por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 16 de maio de 2012

56 - O "23"



Era feriado.
O dia frio convidava a ficar em casa.
Guido e Luiz estavam “assinando o ponto”, assim dizia a mamãe quando os dois saiam para namorar.
Nestas ocasiões o quarto era todo meu, e a liberdade muito bem aproveitada. Dava para ler, escrever e até pensar sem ser incomodado. Ao fundo, o som melodioso da rádio Tamoio emoldurava o ambiente com “música, apenas música” - este o slogan da novidade da temporada; rádio com poucos “reclames”, nenhum falatório e muita música.
         Nestas ocasiões, cometia algumas ousadias em forma de sonetos, contos ou crônicas. Aqui vai transcrita a primeira delas:
         “Um belo sonho...”
         Esta noite tive um belo sonho. Sonhei coisas maravilhosas. Tudo muito lindo!
         Ausência de maldade, carência de sofrimento, completo esquecimento de ódio.
      O céu era puro azul, o dia fresco, o panorama verdejante.
         A tranqüilidade imensa, a felicidade incomum, o sentimento profundo.
         Envolvendo tudo, o aroma celestial de perfume etéreo. O silêncio calmante convidava ao devaneio...
         Tudo muito lindo.
         Sonhei coisas maravilhosas.
         Esta noite tive um belo sonho.
         Apenas sonho.
         Nada realidade...
Naquele feriado, bom de ficar em casa, já para lá das dez, recebi as visitas de Carlos Alberto e do Fadini, que por terem telefone, combinaram um cineminha de última hora. Já de volta, resolveram passar lá em casa para um papo de fim de noite.
- Minha tia, tia Nilda, está querendo sair de Inhaúma e vir morar na Tijuca. Acha aqui o ambiente melhor para criar meus primos - disse o Giffoni, conversa pelo meio.
- Puxa vida! - interrompi de supetão. Penso que tenho a solução. Na Sabóia Lima, 23, moram meus conhecidos, os Affonseca. Estão querendo vender a casa.
Em pouco mais de uma quinzena, as coisas aconteceram. E lá vieram os Gomes Romero serem meus vizinhos.

- Excerto de meu livro "Cheiro de Verão" 

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