por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 26 de março de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 126 - A MONTAGEM DE UM CENÁRIO INESQUECÍVEL






          Ao subir os degraus que me levavam ao átrio da Igreja vários sentimentos, emoções e expectativas me assaltaram. Tais fatos lembrados hoje parecem meio confusos, afinal, estava vivenciando momentos fartos de significados que  marcariam em definitivo meu fado. Devo ainda considerar que daquele momento até hoje lá se vão cinquenta anos; fácil a memória nos trair com o olvidar de algum detalhe.

          Lembro, no entanto, que de repente senti todos os olhares se voltarem para mim, a maioria olhos masculinos (conhecidos ou não) que permaneciam na área externa enquanto seus acompanhantes, mulheres e demais familiares, se acomodavam abrigados no interior do templo sentados comodamente nos bancos, a essa altura quase todos preenchidos. Era a tradicional espera da noiva, a verdadeira estrela da festa.

         Um misto de satisfação, alegria e gratitude à vida tomou conta de mim. Meus olhos inquietos procuravam por meus velhos camaradas. Lá estavam muitos deles alegres me cercando com profusos abraços, quando não, com sinal de "tudo em cima, ok". A emoção de cruzar, mesmo à distância, com olhos de velhos companheiros há muito dispersos e agora, novamente tão vizinhos dos meus emocionavam. Algumas ausências também machucaram meu coração; certamente estariam por perto ou motivos muito fortes poderiam estar a nos separar.

          Um fato que jamais esquecerei; meus mais "novos velhos amigos da Sursan" estavam todos presentes (Darly, Mewton, Alvaro, Augusto... Tão poucos meses de convívio não os afastaram de Tania e de mim.


         Logo juntei-me à minha cunhada Maria Helena; de braços dados, passos lentos e naturais, fomos até o altar. A espera da noiva foi breve. Tania não tardou a chegar e, ao som do "Magnificat", distribuiu sorrisos ao longo do trajeto de braços dados com seu pai, Dr. Mario Giffoni.


          Finalmente, todos juntos no altar com simplicidade das cerimônias daqueles anos. Nos alheamos de tudo, olhos fitos um no outro. sem nos dar conta que estávamos cercados de muitos convidados, de todas as idades, das duas famílias somados aos amigos de fé.


          Ainda no altar chegou meu irmão Luiz para acompanhar sua mulher; Tia Nilda e, Tio Alvaro meus padrinhos. Do outro lado completavam o cenário meus amados e iminentes sogros Dona Nice, Dr Mario e mais Paulo Cesar e Luiz Mario, irmãos da Tânia  e, ainda Tité - Tia Célia, tia da Tania e a partir daquele dia minha tia também. Estava pronto o cenário para  para o início da Cerimônia. 


         A cerimônia foi longa, com celebração de uma Missa Nupcial,  homilia cheia de histórias e emoção de Frei Gabriel, amigo da família de Tânia, a assinatura dos papeis do casamento civil e a interminável procissão dos cumprimentos. 


         Não haveria cansaço que superasse a minha felicidade e, sem falsa modéstia, a de Tania também que com suas mãos delicadas e geladas não abandonou as minhas ao longo de todo o ritual.


         Mais um pouco, seríamos marido e mulher; os mais felizes do mundo.


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               Ao som do "Magnificat", lá do altar, só tinha olhos para minha noiva, linda e suave a se aproximar de mim, conduzida por seu pai Dr. Mario Giffoni. As "daminhas de honra" foram as primas de Tania, filhas de tia Nilda e tio Álvaro as gêmeas Maria Tereza e Maria Elvira. Desde então, como até hoje, minhas queridas primas também.





terça-feira, 24 de março de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 125 - DO FEL À FELICIDADE...




                    Quando estava descrevendo a chegada a Igreja para o meu casamento (Capítulo 122), aconteceu o meu apagão particular "neste meu inventário de saudades". 

