por José Carlos Coelho Leal

sábado, 31 de março de 2012

14 - A PROVÍNCIA E A CIVILIZAÇÃO

        
Dois mundos bem distintos. A vila, suas vizinhanças, seus contornos e a Praça Saens Peña, com seu comércio, cinemas e pessoas muito apressadas.
         Dois mundos.
         O meu mundo, com forte toque provinciano, era dominado pelo rio Trapicheiro a dividi-lo em duas partes.
De um lado, a leiteria do Seu João, o sapateiro e o imponente Colégio Baptista. Do outro, o “depósito” do Seu José - espécie de empório, onde minha família comprava de “caderno”-, o botequim de baixo, mais humilde e o botequim de cima, do Seu Lourenço, onde de raro em raro comprávamos algum refrigerante para consumo em dias especiais.
         Mais adiante, na Rua Bom Pastor, o barbeiro, a quitanda - que bela filha, tinha o quitandeiro? - e lá embaixo o açougue do Seu Antonio. Também o Asilo, o Hospital Evangélico e algo que não cheguei a conhecer bem, apesar de ter saboreado seus produtos: a vacaria, com curral e evidentemente, vacas; leite e queijos, frescos e da melhor qualidade, para crescer saudável a minha infância.
Incrível, vacas em plena Tijuca, abastecendo com dignidade uma geração certamente mais feliz.
         Unindo estas duas partes, a ponte; não uma qualquer. Era a ponte da minha aurora; arrogante, só permitia a passagem de um veículo por vez.
No entanto, consentia ao “Pinga Na Caneca”, o bêbado mais famoso da região, reger suas partituras, horas a fio, imaginadas nas folhas de velhos jornais, cuidadosamente dispostas na amurada de pedra. Diziam que fora maestro da banda do Corpo de Bombeiros, tendo sido expulso da corporação, sabe-se lá o porquê. A bebida seria sua fuga. Nunca conheci, ao certo sua verdade.
         De um lado, Rua José Higino e Rua Clóvis Bevilaqua. O “largo das amendoeiras” dividia tudo; à sombra de suas copas frondosas os menos ocupados jogavam longas partidas de “ronda” (*) e os trabalhadores tiravam suas sestas após o almoço, quase sempre esquentado suas marmitas ali mesmo numa estufa improvisada com tijolos.
         Em torno das amendoeiras o bonde fazia a volta; do outro lado, as ruas Bom Pastor, Sabóia Lima e, finalmente, ligando tudo, a principal, a Dezembargador Izidro, aquela que nos unia ao outro mundo, o civilizado, a Praça Saens Peña.
         O progresso destruiu nossa ponte, em 1950, quando o rio Trapicheiro foi canalizado. Era o começo do fim daquele mundo provinciano; o “largo”, passou finalmente a fazer jus ao pomposo nome de Praça Gabriel Soares; e os carros, mais e mais, conheceram novos caminhos.
         As amendoeiras permaneceram, e comecei a aprender, ano a ano, que quando caiam suas folhas, aproximava-se meu aniversário: primeiro de agosto.
Mais tarde percebi nova coincidência, não muito agradável: dia primeiro de agosto, dia de meu aniversário era sempre o primeiro dia de aula do segundo semestre.
Enfim, nada é perfeito!   
         Proximamente, o mundo civilizado da Praça Saens Peña viajará por estas páginas.


 ________________                                   

          (*) - Roque Saenz Peña (1851/1914) – Advogado, estadista e presidente da Argentina entre 1910 e 1914, deu notável impulso à economia e às finanças do país, implantando, ainda, o voto secreto e obrigatório.

         (*) - Gabriel Soares de Souza (1540/1592) – Historiador português autor do “Tratado Descritivo do Brasil”, em dois volumes, contendo importantes dados geográficos, botânicos, etnográficos e lingüísticos do Brasil Colonial.

         (*) - Ronda - Jogo de azar praticado pela “malandragem” carioca, já causou não poucos crimes. Jogado com 36 cartas (não entram o 2, 3, 8, 9 e 10) . Quem recebe o Rei de Copas fica com a banca e o bolo de dinheiro das apostas. Aí começa o “desaguisado”. 

