Ano complicado cheio de acontecimentos, alguns dramas e muitas transformações na minha vida. Vamos aos fatos, cujas origens reportam-se ao ano anterior.
Em meados de 1954 vovó Alice adoeceu gravemente.
Procurando de alguma forma minorar o sofrimento das tias, Luiz Cesar foi praticamente morar com elas em Botafogo e certamente sua companhia foi de muita valia. Admirei-o muito por isso.
Nesta época Luiz estudava com um grupinho, Peri, Jaime e mais raramente, Norma; creio que este contato com gente jovem tenha feito muito bem às tias Isa, Nenê e Maria auxiliando-as a atravessar uma fase que se previa bastante longa e sofrida.
No final do ano, nova surpresa desagradável: papai cai doente e é diagnosticada doença aguda nos pulmões; caso de internação demorada. E lá se foi papai para Belo Horizonte, tratar-se no Sanatório Paulino Werneck.
Era dezembro de 1954.
O Guido fazendo serviço militar na Marinha, também se ausentava muito de casa obedecendo às escalas de serviços, dormindo vários dias por semana no navio. Em janeiro estava programada uma viagem a bordo do Cruzador Tamandaré, coisa para mais de 30 dias, inclusive com idas a Fernando de Noronha e a Ilha de Trindade.
Repentinamente a casa ficou vazia. Somente eu e mamãe.
Muita solidão e preocupação.
Lembrava-me, então, de uma frase que havia lido não sabia onde: “solidão é uma ilha com saudade de barco”.
Pela primeira vez temi pelo futuro.
O ambiente era propício para a geração de uma grande depressão. Somava-se a tudo a adolescência chegando à sua plenitude com todas as suas artimanhas traiçoeiras.
Entrei na crise para valer, de cabeça!
Mesmo assim, não perdia a minha tremenda “cara-de-pau”, e ao ler uma carta que enviei para o papai em 8 de dezembro de 1954, não me surpreende a seguinte frase: “... já estou de férias e fiquei contente porque só estou em segunda época em inglês e matemática...”. Positivamente...
Esse era o panorama do início de 1955. Nada promissor.
Apesar de toda a crise que vivia, não estava de todo alienado.
Assim, percebi que os jornais começavam a destacar a figura de certo líder negro, nascido em Atlanta-EUA em 15 de janeiro de 1929. Seu nome: Martin Luther King.
Foi naquele ano que King apareceu para o mundo, atuando contra o racismo e a favor da não-violência, ao apoiar obstinadamente a campanha de desobediência à segregação racial dentro dos ônibus de Montgomery.
Durante o movimento sua casa foi atacada com bombas pelos defensores da “supremacia branca”. Apesar de tudo o boicote durou 381 dias e foi um sucesso. A Corte Suprema declarou a inconstitucionalidade da lei de segregação racial dentro dos ônibus do Alabama.
Pelo menos, dentro dos ônibus...
Eu começava a perceber que dentro dos Estados Unidos nem tudo era “cor-de-rosa”, como nos musicais da Metro.
Em 1963, Martin Luther King pronunciaria o famoso discurso “I have a Dream” e, em 4 de abril de 1968, morreria assassinado na sacada do Hotel Lorraine, em Memphis, Tennessee.
Também naquele ano Peron foi deposto na Argentina, a União Soviética devolvia à Finlândia seus territórios ocupados durante a Segunda Guerra, e no Brasil, em decorrência de mais uma grande seca no nordeste, ouviu-se pela primeira vez falar em Ligas Camponesas.
Na imprensa a moda eram os cronistas sociais e suas colunas.
O mais famoso colunista social era Ibrahim Sued, que cometia erros crassos de português e se divertia com isso. Mesmo assim, o “turco” como era chamado, criou fama graças à frivolidade da dita “alta-sociedade”.
Inventou alguns termos como “champanhota”, “su”, “ademã”, “de leve”, “niver”, “chumbeta”, “buzunta”, etc.
Ibrahim combateu a visita de Charles Chaplin ao Brasil (“Se é comunista, fica por lá mesmo”, apostava que o casamento de Grace Kelly não resistiria mais que três anos (durou até a morte de Grace em 1982).
Liderou algumas campanhas divertidas como aquela contra o vestido-saco, muito em moda no final dos anos 50, contra os homens usando meias brancas e contra o alfinete de pérola na gravata que dizia ser “xangai”, o mesmo que cafona anos mais adiante.
Também fez algumas campanhas mais sérias, sendo contra a transferência da capital para Brasília (que sempre considerou uma “roça”) e contra a fusão dos estados do Rio e da Guanabara.
Era capaz de despertar amor e ódio, tornando-se um personagem da crônica da cidade. Enfim, assim é a vida como escrevia ao final de cada uma de suas colunas: “os cães ladram e a caravana passa!”. Sua coluna foi escrita durante 44 anos...
Uma crítica bastante mordaz a toda esta mixórdia foi feita por Vinícius de Moraes no poema “As mulheres ôcas” e que termina assim:
“...
Nós somos as grã-funestas
As onézimas letais
Dormimos a nossa sesta
Em ataúdes de cristal
E só tiramos do rosto
Nossa máscara de cal
Para o drinque do sol posto
Com “o cronista social”.
Obs, - Trecho de meu livro escrito em 1997 "Cheiro de Verão"
Obs, - Trecho de meu livro escrito em 1997 "Cheiro de Verão"
Nenhum comentário:
Postar um comentário