          Como já contei, nos últimos meses, me surpreendi inúmeras vezes sentado diante do computador à espera que uma luzinha bruxuleante fosse minha bussola que orientasse de volta ao caminho destas páginas e, me fizesse despejar no teclado um pouco mais do muito que ainda quero recordar, testemunhar e, enfim reviver, viver novamente.

          Essa agonia de constatar meu país caminhando para um abismo econômico, social, moral e, principalmente ideológico me tira por completo a tranquilidade necessária para deixar meu pensamento voar pelas rotas de minha história, sem turbulências ou sobressaltos.


         A presença do fantasma de Gramsci ata minhas mãos e aperta minha garganta trazendo o represamento em minha alma de todo o fel de uma doutrina totalitária que nem de longe faz o espírito do povo brasileiro.


          Nosso futuro, visto de hoje, é um imenso ponto de interrogação. A corrupção é apenas uma faceta desta orgia doutrinária que visa muito mais. 


          Deus nos dê forças para resistir, reagir e levar o nosso povo à rota da real democracia, do desenvolvimento, da fraternidade e sobretudo da valorização do ser humano criado à imagem divina.


          Perdoem-me essa cisma funesta. No próximo capítulo pretendo continuar minha história  que passará por momentos de imensa felicidade refletidos pelas primícias de uma nova vida, junto à minha Tania, minha mulher desde sempre e para sempre.


          



segunda-feira, 23 de março de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 124 - ENTRANDO PELA VELHICE COM CUIDADO...





          Numa certa tarde qualquer, nem sei por qual motivo, estive com minha Tia Nenê que já passava em muito dos setenta anos, não sei. possivelmente já nos oitenta.

          No meio da conversa ela retirou de sua bolsa, como se já fosse uma ação preparada, um papelucho com quatro sonetos impressos na frente e verso do quase enxovalhado documento. 


          Disse que iria ler o primeiro dos quatro sonetos e, que logo após me passaria tal relíquia para que guardasse comigo: "talvez algum dia possa ser útil para você" disse-me ela. 


         Ato continuo começou a ler com firmeza, porém com voz quase suplicante e com leve toque declamatório. Muito atento e curioso ouvi sem perder uma palavra:

   
        Eis o poema:

        "ENVELHECER


Entra pela velhice com cuidado,

Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,

Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.

Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu redor não mude.

Matem-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...

Bastos Tigre  

Recife (PE) 1882/ Rio de Janeiro (RJ) 1957

         Pergunto: por quê logo agora esse poema veio às minhas mãos, guardado que estava há tantos anos? Respondo: mais uma prova da verdade dita e redita na atualidade: "Nada acontece por acaso...".


         Tia Nenê (Nelsinda Coelho Leal) faleceu em 2006 na mesma Casa de Saúde São José onde poucos dias antes nascera meu neto Miguel.


         Minha querida Tia viveu 97 anos e, pelo que todos que a rodeavam constataram, seguiu à risca os ensinamentos do poema de Bastos Tigre. 


        Lúcida até o fim, atualizada com tudo que acontecia ao redor, pintora amadora com um viés realista de um verdadeiro profissional, jovem de espírito que chegava a passar trotes requintados que fez meu irmão Guido, aquele que a acompanhou em todos os momentos de sua senescência, dar urros ao telefone e depois deixar-se envolver às tremendas gargalhadas.


        Muito religiosa até o fim, missa e comunhão diárias na Matriz de São João Batista na Rua Voluntários da Pátria em Botafogo, viz-à-viz ao edifício onde viveu as últimas décadas de sua vida, ela que foi uma das minhas principais incentivadoras desde o início de minha ousadia de tentar escrever e que seguidamente pedia, ao telefone, mais capítulos para ler, certamente quis me dar um receita de como bom-envelhecer.


        Eu que aprenda a lição pois, nos últimos tempos, tenho passado momentos de angustia que me deixam longe, muito longe, da mensagem de Bastos Tigre.