Obs.; extraído de meu livro “Cheiro de Verão’ escrito em 1997

13 - MEU TIPO INESQUECÍVEL



         Havia uma revista que habitava nossa casa, desde sempre. Era “Seleções”.
Ainda hoje tenho alguns exemplares antigos, guardados que foram no sótão, por anos a fio, caprichosamente embrulhados certamente por ocasião das faxinas rigorosas que minha mãe fazia.
Vez por outra folheio estas velhas conhecidas e, apesar de reconhecê-las como um indubitável instrumento de propaganda norte-americana, sempre alguma lembrança ressurge ao deparar-me com um desenho, fotografia ou mesmo um artigo qualquer que tenha lido quando criança.
         Uma seção de “Seleções”, bastante famosa, era “Meu Tipo Inesquecível”. Durante minha vida conheci várias pessoas que poderiam facilmente integrar esta galeria. Uma delas seria meu tio Armando, casado com tia Angelina, irmã de mamãe.
         Tia Angelina fazia jus à sua descendência italiana, reforçada por uma alta dosagem de sangue calabrês que corria em suas veias; de gênio bastante difícil, seria natural que o convívio fizesse de tio Armando uma pessoa um tanto nervosa. No entanto, sempre o vi ponderado, tranqüilo apesar da vida apertada que sempre levou.
         Mesmo não sendo rotina, em muitos domingos, nossas famílias reuniam-se, somadas a de tia Helena, outra irmã de mamãe, casada com Tio Paulino, um baixinho de sangue espanhol, bastante agitado.
         Com todo esmero e carinho, tio Armando elaborava deliciosas massas, preparando macarronadas sensacionais.
         Nestes dias a garotada deveria deixar os “velhos” em apuros, pois a nós três, juntavam-se os primos Armando e Waldir, filhos de tia Angelina e Wilson, Célia e Maria Helena, filhos de tia Helena.
         Freqüentávamos muito a casa de nossos tios, e ainda muito pequeno passei alguns dias em suas casas.
Nesse tempo, final dos anos quarenta, as famílias de tia Angelina e tia Helena, que também nunca foi pessoa das mais calmas, moravam juntas, no bairro do Rio Comprido. Imagino que esta sociedade deva ter sido mais uma provação à  paciência de todos, inclusive do tio Armando.
         Mas sua personalidade tranqüila prendeu definitivamente minha atenção. Quando já maior, visitava-o freqüentemente por minha conta, convivendo mais diretamente com ele..
         Tio Armando fabricava sapatos em sua oficina, instalada no quartinho dos fundos de sua casa, agora sem mais companhias. Em qualquer dia da semana, de segunda a sexta, entre oito horas da manhã e onze da noite e nos sábados até o meio-dia, sempre o encontrei trabalhando. Camiseta sem mangas no banco de couro, sentado à frente de uma de suas máquinas elétricas, muito amiúde um cigarro no canto da boca, atento a um velho radio de válvulas sintonizado na Rádio Nacional.
Lá estava meu tio, sempre carinhoso para comigo - sinto uma emoção forte quando escrevo estas linhas -, disposto a uma conversa animada, quando não, a um simples silêncio compartilhado.
         A cada visita, ganhava uma correia nova para meu relógio de pulso, feita com retalhos dos seus trabalhos. Sempre atualizado com o que acontecia no mundo, por causa da Rádio Nacional e sempre disposto a falar de futebol, ele que era Flamengo, apesar de italiano de nascimento.
         No sábado, encerrava as obrigações ao meio dia, depois de acondicionar todo trabalho da semana num impecável embrulho feito com um grosso papel pardo.
Tomava um banho caprichado, almoçava, para depois sair para entregar o serviço, receber seu pagamento e pegar nova encomenda para a empreitada da semana seguinte.
Voltava altas horas da noite.
         No domingo, tio Armando era da família, inclusive para fazer as suas massas deliciosas.
         “Meu Tipo Inesquecível” sempre me intrigou: o que fazia Tio Armando, até aquelas adiantadas horas, nas noites de sábado?     


sexta-feira, 30 de março de 2012

12 - O SÓTÃO


Coisa intrigante era o sótão lá de casa. Espaço liberado a todos, menos para mim, pequeno demais para tal empreitada: subir ao sótão.
         Jamais poderia imaginar tratar-se de zelo, um  ato de carinho para me proteger, ao invés de  algo a ser vedado ao meu regalo.
         Não havia jeito, passou a ser um desafio a subida ao sótão. Afinal toda criança de sete anos deve ter o direito de subir ao sótão, ponderava em meus pensamentos.
As vezes ficava olhando para a longa escada de madeira encostada à parede e a plataforma que precedia o tampão de lambris, barramento a qualquer pretensão em desvendar o mistério.
         Certo dia, quando me vi sozinho, desencostei a escada de madeira apoiando-a com todo cuidado, sem barulho, na plataforma. Devagarinho galguei o primeiro degrau, o segundo, terceiro e quando estava já alcançando o quarto, as pernas tremeram; sem controle e desolado desisti da empreitada.
         Com muita raiva, disse poucas-e-boas para meu amigo Tim. Inadmissível sua falta de colaboração. Poderia, pelo menos, ter-me dado um pouco mais de coragem. Não gostei de sua atitude; não gostei, mesmo!
         Ele não reclamou...
         Dias mais tarde quando menos esperava, com consentimento e colaboração da mamãe, protegendo-me, subindo atrás de mim, descobri finalmente o que até então me era proibido.
Vitória e decepção. Afinal, nada de muito especial estava diante de meus olhos: dois baús grandes, daqueles para viagens em navio, muitas caixas, um par de perneiras - dos tempos das excursões de papai -, uma bengala, algumas roupas velhas, vassouras, latas, diversas tábuas, tudo perfeitamente arrumado.
Revistas, jornais e alguns livros.
Bem que mamãe, com certa freqüência, dizia: “semana que vem, vou arrumar o sótão” ou, “preciso varrer o sótão”.
Agora tudo estava muito claro.
         Vencida esta primeira batalha, pouco e pouco eu e o sótão começamos a ficar íntimos, mas sempre com o controle de Dona Tininha: “Carlinhos - Carlinhos, sou eu -, desce deste sótão!”, ou “O que você está fazendo aí por tanto tempo?”. Apesar desta vigilância, valiam a pena minhas incursões ao sótão.
         O sótão era lugar para brincar-se sozinho.
Uma das primeiras aventuras foi descobrir o que continham aqueles enormes baús. Não foi fácil abrir o primeiro; o segundo, nem tanto. Depois uma caixa, outra e por fim, em pouco tempo, tudo por ali me era muito familiar, inclusive maciços moldes de madeira na forma de cabeças, dos tempos em que mamãe fazia chapéus (*).
Depois foi a vez do material fotográfico de papai. Várias placas de vidro com pares de fotografia, e uma máquina para vê-las em terceira dimensão.
Grande achado!
Inacreditável, até hoje sinto uma ponta de remorso.  Com o passar  do tempo destrui várias destes pares de fotos e o equipamento ficou em estado lastimável, lentes quebradas e engrenagens emperradas.
Imagino o que papai deva ter lamentado por tão valiosa perda.
Ainda havia o que descobrir...
Quando cresci, percebi que a janelinha do sótão era um privilegiado posto de observação.
Bastante camuflado pela arquitetura do imóvel, me era permitido penetrar na intimidade de alguns vizinhos e em decorrência, vizinhas.
Fiz descobertas bastante audaciosas, descobri alguns segredos e procurarei mante-los...
Por muito pouco não me transformo num voyeur militante.


