A tradição começou quando Luiz César, já no Científico, coordenava os coroinhas que acolitavam as cerimônias da Semana Santa no Colégio dos Santos Anjos.
Eu, o mais novo da turma, achava importante recitar as “profecias”, em latim, som ecoando em cantochão pela nave da igreja, e chegando bem suave ao ouvido das meninas contritas, ou aparentando tal.
Era trabalho puxado, desde quarta-feira com a cerimônia do Lava-pés até o solene domingo de Páscoa, inclusive, passando pelo sábado, cerimonias madrugada a dentro.
A missão começava uma semana antes com a escolha das batinas e sobrepelizes que cada um deveria usar ao longo de todo o cerimonial. Afinal deveríamos ser elegantes ao máximo; não poderíamos desapontar as irmãs que se dedicavam com muita devoção e esmero para que tudo saísse a contento.
Aliás, como era linda a irmãzinha da sacristia. Por que tão linda criatura escondia-se envolta em tão pesado hábito.
Um desperdício!
Além do agradável convívio com as meninas dos Santos Anjos - “que as meninas dos Santos Anjos sejam os anjos das outras meninas” - éramos sobejamente gratificados com lautos lanches servidos com o requinte de louças finas e toalhas rendadas de linho.
No derradeiro dia, além dos ovos de Páscoa, discretos envelopes contendo uma mensagem carinhosa e dinheiro de boa serventia era delicadamente depositado logo abaixo dos alvos guardanapos.
Herdei do Luiz esta missão, cumprida com prazer por mais dois ou três anos.
Luiz César, “chegado” a uma igreja, anos mais tarde, já cursando a Faculdade de Filosofia e muito ligado ao Padre Máximo, pároco da matriz dos Sagrados Corações, criou um grupo teatral que tinha por base o salão da igreja; e lá estava eu, agora artista da ribalta, pronto a interpretar qualquer papel de moleque, garoto ou alguma "ponta" de maior ou menor participação.
Na realidade eram “pontas” que fazia com prazer. O que valia era o convívio junto aos mais velhos; até aprendi como se faziam “cacos” quando o texto original era abandonado ou esquecido pelos atores principais.
Os espetáculos eram variados, misturando pequenas peças teatrais, dramas ou comédias, poesia e muita música.
Uma das estrelas da companhia era o Carlos Vaz, colega de colégio do Guido, sempre dono do papel principal e também autor de sucesso.
Com o monólogo “Leonora”, sua interpretação cheia de emoção atingia o clímax ao som de “Uma noite em Monte Calvo ”, de Mussorgsky, na sonoplastia impecável do Luiz César. Apesar da precariedade dos aparelhos disponíveis na época.
O Guido quando não morria, sempre interpretando os personagens mais sóbrios, acompanhava ao piano os cantores Francisco Verta e Humberto Gallo, tenores apaixonados pelas canções napolitanas.
Juarez, meu padrinho, sabia atingir a sensibilidade das platéias interpretando com muita convicção o longo “Navio Negreiro” de Castro Alves: “... Fatalidade atroz que a mente esmaga!.../ Extingue nesta hora o brigue imundo/ O trilho que Colombo abriu na vaga/ Como um íris no pélago profundo!.../... Mas é infâmia demais... Da etérea plaga/ Levantai-vos, heróis do Novo Mundo.../ Andrada! Arranca este pendão dos ares!.../ Colombo! Fecha a porta de teus mares!...”.
Palmas, muitas palmas.
Ficava arrepiado!
Em dia de muito sucesso com o Ginásio de Clube Aliados, em Campo Grande , totalmente lotado, nosso diretor, nervos à flor da pele, sofreu uma grave “crise intestinal” sendo obrigado a dirigir seus comandados diretamente da “casinha”.
Inesquecível!...
Em tempo: minha estréia teatral foi no palco do Colégio São José no dia 29 de setembro de l952, dia da morte de Francisco Alves, o “Chico Viola” e “Rei da Voz”.
- Excerto do livro "Cheiro de Verão".
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