Já passava de uma hora da manhã de uma terça-feira qualquer daquele fim de agosto, noite bem fria por sinal.
Mais de uma vez fizera menção de ir embora, e subir a ladeira deserta da José Higino, mas Carlos Alberto insistia em novo tema, metaforizando numa frase muito sua: “toma mais um chope!...”. E logo, retomado o fio da meada, contados quartos-de-hora de conversa jogada fora consumia boa parte da madrugada cada vez mais exígua.
Súbito, uma frase de alerta:
- Olha só, bem atrás de você!
- O quê?
- Não é o quê, e sim quem.
Mal deu tempo de virar o rosto, e quase esbarro com uma cambaleante figura, já não jovem, muito pelo contrário, a exalar forte cheiro da mais reles água-ardente. A andrajosa criatura aproximara-se em tão grande silêncio que não dera para perceber sua chegada.
A me ver assustado, nossa personagem começou a gritar, provavelmente perturbando o sono de muita gente: “O quê está preso quer sair! O quê está preso quer sair!...”.
Ato contínuo, ali, bem junto de nós, agachando-se, começou um ritual, que digamos assim, antecede os procedimentos para dar curso natural aos apelos da natureza quanto às suas necessidades fisiológicas.
Afastei-me com um pulo, e deu-me muita raiva as gargalhadas do Beco, a zombar da minha reação frente a tão inusitada criatura.
Bons tempos, em que o desassossego de um notívago pedestre, era apenas o desagradável partilhar a calçada com algum ébrio errante. Nada de sobressaltos ou precauções exageradas. Assaltos, tiros, tráfico de drogas, eram coisas desconhecidas de toda uma geração.
Feliz geração...
Recordando aqueles dias, constato que passei minha juventude sem ter a menor noção qual fosse a lúgubre melodia do disparo de uma arma de fogo, a não ser nos “bang-bangs” no escurinho dos cinemas.
Ladrão, naquela época, só o famoso “ladrão-de-galinhas”, romântica figura a rondar os quintais das casas a procura de alguma peça de roupa descuidada no varal de quarar.
Também eram famosos os “batedores de carteiras”, ágeis intérpretes da arte de esvaziar bolsos. Artistas de mérito, certamente...
Provavelmente, em noites repetidas, fora assunto de nossas conversas o filme “O homem do braço de ouro”, com Frank Sinatra, que tratava do drama de um viciado em entorpecentes, assim se dizia.
Sentíamos, aquela história pertencia a um mundo longe do nosso. Acho mesmo que mais do que a profunda luta do anti-heroi do filme, impressionou-nos a música tema do filme, com um longo e arrebatador “swinging” marcado pela sonoridade moderna dos pratos da bateria.
Durante muitos anos a esquina da Rua José Higino com Rua Conde de Bonfim foi testemunha de sonhos, dúvidas, filosofias, projetos, decisões, incertezas, profundas aberturas de alma...
Tudo isto habitava nos “altos-papos”, até as horas mais quietas das madrugadas.
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997
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