______________

(*) – Muito novinha, ainda não tinha completado doze anos, por estrita necessidade de ajudar financeiramente seus pais, mamãe empregou-se como “ajudante de chapeleira”.
Sua carteira de trabalho foi assinada em 23 de março de 1925.
Seu empregador: “A Futurista – Passalacqua Barbosa & Cia”, Rua 7 de Setembro, 181 – Rio de Janeiro”
Detalhe : remuneração não especificada.




11 - A DIFICULDADE DE SER CAÇULA


Muitas histórias já contei, porém pouco falei de minha família. Gostaria de mostrá-la segundo minha visão infantil.
         Nasci não é novidade, no primeiro dia do mês de agosto de l939.
Fui batizado com seis dias de vida, na Matriz de Nossa Senhora da Glória, ali no Largo do Machado. Meus padrinhos: tia Isa, irmã de papai e tio Belinho, primo de minha vó Alice.
         Não conheci meus avôs maternos, e hoje, quando vejo minha neta conviver com todos os seus, penso muito, e com uma ponta de inveja, acho que teria sido muito bom ter estado perto deles.
         Os pais de mamãe eram italianos: Vicenzo Mazzei nascido em Fuscaldo, Cosenza, Calábria em 7 de setembro de 1870 falecendo no Rio de Janeiro em 2 de maio de 1933, e Adelaide Del Caro Mazzei nascida em Veneza  no dia 7 de julho de 1876 e faleceu em 22 de março de 1929 no Rio de Janeiro. Adelaide morreu quando mamãe tinha dezesseis anos e Vicente, mais tarde, um pouco depois dois anos após do casamento de mamãe e papai.
          Meus avôs maternos casaram-se em 30 de setembro de 1893, um sábado, às 8,30 horas da manhã na Igreja de São José, no centro, sendo celebrante o Padre Pedro Stamile.
 Detalhe interessante: vovô era viúvo de Rosina Skvineli e, vovó viúva de Antonio Alves.
Papai contou-me que vovô morreu andando pela rua, e com mamãe esperando o Guido. Como não podia ser diferente participou intensamente daquele sofrimento de mamãe.
         De vovô Nelson tenho poucas lembranças, algo muito vago, como o balançar da longa corrente de um daqueles antigos relógios de bolso. Talvez uma cadeira de vime e o suave som da vida tranquila de sua casa em Botafogo, na Rua Real Grandeza, para ser mais preciso.
Já da vovó Alice as imagens são bem mais nítidas; estivemos perto até meus quinze anos.
         Gostava de minha vó sempre de óculos. Sem óculos, ficava com uma fisionomia muito severa; assim, não gostava.
         Tínhamos um segredo.
Quando dormia em seu quarto, na cama da tia Isa, sempre que acordava de madrugada era premiado com umas deliciosas balas de jujuba, igualzinhas a pedaços de frutas cristalizadas. Ela as guardava numa caixinha decorada bem escondida na mesinha de cabeceira e sempre dizia: “não contes nada para Nelsinda e Heloísa”.
Moravam juntas Vovô, Nelsinda, tia Nenê e Heloísa, tia Isa, minha madrinha. Junto com elas, morava tia Maria, prima de vovó, um pouco mais moça que ela e sempre com a aparência de uma suave tranqüilidade. Todos gaúchos como também o era meu avô Nelson.
         Uma coisa não gostava: criança na casa da vovó nunca comia junto com os adultos. Havia sempre uma mesinha do lado e positivamente eu não aceitava tamanha discriminação. Como lá eram todos gaúchos possivelmente tal rigidez tenham trazido lá dos “pampas”.
         Voltemos a 1939.
Nasci caçula, e não gostei.
Meus irmãos também não devem ter gostado do intruso. Tudo muito natural, afinal era o mesmo espaço para ser, dividido por três: Guido Nelson, Luiz Cesar e agora José Carlos.
         Ser caçula nas minhas condições era realmente um caso sério.
Pelas diferenças de idade, seis e quatro anos; durante toda minha infância senti-me afastado do grupo. A frase que mais ouvi, por muitos anos, foi: “eles vão, você fica...”.
Ah! Se eu pudesse crescer depressa!
         Quando brincávamos qualquer brincadeira, ou jogávamos qualquer jogo, a probabilidade de eu perder era imensa; caso de psiquiatria, análise ou coisa parecida: “eu sou um perdedor!”.
Hoje isto tudo é muito engraçado, mais naqueles dias imaturos foi causa de muito sofrimento.
Jogo Vasco x Arsenal, da Inglaterra, campo do Vasco, à noite. Coisa rara. Foram todos.
Eu fiquei em casa ouvindo pelo rádio, decodificando a custa de algumas lágrimas, as palavras do locutor, em imagens. Como teria sido o gol do Nestor? Nesse dia, nem o colo de mamãe serviu de consolo. Muito pelo contrário.
         E as roupas? Quase nunca novas. Sempre podiam ser adaptadas: “estão novinhas, seu irmão quase não usou...”, dizia mamãe com manifesta naturalidade. Livros no colégio então nem se fala, todos de segunda quando não de terceira mão.
Péssimo negócio ser caçula. Um perdedor nato. Positivamente, definitivamente, era caso para um psiquiatra ou então não teria salvação.
         Exageros a parte, tudo isso em maior ou menor intensidade viria habitar meus pensamentos, em várias ocasiões, durante minha infância.
Minha sorte era poder contar, a todo o momento, com meu amigo Tim. Amigo fiel de todas as horas e por muitos anos.
Só eu o conheci e com ele convivi.
Nunca discutimos, pois jamais vi alguém mais cordato e que aceitava sempre minhas vitórias. Eu era um vencedor.
Meu amigo Tim deixou de existir quando a adolescência chegou; sempre fiel, até o fim, na minha imaginação.
         Logo, terei oportunidade de contar mais um pouco sobre minha família, principalmente o convívio, bem mais próximo, com os parentes ligados à mamãe.