       Vale para mim definitivamente o adágio:  "Manda quem pode; obedece quem tem juízo".


      Preciso urgentemente ter juízo. Obrigado Tia Nenê!!! 

        

        

domingo, 22 de março de 2015

"OS CHEIROS DA VIDA" - 123 - AH!!! O CARRO!!!



       Desde dezembro do ano que passou já perdi a conta do número de vezes que sentei à frente de meu computador com a finalidade de continuar a escrever minha história.

       Não são poucos os temas que vêm a minha cabeça, alguns até meio elaborados com requintes de texto pronto. Tudo isso acontece principalmente ao longo de um sem-número de horas que perco no ônibus do meu condomínio nas viagens diárias, ida e volta nos deslocamentos da Barra da  Tijuca para o escritório da SERPEN no Centro do Rio (*). No entanto, uma força estranha trava  meus dedos e mistura meus pensamentos com coisas do passado e do presente. 


       Nesse vai e vem,  acontece: desvio minha atenção, agasalho um estranho cansaço, fastio, tédio e, quando volto à realidade me surpreendo, jogando "paciência" ou fazendo alguma "pesquisa". 


      Nos dias mais afortunados a volta à vida é mais saudável, e me descubro, sem saber como e quando  comecei a ouvir músicas e ver vídeos apresentando orquestras, bandas, cantores e cantoras de várias gerações, canções e concertos, eruditos ou popular, de todos estilos, harmonias e ritmos que só fazem aumentar no meu peito uma nostalgia muitas vezes gratificante, outras amargas; quase sempre saudosas dos tempos e das pessoas queridas que passaram pela minha vida, dos encontros e desencontros. dos sucessos e dos fracassos,  das honrarias e das iniquidades...

       Esses devaneios frequentemente não  refletem  as necessidades do momento, cada vez com maior escassez de porvir,  para escrever o que gostaria de deixar para meus filhos, netos, parentes e amigos. Há ainda muito a esquadrinhar na minha memória e,  mais uma vez como dizia Bobbio "a imagem da vida corresponde a uma estrada cujo fim sempre se desloca para frente, e quando acreditamos tê-lo atingido, não era aquele que imagináramos como definitivo". 

       Certamente, o tempo restante que a vida me oferece será exíguo para o tanto a depor, tenho, no entanto, a missão assumida comigo mesmo de empurrar, a cada dia, cada hora e segundo, a curva final, a derradeira manobra e o último pisar no freio. 

      Como tudo isso está a cada momento mais difícil?

      Noto que a "estrada" se torna a cada novo lanço mais pedregosa, as curvas desnudam traições, e o carro...

      Ah!!! o carro!!!...

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     (*) - Devo essas cansativas, monótonas e despropositadas viagens a, principalmente, três cidadãos (se é assim que minha generosidade os possa classificar): césar (mala) maia, luiz (molusco)  ignácio e a Helen Gracie (a educação que Dona Tininha me passou não me permite a falta de cavalheirismo de escrever o nome de uma mulher precedendo-o com letra minúscula) . 
Isso é assunto revoltante, imoral e desumano que não estou preparado, no momento, para descrever. O certo é que fui devastado financeiramente, depois de uma longa e dedicada vida profissional; em consequência de um ato insano e ilegal, destes três irresponsáveis que se fizeram de ignorantes de um ato de reconhecimento, em última e definitiva instância promulgado pelo Supremo Tribunal Federal. Tal ato me deu ganho de causa em 1999, por unanimidade. 

Esse caso atingiu, ainda, mais alguns velhos e queridos amigos, profissionais de primeira linha. 

Em decorrência tive que esquecer minha merecida e valiosa aposentadoria. Consequentemente voltar a lutar dia-a-dia para recompor, sem conseguir, minhas finanças. 
Um dia contarei essa história revoltante. Se tiver força e vida ainda, é evidente...