À medida que o ônibus ia distanciando-se de Friburgo, cada vez mais longe ficavam meus pensamentos, como que agarrando-se aqueles últimos minutos de total liberdade.
Eram lembranças das novas amizades, das brincadeiras e dos passeios, dos acontecimentos, dos imprevistos e lá no fundo da alma o sentimento prazeroso do amor, talvez primeiro.
Ressoava em meus ouvidos as trovas tão comuns naquela serras de muitas querêncas :
“Não me chames de senhor,
que eu não sou tão velho assim,
e a teu lado, meu amor,
não sou senhor... nem de mim!”, e de minha amada, ouviria:
“No dia em que tu quiseres
ser meu senhor e meu rei,
serei todas as mulheres
na mulher que te darei. (*)
Quanta diferença do quase misantropo que partira do Rio não havia dois meses. Agora, o ânimo redobrado conseguia fazer-me viver com intensidade aquelas emoções.
As histórias para contar eram muitas.
Janeiro já ia pelo meio quando apareceu no hotel um tal Fred Willians, artista conhecido, exímio tocador de harmônica de boca - nome petulante para aquilo que todos conheciam como gaita.
Mal chegado ao hotel foi identificado por alguém da turma e à noite já éramos todos íntimos. O “homem” tinha tanta história que iniciado no jantar o “papo” prosseguiu até a madrugada.
Contratado pelas gaitas “Hering”, Fred viajava pelo Brasil exibindo sua arte pelas rádio-emissoras, e divulgando seu patrocinador com a distribuição de instrumentos a título de prêmio aos vencedores dos testes que fazia com as platéias ao longo de seus programas.
A amizade feita e a ciência do objetivo das audições, foram passos decisivos para que todos da turma abiscoitassem os prêmios que seriam distribuídos na Rádio Sociedade de Friburgo, por ocasião dos programas de auditório.
É evidente que a coisa não foi muito honesta, pois já sabíamos previamente o resultado de cada teste. O trabalho era só escalar quem responde o quê, tomando o cuidado de , no auditório, ficarmos separados, como se ninguém conhecesse ninguém. Só para não dar na “pinta”.
Em uma semana todos possuíamos as melhores gaitas, inclusive as mais cobiçadas, aquelas com “chave”, coisa muito fina. O Ronaldo passou dias e noites aprendendo a tocar “Laura” em sua Membí-Cromática , pensando seriamente em promover nova serenata para sua amada.
Com o transcorrer dos dias a união da turma foi crescendo e com ela a intensidade das brincadeiras.
No Engert, sinos tocavam na alta madrugada, barulhos vindos do além escutavam-se nos forros que cobriam as alas de quartos, cardápios eram trocados no refeitório criando um sem número de reclamações, lâmpadas voavam ao serem acionados os interruptores, etc.
Até um velório com requintes de realidade foi montado num dos quartos do hotel, proporcionando um imenso susto aos hospedes quando do seu retorno, gerando um certo mal estar geral.
Acho que tínhamos ido longe demais!
Entre janeiro e fevereiro troquei de parceiro; Luiz voltou para o Rio e o Guido subiu para Friburgo. Felizmente, pois o Luiz provavelmente não iria gostar destes acontecimentos, e com certeza me colocaria de “castigo”, novamente.
Guido passava os dias namorando uma certa Maria Helena, e quase não tinha tempo para saber como iam as coisas comigo. Graças a Deus !
“Mãos tristes temendo ausências
se despedem com revolta...
nosso adeus tem reticências
que acenam gritando... Volta!”. (*)
Friburgo, até breve !
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(*) – Trovas de Rodrigues Crespo, Nydia Martins e Carolina Ramos
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