quinta-feira, 29 de março de 2012

10 - ESPERANDO O BONDE



         Quando chovia forte, mais difícil ainda era pegar no sono. 
O dorme-não-dorme era importunado pelo barulho das águas do Rio Trapicheiros que, nesses dias, cismava em ficar com mau humor.
Desperto e muito assustado, com os ouvidos bem atentos, a tudo acompanhava numa inútil vigília.
         Nos grandes temporais sentia-se o baque das enormes pedras no leito do rio, sendo arrastadas pela correnteza. Sempre achei que num dia sinistro nossa casa poderia ser levada também.
E aí, cadê sono!
         Explicações não me convenciam e o zelo continuava até a chuva amainar.
Mamãe era mais convincente, quando em noites de trovoadas, me serenava: “... é Papai do Céu que está arredando os móveis”. Aí, eu dormia.
Nessa época, era muito pequerrucho, como ela dizia; ficava fácil ceder a argumento de tamanha evidência.
         Também, difícil, dormir sem o papai em casa.
Ia para cama e ficava na expectativa da chegada do próximo bonde - falarei dele, o bonde, com mais detalhes, logo adiante.
Ligadíssimo, ouvia o barulho de longe.
         O bonde das dez chegou. Mentalmente contava os passos de papai até a varanda da frente. Nada, não veio. O jeito é esperar o bonde das onze.
Nada!
         Meia noite, e finalmente o som esperado dos passos cadenciados, batidos com energia para espantar os gatos, como dizia, até subir os degraus.
O tilintar do chaveiro.
         Nem precisava botar a chave na porta. Eu já estava dormindo.

