por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 14 de maio de 2012

55 - RIO, CIDADE QUE ME SEDUZ



Marcar um encontro, receber ou dar algum recado, era tarefa muito difícil naqueles “cinqüenta”.
Desde pequeno ouvia dizer que estávamos na fila para obtenção de um telefone. Coisa para mais de quinze anos.
         Certa ocasião tudo parecia resolver-se.
Dr. Arnaldo, pai do Mario Monteiro, colega do Guido, recém nomeado diretor do Departamento de Concessões da Prefeitura, então P.D.F., Prefeitura do Distrito Federal, ofereceu-se prestimosamente para resolver a questão. Coisa simples.
         Simples ?... 
Não para Dona Tininha. Nada de pistolões ou cambalachos.
E lá se foi nossa chance de ter um telefone em casa,  derradeira oportunidade para dispensar aqueles horrendos aparelhos rançosos da padaria, do armazém, do botequim ou em casos de mais urgência, o telefone perfumado, cheio de “muitos-obrigados”, de Dona Aline, a da casa cinco, lembram-se ?
         Era de dar inveja as histórias dos meus amigos contando das maravilhosas conquistas feitas a longa distância, dos namoros sem pressa, ouvido a ouvido, graças à CTB - Companhia Telefônica Brasileira.
         Em compensação, uma vantagem, as más notícias custavam mais a chegar.
         Não só de telefones sentia-se falta no Rio de Janeiro naquele ano de 1956.
No carnaval, cantava-se : “Rio de Janeiro,/ Cidade que me seduz,/ De dia falta água,/ E de noite falta luz”. Na realidade a letra desta marchinha nunca correspondeu à verdade. Ambas costumavam faltar sem respeitar dia ou noite.
         Para falta d’água, o jeito era manter um grande tonel, sempre cheio, ocupando boa parte do quintal. A luz, até que não chegou a nos incomodar, a não ser anos mais tarde quando a crise no fornecimento acarretou necessidade de racionamento. Aí, então, faltava luz por uma hora, todas as noites, com horários previamente divulgados.
         Mas era o Rio de Janeiro, a capital da República e como carinhosamente a chamou, em 1913, a intelectual francesa Jeanne Catulle Mendes, “A Cidade Maravilhosa”. Para sempre...
         A cidade ainda não havia sofrido a verticalização predatória da construção civil. Lá de casa, ouvia-se com nitidez o atrito das rodas dos trens sobre os trilhos da Central do Brasil, o taxiar e a decolagem dos aviões no Aeroporto do Galeão, e quando tinha jogo, a explosão das torcidas no Maracanã.
         Num Rio, muito alegre e cordial, tudo era superado e a gíria passava a fazer parte do vocabulário do dia a dia, em alta profusão, influência do rádio que vivia seu tempo áureo.
São desta época: “arigó”: bobalhão; “bagunçar o coreto”: acabar com a festa; “broto”: menina-moça; “cara-de-pau”: cínico; “dar no pé”: fugir; “lavar a égua”: fazer um bom negócio; “mandraque”: homossexual; “pagode”: grande farra; “pisante”: sapato; “beca”: terno; “enforcante”: gravata; “culatra”: bolso traseiro da calça; “morcego”: guarda-chuva; “vai da valsa”: de qualquer jeito; “ximbica”: carro velho; “bambolê de otário”: aliança de casamento; “coqueluche”: assunto do momento; “barnabé”: funcionário público; “meu chapa”: meu amigo; “sossega leão”: te acalma; “candango”: operário de Brasília; “tubarão”: aquele que praticava preços altos, empresário; “me dá meu boné”: já vou...
         O orgulho nacional concentrava-se na indústria automobilística que começava a ser implantada no país.
A Romi-Isetta foi o primeiro veículo automotor fabricado no Brasil, ainda em 1955. Sua primeira publicidade dizia: “Rodando à frente do progresso”. Um estranho veículo com uma única porta, e, abrindo para frente. Transportava, sem muito conforto, dois passageiros.
Devido às suas mínimas dimensões, foi logo apelidada de “bola de futebol de fenemê”, este sim um grande caminhão fabricado pela Fábrica Nacional de Motores.
No ano seguinte surgia a Rural-Willys e a Vemaguet, da DKW-Vemag. No final do governo de Juscelino, o Brasil produzia 130.000 veículos por ano.
         Em 19 de setembro de 1956 foi sancionada a Lei 2874, que autorizava o governo a construir Brasília.

Obs. - Excerto de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997
        

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