos políticos.
À noite, estudava ouvindo a Rádio Globo a divulgar suas reportagens políticas, produzidas pelo radialista Raul Brunini, sempre na oposição ao governo. Tornei-me um oposicionista também, muito influenciado pelo discurso empolgante de Carlos Lacerda.
Brilhante na tribuna, certa vez discutia com um deputado do PTB sobre as irregularidades no governo de Getúlio Vargas:
“ - Não posso deixar de condenar os ladrões e corruptos que infestam o governo de Vargas, disse.
- Ladrão é V. Excia, respondeu um deputado.
- Ladrão de quê? – indagou Lacerda.
- Ladrão da honra alheia – completou o aparteante.
- Então fique descansado, que eu nada tenho a roubar de V. Excia. fulminou Lacerda, encerrando a discussão.”
Os argumentos para as discussões com os colegas nos bate-papos dos recreios ia procurar nas páginas da “Tribuna da Imprensa”, jornal combativo de oposição, bem diferente do que é hoje, um mero representante da chamada “imprensa-marrom”.
Muitas vezes estes debates deixavam de ser civilizados e acabavam em rixa na “Adolfo Motta”.
A Rua Adolfo Motta passava nos fundos do colégio; lá eram decididas as polêmicas mais contundentes, sempre no “braço”, é claro. A senha para tais desafios era: “Te espero na Adolfo !”. O não comparecimento do desafiado era considerado fraqueza imperdoável.
Nunca arrisquei tais duelos, parando sempre as discussões no momento propício. Caso contrário, se não apanhasse na Adolfo, apanharia, em casa.
Nesta época o Luiz Cesar, meu irmão, já era universitário numa Faculdade bem politizada, a Nacional de Filosofia, participando intensamente das atividades da política estudantil no Diretório Acadêmico do qual acabou por ser seu Presidente. Ficava atento às histórias de brigas com os “comunas” e imaginava que em poucos anos estaria, eu também, atuando com empenho combativo.
As coisas começaram a realmente ficar críticas após a ida de Carlos Lacerda ao Colégio, para uma palestra, na noite do dia 4 de agosto de 1954.
A chamada “guarda pessoal”de Getúlio planejava assassiná-lo à saída, em plena Rua Barão de Mesquita. A presença maciça de estudantes, impediu tal empreitada que foi transferida para a Rua Toneleros, em Copacabana, onde morava Lacerda.
Os “trapalhões” acabaram assassinando o Major Rubens Vaz que acompanhava Lacerda. Era madrugada de 5 de agosto de l954. Daí até o suicídio de Vargas em 24 de agosto, foram dias de muita expectativa, ouvidos colados no rádio, e os estudos deixados de lado provisoriamente.
Esta aventura custou-me uma “segunda época” em Matemática e Inglês e umas férias angustiadas, com mamãe a todo momento ameaçando: “em fevereiro vamos ver quem tem garrafas vazias para vender !”.
Felizmente eu as tinha, e consegui passar para o Científico. Melancolicamente terminava meu ginásio, em situação bem diversa do início quando disputava os primeiros lugares.
Obs. - Trecho do meu livro "Cheiro de Verão"
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