         Obs. - Trecho do livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997










9 - A ERA DO RÁDIO


         O rádio, naqueles dias, era o companheiro da família. Provavelmente, por não haver o forte apelo comercial da atualidade, o rádio elevava o nível cultural dos ouvintes.         
         Ao contrário da televisão que leva as pessoas a uma postura passiva, “ouvir rádio” não impedia o desenvolvimento de atividades paralelas.
         A Rádio Nacional era a maior de todas e quando ouço umas antigas gravações de programas levados ao ar, principalmente nas décadas de 40 e 50, constato a sua importância e louvo o esforço daquelas pessoas que certamente ajudaram muito nosso país.
         Em 1940, constatando o sucesso e a penetração da Radio Nacional em todas as classes sociais, o Governo Vargas, em mais um ato ditatorial, decretou a encampação da empresa “A Noite”, à qual pertencia a emissora aproveitando para transformá-la “em um instrumento de afirmação do regime”.
Apesar desse passageiro transtorno de percurso, seria muito bom que a televisão pudesse desenvolver trabalho semelhante neste final de século, com menos “apelação” e um pouquinho mais de cultura.
         Os programas de rádio ofereciam ao público desde radionovelas até programas de música clássica. Inclusive, constato nas gravações a qualidade das orquestras sinfônicas, no plural, da Rádio Nacional, sempre atuando em programas ao vivo. Vários maestros comandavam os programas em diversos dias da semana, como Radamés Gnatalli, Lyrio Panicali, Léo Perachi, Ercole Vareto e outros mais.
         As rádios transmitiam óperas e concertos levados a efeito no Teatro Municipal do Rio, e o público mais exigente contava com a programação das rádios Ministério da Educação, Roquette Pinto e Jornal do Brasil.
         Até o Festival de Salzburgo, na Áustria era transmitido diretamente...
         A primeira rádio-novela de sucesso foi “Em busca da felicidade” de 1942, ficou dois anos e meio sendo ouvida todas as manhãs.
“Em busca de felicidade” foi escrita por Leandro Blanco e adaptada por Gilberto Martins. Era interpretada por Brandão Filho, Floriano Faissal, Zezé Fonseca, Isis de Oliveira, Saint-Clair Lopes e Rodolfo Maier.
Em 1945, já utilizando recursos de estúdio atualíssimos, surgiram para deleite dos contra-regras os chamados “efeitos especiais”. Um  “acontecimento” o ciclone em “O Direito de Nascer” .
Até 1955 a Radio Nacional havia apresentado 861 novelas, ou seja, 11.756 horas de transmissão.
         As equipes de rádio-jornalismo mantinham o Brasil atualizado pelas ondas médias, longas e curtas. Eram muitos os noticiários; o mais famoso e respeitado era o Repórter Esso. 
Variedades, rádio teatro, entrevistas, programas humorísticos e muito mais, eram apresentados por um vasto elenco de atores, locutores, escritores, cantores líricos e populares, músicos, e quem mais tivesse talento para transmitir algo aos rádio-ouvintes.
         Mas, voltemos a nossa história.
         Muitas emoções vivi ouvindo rádio. Uma delas foi durante as Olimpíadas de Londres, em 1948.
Apesar da precariedade da transmissão internacional - não tenho a menor idéia da técnica então usada -, acompanhei lance por lance, na medida do possível, é claro, a conquista da medalha de bronze pela equipe de basquete brasileira. “Five” brasileiro, assim se dizia.
         Também pelo rádio, ouvi o Botafogo ser Campeão Carioca de 1948, num domingo cinzento, após sensacional “passeio” sobre o  Vasco da Gama no antigo estádio de General Severiano, totalmente lotado. 
Os seriados, radiofonizados, liberavam nossa imaginação. Os personagens tomavam a forma do nosso desejo.
Alguns destes seriados acompanhei com alguma assiduidade: “O homem pássaro”, “O vingador”, e o famoso - “ninguém sabe o mal que se esconde nos corações humanos, o Sombra, sabe!”-, “O Sombra”.
         Os programas humorísticos, bastante ingênuos até, a menos das críticas políticas, estas, bem ácidas, não podem ser comparados com as  baixezas divulgadas hoje. Nem por causa disto eram pouco divertidos: “Piadas do Manduca”, “P.R.K. 30”, “Tranquedo e Trancado”... Quanta saudade!
         O Brasil despertava com a “Hora da Ginástica” programa apresentado por Oswaldo Diniz Magalhães; apologia à eugenia da raça através das “ondas hertzianas”.
         Na memória de radio brasileiro jamais poderá se olvidada a disputa entre as orquestras de Tommy Dorsey, sucesso mundial do momento e, a nossa brasileiríssima Tabajara do maestro Severino Araujo, “levada ao ar” diretamente do auditório da Rádio Tupi, PRG-3 - “O Cacique do Ar”.
         Por aquele auditório moderno e imenso, para a época, desfilaram grandes astros internanionais do hit-parade como: Pedro Vargas, Carlos Ramires, Augustin Lara, Josephine Baker, Harry James, Maurice Chevalier, Amália Rodrigues, Nat King Cole, José Mojica, Bing Crosby, Beniamino Gigli, Tito Schipa e muitos outros.
         E os “reclames” : “Ela é linda! Aaaah..., está noiva! Ooooh..., usa PONDS ! Aaaan...”, ou, “Na sua casa tem barata? Não vou lá... Na sua casa tem mosquito? Não vou lá... Na sua casa tem pulga? Não vou lá... Peço licença para mandar DETEFON em meu lugar...”, ou ainda, “Dores? GUARAÍNA, corta a dor e não ataca o coração”.
O rádio, efetivamente, fazia parte daquela minha vida novinha.
         Muito pequeno, à noite, quando o sono teimava em chegar bem devagarinho, acompanhava, sem nada entender, programas que eram ouvidos por papai e mamãe.
Era muito provável ser, ainda, época da ditadura do Estado Novo e os programas da “Pimpinela”, também humorísticos e produzidos por Silvino Neto, arrancavam de papai comentários como este: “esse cara vai ser preso novamente!...”. Eram certamente piadas políticas, envolvendo Getulio Vargas e sua turma. Evidentemente estes programas não eram ouvidos na casa de nossos vizinhos “petebistas”.
Os programas de Paulo Silvino Neto eram transmitidos pela Rádio Mayrink Veiga, onde o “Pimpinela Escarlate” parodiava figuras políticas como Getúlio Vargas, Ademar de Barros, Jânio Quadros e Carlos Lacerda.
A popularidade de Silvino tornou-se tão grande que saindo candidato a vereador pelo PTB, imitando a voz de Getúlio nos comícios, foi eleito com 25.000 votos.
“Trabalhadores do Brasil! (...) Votem em mim porque eu quero entrar nessa boca. Quero entrar na Gaiola de Ouro!”.
Essa era a propaganda de Silvino e Gaiola de Ouro, assim era chamada a Câmara dos Vereadores do entâo Distrito Federal, o Rio de Janeiro. Quanto a isso, pouca coisa mudou...
O sono teimava em não vir, fato comum durante toda minha vida. Continuava ouvindo programas de rádio no colo de mamãe, sendo embalado pelo vai e vem da cadeira de balanço e na cadência dos estalos da madeira do assento de palinha.
         Quase sempre dormia durante um programa de debates, muito elogiado e produzido por um certo Álvaro Moreyra (*) que mais tarde vim saber ser um radialista importante.


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(*)  -  Álvaro Maria da Soledade Pinto da Fonseca Velhinho Rodrigues Moreyra da Silva (Porto Alegre RS 1888-1964) - poeta, cronista e jornalista. Dedicou-se ao jornalismo, tendo sido diretor das revistas literárias Para Todos e Dom Casmurro. Colaborou na Revista da Semana, A Noite, A Hora, Jornal de Letras. Participou de um movimento de renovação do teatro brasileiro. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira 21.

