por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 8 de maio de 2012

48 - VOTANDO PARA PRESIDENTE



         Em Friburgo ficava muito difícil participar de uma destas festas em casas de família. A sociedade, bastante fechada, não via com bons olhos aquele bando de forasteiros, um tanto avançados para os costumes conservadores e até provincianos da cidade.
         Também não era muito fácil freqüentar os clubes senão quando convidado por alguém bastante influente. As vezes éramos salvos pelo, filho de um dos donos do Engert, estudante do Colégio Anchieta e  nosso companheiro para todas as horas. Graças a ele, vez por outra íamos ao Clube de Xadrez ou ao Sociedade Friburguense.
         Ficava difícil, e este era o meu caso, aproximar-se de uma moça do local tal a vigilância, controles e espionagens que os “minhocas” exerciam com extremado zelo. Eram os guardiões das donzelas constantemente ameaçadas pelos turistas avançadinhos.
         Nas noites frustadas, que eram muitas, restava o consolo do papo com amigos em volta de um banco da Praça. Em dias mais abonados o encontro dava-se em torno de uma mesa do Lux ou do Atlantic, principalmente este, restaurante muito caro para nossos bolsos. Neles, muitas mágoas foram “afogadas”.
         Ao findar-se janeiro as conversas, vira-e-mexe, fixavam-se na posse de Juscelino Kubitschek que ocorreria no dia 31, vitorioso que fora nas eleições de 3 de outubro de 1955.
Apesar dos meus, apenas, dezesseis anos, votei naquela eleição.
A história foi mais ou menos a seguinte : ainda em conseqüência da crise gerada pelo assassinato do Major Vaz e o posterior sucídio de Vargas, Carlos Lacerda continuava a agitar o ambiente político do país.
Em dado momento surgiu com uma “nova bomba”, no episódio que passou a história como sendo o da “Carta Brandi”.
         Tratava-se de uma carta datada de 5 de agosto de 1953 e redigida por um ex-deputado peronista, Antonio Brandi, divulgada pela “Tribuna da Imprensa”, referindo-se a uma mercadoria supostamente encomendada por João Goulart, então ministro de Getúlio.
Tais encomendas seriam, na realidade, contrabando de  armas que deveriam ser remetidas a Uruguaiana como produtos alimentícios, visando a instação de uma República Sindicalista, similar ao peronismo argentino.
Realmente uma notícia de impacto, capaz de mudar todo o panorama político do pleito.
         Esta matéria foi publicada em 16 de setembro de l955, a menos de vinte dias das eleições, sendo João Goulart candidato a vice presidente na chapa de Juscelino. Junto à opinião pública este fato pareceu um tremendo golpe eleitoral.
         Eu que já estranhara muito as atitudes de Lacerda em toda condução da escolha do candidato da U.D.N. que culminara na tardia escolha do general Juarez Távora, rompi, provisoriamente, com meu líder e saí à busca de um outro candidato para torcer.
         Havia algum tempo, lera um livro chamado “Geographia Sentimental do Brasil”, assim se grafava, escrito por Plínio Salgado, chefe supremo do integralismo(*) no Brasil. Cheio de brasilidade e poesia, tal livro me empolgara.
         Sendo Plínio Salgado um dos quatro candidatos à Presidência da República, comecei a acompanhar sua campanha e a ouvir seus discursos.
          Não poderia haver dúvida, ali estava meu novo candidato.
         Mamãe havia tirado o Título de Eleitor e iria votar naquelas eleições, acho que pela primeira vez. Comecei a “fazer sua cabeça” chegando por fim a exigir que votasse em Plínio.
         No dia da eleição acordei bem cedo, acompanhando-a até a cabine eleitoral instalada no Colégio Baptista. Tudo certo !
         Em 3 de outubro de 1955, votei, se bem que indiretamente, para Presidente da República. Infelizmente o resultado não foi nada favorável ao meu candidato. Juscelino ( P.S.D./P.T.B.) foi eleito com 3.077.411 votos; Juarez Távora ( U.D.N./P.D.C.) 2.610.462  votos; Ademar de Barros (P.S.P.) 2.222.725 votos e finalmente, Plínio Salgado (P.R.P.) com apenas 632.848 votos.
         Perdi a eleição, mas acertei no julgamento dos fatos envolvendo a famosa “Carta Brandi”. Em dezembro de 1955, poucos dias após as eleições, o Inquérito Policial Militar, presidido pelo general Emílio Maurell Filho, informava que a carta era falsa.
          
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         (*) - Integralismo : movimento político surgido no Brasil nos anos trinta, pregava uma rígida organização da sociedade, apresentando-se como vanguarda nacionalista na luta contra o comunismo, o capitalismo internacional e a liberal-democracia.
O crescimento do movimento integralista deveu-se, num primeiro momento, à adesão de grande parte do clero e de intelectuais. Os “camisas verdes” que adotavam o lema “Deus, Pátria e Família” e tinham o “sigma” grego como disitintivo, chegaram a causar alguns tumultos, como o acontecido na Praça da Sé, em São Paulo, em 7 de outubro de 1934.
A Ação Integralista Brasileira  (A.I.B.)  foi dissolvida pelo presidente Getúlio Vargas em 10 de novembro de  1937, com a implantação da férrea ditadura do Estado Novo.  


Obs. - trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

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