As meninas usavam “ban-lon”, os rapazes arriscavam um “pileque” abusando da “cuba-libre” ou do “hi-fi” - run com laranjada - e as dondocas jogavam “pif-paf”.
A televisão ganhava audiência com “O Céu é o Limite”.
O “Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna, no teatro, e “Rio 40 Graus”, no cinema, arrebatavam grandes públicos.
“O Cruzeiro” a revista mais lida no Brasil atingia a tiragem de 570 mil exemplares semanais e na esfera da Igreja era criada a CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
“Conceição, eu me lembro muito bem/ Vivia no morro a sonhar/ Com coisas que o morro não tem...”, samba-canção repetido até a exaustão pelas rádios na voz do cantor de bigodinho, inconfundível, Caubí Peixoto.
As revistas publicavam propagandas, até certo ponto, educativas como “Proteja seu Sorriso de Saúde eliminando o amarelo dos dentes com o Creme Dental Eucalol”, quando não, com um tímido atrevimento, ousavam - “Comece a viver! Goze a liberdade que jamais pensou alcançar. Aproveite as vantagens de Modess, a proteção da mulher moderna. É completamente invisível. Fantasticamente absorvente. Leve como uma pluma. Incrivelmente confortável Absolutamente seguro. Nada para lavar - é usado uma só vez. Ao comprar, basta dizer Modess”.
Anúncios muitas vezes românticos - “Use o novo baton Coty, a mais bela moldura para o seu sorriso” , ou objetivos e modernos: “Munidor de lâminas Gillette Azul - Faça uma leve pressão do polegar e... zaz. Uma das dez lâminas desliza suavemente, pronta para o uso.”
Assim íamos vivendo a segunda metade dos anos cinqüenta, quando o descartável ainda não tinha atingido irreversivelmente as coisas, as criaturas, os sentimentos.
Tudo, as casas, os aparelhos usados no dia a dia, as profissões, as amizades, o amor, se aproximava do definitivo e a sociedade ia absorvendo as novidades com bastante parcimônia.
Salvo algumas hipocrisias, as pessoas eram mais delicadas no trato pessoal. Época em que as chamadas palavras de baixo calão só eram ouvidas nas rodinhas masculinas. Impossível ouvi-las da boca dos brotinhos e menos ainda de qualquer pessoa de responsabilidade.
Lembro até que ainda em Friburgo numa brincadeira de salão, o Ronaldo, gauchão de boa cepa, saiu-se com um “babaca”, palavra muito inocente lá no sul e pesadíssima nas bandas do Rio de então. Os olhares de reprovação, principalmente das mães injuriadas, fuzilaram o ânimo do nosso chê, olhos pregados no chão.
Nestes tempos de muito bons modos e de convívio mais saudável, ele surgiu. Não sei de quem a idéia, o certo é que não houve contestação: estava fundado o Sabóia Lima Clube (*).
Tudo muito organizado. Estatuto, diretoria, carteirinhas e até alguma coisa parecida com uma sede, improvisada na garagem da casa da “Ia”, novo ponto de encontro da moçada.
O sucesso foi total, alicerçado na participação expressiva da juventude da Tijuca e adjacências.
Em pouco tempo tínhamos um time de basquete de peso, invicto por muito tempo, enfrentando inclusive times mais organizados e que disputavam os campeonatos da cidade - juvenil, evidentemente.
Vibrávamos muito com o “amarelo-e-negro” - estas as cores do Saboialima Clube - uniforme igualzinho ao do Penharol do Uruguai.
Festas, passeios e até desfile de modas passaram a ocupar febrilmente os tempos livres de todos e, como não podia faltar, um jornalzinho passou a ser editado regularmente, evidentemente com a direção deste seu criado; mais uma responsabilidade assumida pôr mim, a somar-se às muitas naquele ensejo de desafios.
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(*) - Mais tarde, por imposição da família do homenageado, que dava nome à rua, jurista por sinal, o clube passou a chamar-se : “Saboialima Clube"
Obs. - Excerto de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997
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