Obs - Segmento do livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

8 - A VIOLÊNCIA DE PAPAI

        
         Ainda uma vez, anos mais tarde, eu iria perturbar o descanso hebdomadário do Sr. Cesar, meu pai, e mais uma vez o futebol seria o motivo da discórdia.
Numa época civilizada em que se jogava apenas nos fins de semana, tínhamos no Maracanã o clássico Flamengo e Botafogo.
Uma vitória do nosso time do coração significava uma semana de euforia. Hoje, o time ganha no domingo e já perde na terça. Onde está a graça?
Mas voltemos à nossa história. Maracanã: Flamengo e Botafogo, aliás, por que não Botafogo e Flamengo? Assim fica bem melhor: Botafogo e Flamengo.
Como de hábito, rádio ligado na Nacional com a transmissão de Jorge Cury e Antônio Cordeiro, o “speaker-cronista” como era chamado.
No quarto calorento de um início de tarde, na cama, deitado, eu.
No chão, por ser mais fresco – o chão, naturalmente - também deitado, meu irmão Luiz Cesar, portador de um tremendo mal-gosto, torcedor do Flamengo.
Entre nós, sobre a mesinha de cabeceira, um inocente e comportado rádio, envernizadinho como novo, naqueles tempos chamado de “rabo quente”. Ele seria o motivo de todo o desaguisado.
         Jogo em andamento: Botafogo 1 x 0 ; euforia, minha é claro.
Mais um pouco: Botafogo 2 x 0 ; o céu. 
E lá se foi o primeiro tempo, irretorquível.
         Segundo tempo e tudo indo muito bem, até que lá pelas tantas o Flamengo faz o seu primeiro gol.
Coisa normal, tudo sob controle.
Mais alguns minutos e o preocupante empate aconteceu devido à falha de um goleirinho “chinfrim” chamado Joselias.
Inesquecível este nome: Joselias. Um pouco mais, e um clamoroso “frango” do “competente” Joselias daria o resultado final ao jogo e o pior, o natural revide de gozações por parte de meu “querido” irmão.
         A reação foi imediata: joguei o rádio na cabeça do “rubro negro” debochado.
Logo, barulhada infernal, meu pai acordando e procurando apurar o que teria acontecido.
         Foi fácil descobrir o culpado. Era oportuno puni-lo.
Ato contínuo saí numa desabalada carreira escada abaixo e meu pai atrás. Sala, cozinha, copa, novamente cozinha e o “gaúcho” na perseguição. Quintal, cozinha, sala, escada acima e a perseguição continuava.
Estava difícil fugir da merecida sova.
         Finalmente fiquei sem saída no canto do quarto.
Estou perdido! Espero pelo pior.
Quando mais nada havia a fazer, olhos fechados sinto as mãos de meu pai no meu braço, e a surpresa. Ao invés de um aperto dolorido, a sensação era até agradável.
Abro os olhos e antes de não conseguir reprimir uma sonora gargalhada, vejo meu pai de dedo em riste dizer, sem muita convicção: “Da próxima vez tu não me escapas!”.
Nem uma palmadinha de leve, de leve. E o mais importante: nunca aconteceu “uma próxima vez”.
Qual!  Definitivamente meu pai não era chegado a estas violências.
Graças a Deus, sempre foi assim.


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(*) – Este jogo inditoso foi realizado no dia 12 de dezembro de 1954. Os gols do Botafogo foram marcados por Dino e Carlyle.
Os do Flamengo não interessam...
O Botafogo jogou com um goleiro, de nome esquecido, Gerson e Nilton Santos; Ruarinho, Bob e Danilo; Garrincha, Dino, Carlyle, Paulo Valentim e Vinícius. Era assim que os times eram escalados: um goleiro, dois beques, três médios e cinco atacantes. 

Obs: trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997            

        


7 - DOMINGO, DIA DE FUTEBOL.


         No outro lado do rio ficava o Colégio Baptista - assim, com “p”.
Nesta época do ano começava um novo espetáculo na voz da meninada que retornava às aulas. Da janela do quarto dos fundos, quarto dos meus pais, eu apreciava o movimento e já tinha de vista, alguns conhecidos bem familiares, agora um pouco mais crescidos e ainda guardando o rubor dos dias de férias.
Até a campainha convocando as classes às salas de aula, ainda hoje, ouço com nitidez, assim como ainda soa claro o apito da fábrica da Brahma (antiga Companhia Hanseática do Rio de Janeiro), sempre às dez para as sete, sete, onze, dez para o meio-dia, meio-dia e cinco horas da tarde.
Aquele silvo balizava nossas vidas e sua ausência significava: Domingo!
         Era comum, nos domingos, o sumiço dos meus companheiros, cada um tomando o rumo da família.
Fred e Yara, por exemplo, iam sempre para o barco, assim se falava.
 Na verdade Seu Gunther tinha um iate, o Spray, construído por ele próprio, e que ficava fundeado no Iate Clube, na Urca.
Anos mais tarde construiu um novo barco coroando noites e noites de trabalho na oficina montada no sótão de sua casa, em serões até altas horas. De casa, ouvia-se o barulho das máquinas e eram estranhas as noites silenciosas. Será que alguma coisa havia acontecido?
Detalhe, às 10 horas do noite cessavam os trabalhos; nem um minuto antes, nem um depois... A Lei do Silêncio era religiosamente cumprida. A velha disciplina alemã se impunha. Aprendi muito  esse respeito com a convivência da com a colônia germânica que habitava nossa vila.
         Domingo, dia em que papai ouvia pelo rádio um programa de músicas líricas e de canções napolitanas. Eram-nos familiares um Beniamino Gigli ou um Tito Schipa.
         Mamãe, por seu lado, adorava as audições de uma cantora lírica brasileira chamada Christina Maristany. Apesar de ligada à ópera esta cantora fez muito sucesso no rádio: “Creio mesmo que o samba deve ser prestigiado, como uma expressão interessante do nosso folclore” dizia Christina conquistando em definitivo a audiência.
         Domingos de sol, domingos de chuva, domingos cinzentos, alguns quentes, outros frios...  
          Nestes dias nossos vizinhos da “casa um” esbanjavam o som de sua “vitrola”, tocando sempre em alto volume os mesmos poucos discos.
Lembro bem: “Pintinhos no terreiro”, o mais tocado e repetido até a exaustão. Já tinha opinião própria, apesar de minha pouca idade e achava aquilo uma tremenda exibição, pois pouca gente naquela época tinha condições de possuir semelhante preciosidade, um rádio que também tocava discos.
Uma “vitrola”. Sinal de “status”; será que era assim que diziam?
         Música clássica também fazia parte das audições de papai, se bem que com menor freqüência.
Com tal variedade de músicos e músicas, teria que dar no que deu: hoje, gosto muito de música.
         Um detalhe interessante é que nossos vizinhos “exibicionistas” eram “Getulistas” enquanto papai, e nós, por conseqüência, éramos “Brigadeiro”, ou seja, PTB versus UDN.
Qualquer boa notícia para o PTB acarretava um belo concerto de “vitrola” a todo volume, num evidente desafio à nossa esportividade, paciência e bom gosto. E lá vinha nosso conhecido “Pintinhos no terreiro” e assemelhados. Não muitos, evidente...
Mas apesar de tudo a vila era uma grande família.
         Certamente ainda não havia notícias da tal “Sociedade de Consumo” naqueles tempos do pós-guerra. Na verdade tive poucos brinquedos, mas longe de lamentar acho que este privilégio, não meu, mas de toda uma geração, foi altamente saudável.
Tinha minha possante motocicleta e, juntando-se a ela, lá estava meu belo caminhãozinho feito de caixa de goiabada, as tampinhas de cerveja que tinham várias utilidades e até como dinheiro valiam, o trenzinho imaginado nas caixas de fósforos dispostas lado a lado, sem contar com o time de botão, feito realmente de botões, muitas das vezes surrupiados da capa de chuva do papai, e ainda mais valorizados quando “acavalados”.
         Finalmente, num belo Natal, alguns poucos anos após o fim da Guerra, com a “matéria plástica” invadindo o mercado, ganhei dois times completos feitos de “galalite”: um do Botafogo e outro do América. A glória!
Será que por causa disso sou Botafogo? Ou porque foi campeão de 1948? (*) Ou, ainda, seria influência de meu pai que foi seu remador e por ele torcia?
Definitivamente é difícil qualquer alternativa. O que interessa: ser botafoguense me fez sofrer bastante, esta é a verdade, pois outro título só foi possível comemorar em 1957 quando eu já aniversariava pela décima nona vez. Foi um tremendo jejum para um garoto que adorava futebol. Coisas da vida e que só acontecem ao Botafogo e aos botafoguenses!
         Futebol!
Uma das grandes dificuldades era convencer Dona Tininha que, como todas as crianças, eu gostava de jogar futebol. Quase impossível.
Como consolo, batia bola no minúsculo quintal de casa fazendo tabelas memoráveis com meus imaginários companheiros materializados na parede. Devo ter incomodado muito Dona Zita, vizinha da casa três, aquela do insuperável cafuné.
Num certo domingo, meu jogo de bola teve um desfecho inusitado.
Zé Carlos, o maior goleiro do mundo, defendendo bolas incríveis, as quais agarrava na volta de violentos petardos desferidos contra a parede.
 Após um dos mais belos chutes, aconteceu: na volta, pisei na bola e desequilibrado caí de queixo no chão.
O sangue em profusão foi o disparo para um grande berreiro que entre outras coisas, acordou papai de sua dormidinha dominical. Enquanto mamãe fazia os carinhos de praxe, papai apareceu e logo saiu sem nada dizer. Um detalhe: levou a bola.
         Mamãe esperando pela ajuda providencial e nada. O tempo passando, e nada. E lá se vai mais sangue.
Por fim, foi procurar papai que estava tranqüilamente fumando um “belo” cigarro, sem não antes ter lembrado de estraçalhar minha querida bola de borracha e, jogá-la irremediaelmente no Rio . Pode-se imaginar o tremendo “arranca rabo” acontecido.
 Quanto ao futebol, adeus por muito tempo...  

   
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(*) – Em 12 de dezembro de 1948, o Botafogo de Futebol e Regatas tornou-se Campeão Carioca, ao derrotar o Vasco por 3 a 1, jogando com apenas dez jogadores. O beque Gerson contundiu-se seriamente e, naquele tempo, não eram permitidas substituições.
Foi a glória para Carlito Rocha, o eterno e místico Presidente, e a recompensa para o simpático cãozinho “Biriba”, o maior mascote que o futebol do Rio já teve.

  

(Pequeno capítulo de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997) 

terça-feira, 27 de março de 2012

6 - CHEIRO DE VERÃO


         Ainda hoje, passados tantos anos, ao aproximar-se o verão, chega pelo ar certo cheiro que lembra a minha infância. Não sei explicar este aroma que nem a poluição conseguiu destruir.
Agora, quando a necessidade de envelhecer com um pouquinho mais de saúde e dignidade nos obriga a longas caminhadas na tentativa de enganar os triglicerídios e aplacar a ira da pressão arterial, as ruas da Tijuca tem sido um campo fértil para avivar as lembranças.
Acho mesmo que estas jornadas, mais do que resolver um problema físico, tem colaborado para que ressurjam sentimentos, muitas vezes nostálgicos, motivando um inventário destas saudades.
         Quando passo pela entrada da vila de eu criança, agora irrevogavelmente barrada a estranhos por um horrendo portão de ferro - para a vila de hoje, sou “apenas” um estranho -, ai, neste momento, sinto o cheiro de verão.
Acho, até, tratar-se de algo mais chegado ao psicológico do que ao real, pois nosso Trapicheiros ultimamente não tem primado pelo bom comportamento.
         O rio Trapicheiros, bem comportado, tinha águas límpidas onde a pesca de “douradinhos” era ofício de “entendidos”, habilidosos no lançamento do vidro transparente de boca larga, no extremo da linha bem apertada, levando no seu interior a isca: miolo de pão.
Suprema fortuna era a captura daqueles seres maravilhosos que enfeitariam nossos aquários, num efêmero festival de cores e movimentos, com duração de alguns poucos dias.
Cruéis e preconceituosos rejeitávamos os “barrigudinhos”, seres indignos de companhia tão abastada.
         Humilhante, era deixar escapar a isca, devorada debochadamente pela caça que devolvia ao pescador um vidro vazio de peixes.
Também digno de imensa chacota era a pesca dos horrendos e inúteis, para nós, girinos - sapinhos -, ou a quebra do frasco de vidro em alguma pedra saliente devido a uma mirada e lançamento desastrosos.
Tudo isto era cheiro de verão.
         Verão das cigarras escandalosas no alvorecer e no sol poente, do tumulto dos pardais no entardecer das mangueiras carregadas, das noites suadas em serões de brincadeiras, dos banhos de ducha, sempre que algum adulto descuidado deixasse o registro  d’água sem proteção.
         A terra molhada, mexia com nossa alma e, as janelas, sempre bem abertas, deixavam entrar casa adentro o cheiro de verão.
Infelizmente, vez por outra, enormes e repugnantes baratas cascudas aproveitavam a liberdade das janelas escancaradas assustando, principalmente, as meninas e as mulheres. Eram saudadas por imensa gritaria e por um festival de chineladas, até o “massacre” final. Surgia, então, o “herói” da noite...
Houve um ano, que inventaram um tal “horário de verão”(*).
Mais uma hora de festa intensa com nosso amigo sol, que parecia entender nossa folia, e como amigo de fé insistia em ficar, todos os dias, um pouco mais nas brincadeiras.
E os olhos tristes da linda Wanda? Ficavam ainda mais azuis ao sol de verão...
         Após o Natal, as emissoras de rádio, assim eram chamadas, começavam a divulgar as músicas que animariam o carnaval por vir.
Curioso, naqueles verões ainda não existiam as modernas FMs, e as  transmissões em “ondas médias”, hoje AM, eram captadas com tal clareza, impossível de ouvir-se , hoje, nos mais modernos e sofisticados aparelhos de rádio.
E lá vinham: “É com esse que eu vou”, “General da Banda”, “Pirata da perna de pau”, “Tomara que chova”, “Lata d’água na cabeça”.
         O cheiro de verão começava a esmaecer lá pelos meados de março, quando os dias mais rápidos fazia as janelas fecharem-se mais cedo.
As cigarras começavam a dar lugar ao melancólico cantar dos sapos,
que certamente, lá do rio, lamentavam  a ausência da bulha da garotada, preparando-se para a chegada das longas noites, naquela época, frias de verdade.
Aquele triste cantochão inundava a natureza com as “águas de março”. Eram as derradeiras lágrimas; saudades do cheiro de verão...



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(*) – As primeiras idéias sobre o Horário de Verão foram desenvolvidas por Benjamin Franklin no final do Século 18.
Em 1907, William Willett, na Inglaterra, promoveu uma campanha para adiantar os relógios em 20 minutos a cada um dos quatro domingos do mês de abril. Somente em 1916 o Parlamento Inglês aprovou a medida.
No Brasil as primeiras iniciativas são de 1931 e 1932. Depois, o horário só iria ser implantado entre os anos de 1949 e 1953, atingindo plenamente os verões de 50, 51, 52 e 53. Abrangia o período de 1º de dezembro a 31 de março. É a esta época que me refiro neste livro.



5 - APRENDENDO A LER E A CONTAR


         Um dia, em abril de 1946, chegou-se à conclusão que era época de aprender a ler.
Mas, filho de Dona Tininha não vai para uma escola qualquer. Será alfabetizado por uma professora particular. Aí, casa quatorze, Dona Aura Setubal, muito religiosa, muito mansa. Felizmente ela: minha primeira professora.
Ainda tenho meus primeiros cadernos.
         As aulas eram quase sempre lá pelas duas horas da tarde, depois de um bom banho tomado. Lá ia eu com minha motocicleta de imaginação: a parte superior de um velho cabide fazendo a vez de guidom, e uma medida metálica de “Leite Ninho” emitindo luz como um farol.
Minha “moto” ficava estacionada à porta, em segurança, aguardando docilmente o término das aulas: linguagem, aritmética e religião.
         Colégio, mesmo, só em setembro do ano seguinte, Instituto Petersen, na Rua Conde de Bonfim quase na esquina da Rua José Higino.
Pânico, muito medo, isolamento total. Sou um estranho para o grupo que já é camarada desde o início do ano.
Mais pânico, mais medo e uma imensa aflição.
Até hoje me lembro: “Os alunos com portador, esperem na sala ao lado; os demais podem sair!”, disse o bedel desconhecido.
O que fazer? O que é portador? Será que eu tenho portador? Todas estas indagações rondavam alucinadamente pela minha cabeça que doía, doía...
Portador! Portador! Todos olham para mim.
Choro convulsivo misturado com raiva e vergonha. Será que tenho portador?
         Finalmente, depois de um longo “século”, chega minha mãe.
Estou salvo, pois minha mãe, além de mãe é o “meu portador”. Eu também tenho um portador. Viva!
E lá se foi o meu primeiro e memoroso dia de aula.
Acho que a pedagogia, a mim aplicada, não foi das mais saudáveis. Meus filhos foram para o colégio bem cedinho.
         No final do ano, apesar de tudo, fui aprovado em sétimo lugar; ou foi terceiro? Qualquer dia vou verificar nos meus arquivos.
         1948! Externato São José. Seria meu novo cenário por onze anos. Mas esta é uma história para mais tarde.