por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 30 de maio de 2012

69 - O SEQUESTRO



Com o apoio decisivo de “O Líder”, Sidinho foi eleito presidente da A.L.C.A. - Academia Literária Castro Alves - para a gestão de 1957.
Em nossos editoriais de apoio, figuravam expressões tais como: “...pedimos incessante apoio dos colegas porque o movimento não é nosso, mas, de vocês e para vocês.”, ou, “...poderemos ser o instrumento de seus anseios durante o ano vindouro.”, ou ainda, “...em época alguma faltaremos com a verdade, pois temos muito amor à Academia para a desonrar na pessoa de qualquer acadêmico. Temos adversários, mas, lhes somos amigos” .
Patéticos apelos tais como: “Este é o momento de pedirmos silêncio, grande silêncio; queremos ouvir a grande resposta de seus lábios, queremos ouvi-los com a promessa de colaboração para juntos subirmos à presidência da casa de Castro Alves e a promessa de nos tornarmos sempre e sempre amigos, suportando as mesmas tristezas, sentindo as mesmas alegrias...”.
Passados alguns meses, as coisas estavam bem diferentes.
Sidinho, numa avassaladora guinada para esquerda, uniu-se ao grupo dominante da política estudantil, adeptos contumazes  dos velhos chavões extremados, sem muito senso ético, em suma, os chamados “estudantes-profissionais”, ou mais rasteiramente, os “comunas”.
Daí, até o nosso rompimento, tudo aconteceu rapidamente; meus pensamentos, e de todos nós de “O Líder”, eram radicalmente opostos ao do Presidente que ajudáramos eleger.
Passamos a militar em campos opostos.
Soava dissonante aquelas palavras: “..,sempre e sempre amigos, suportando as mesmas tristezas, sentindo as mesmas alegrias...”.
Ao contrário de agora, os estudantes de então eram muito politizados.
 Na Academia, além das aptidões literárias, não descuidava-se da política e dos assuntos de interesse nacional. Em pouco tempo, formavam-se correntes com opiniões diversas. Certamente as idéias defendidas por Sidinho de longe coincidiam com as da maioria dos acadêmicos.
Ao final de cada ano realizava-se  o Congresso dos Estudantes Secundaristas do Distrito Federal, culminando com as eleições gerais para escolha do presidente e demais diretores da A.M.E.S. - Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários .
Todos os colégios da Capital  estavam credenciados a participar do conclave, normalmente representados pelos diretores dos respectivos grêmios, no caso do São José, da A.L.C.A..
Ao longo de quase uma década os “vermelhos”, abusando de táticas muitas vezes não recomendáveis, venciam as eleições com certa facilidade.
Naquele 1957, decidimos participar para valer e se possível interromper aquela monótona cantilena.
No entanto, havia um problema. Apesar da decisão da maioria de apoiar o candidato anticomunista, Sidinho, o credenciado oficialmente a votar pelo colégio, pensava apoiar o continuismo.
Estava criado o impasse.
Utilizando a tática de sempre, a “situação” procurava prolongar, sem pressa, a sessão de encaminhamento das eleições.
O  objetivo era vencer pelo cansaço fazendo com que os colégios não tradicionalmente militantes se retirassem. Num esforço digno de nota íamos conseguindo mantê-los no plenário.
Já alta madrugada, até prostitutas foram introduzidas no recinto para espanto das meninas dos colégios católicos e horror das freiras que ameaçavam abandonar tudo em prol do respeito aos bons costumes. Com muito trabalho tentávamos mostrar que esta era uma velha tática, bastante conhecida, e que não poderia prevalecer desta vez.
Fomos convincentes; todas permaneceram muito atentas, seguindo rigorosamente nossas orientações.
As chances de vitória cresciam a cada minuto.
Faltava ser resolvido um só problema, o Sidinho.
Fazê-lo votar conosco era tarefa descartada. Só restava uma solução, posta em prática com uma precisão de filme policial. Devíamos seqüestra-lo, substituindo-o pelo Vice-Presidente que votaria com a  “oposição”.
Missão cumprida! Sidinho foi “convidado” a permanecer por algumas horas no apartamento do tio do Flávio Lage, pertinho dali.
Vitória!...
Depois de muitos anos, a “esquerda festiva” deixava de vencer as eleições da A.M.E.S.
A comemoração foi estrondosa, apesar dos olhos arregalados das freirinhas, escudeiras aflitas das donzelas, estas sim, verdadeiramente as heroinas da noite.
O sol já vinha nascendo quando atravessamos a rua na expectativa de tomar a primeira condução que passasse.
Exultando de alegria, acompanhamos os gritos de desafogo atirando na Baía da Guanabara, que estava ali, juntinho de nós, as latinhas de fluido de isqueiro que ganháramos da ESSO,  a título de propaganda. Naquela época ainda não existia o Parque do Flamengo que, logo-logo, levaria o mar para bem longe...
Na volta para casa, quase dormindo no lotação barulhento, pensava com os meus botões : “ganhei uma batalha e perdi um amigo...”. 

NOTA IMPORTANTE - Com o passar dos anos tudo foi esquecido e voltamos à nossa amizade dos tempos de criança

- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997.

terça-feira, 29 de maio de 2012

EXTRA - TEXTO DE MAX GHERINGER

O texto abaixo é do Max Gehringer - Fantástico o que ele escreveu.
Confira...



Existem CINCO ESTÁGIOS em uma carreira.

O PRIMEIRO estágio é aquele em que um funcionário precisa usar crachá,
porque quase ninguém na empresa sabe o nome dele.

No SEGUNDO estágio, o funcionário começa a ficar conhecido dentro da empresa
e seu sobrenome passa a ser o nome do departamento em que trabalha.

Por exemplo, Heitor de contas a pagar.

No TERCEIRO estágio, o funcionário passa a ser conhecido fora da empresa e o
nome da empresa se transforma em sobrenome. Heitor do banco tal.

No QUARTO estágio, é acrescentado um título hierárquico ao nome dele:
Heitor, diretor do banco tal.

Finalmente, no QUINTO estágio, vem a distinção definitiva. Pessoas que mal
conhecem o Heitor passam a se referir a ele como "o meu amigo Heitor,
diretor do banco tal". Esse é o momento em que uma pessoa se torna, mesmo
contra sua vontade, em "amigo profissional".

------------------------------------------------

Existem algumas diferenças entre um amigo que é amigo e um amigo
profissional.
Amigos que são amigos trocam sentimentos.

Amigos profissionais trocam cartões de visita.

Uma amizade dura para sempre.
Uma amizade profissional é uma relação de curto prazo e dura apenas enquanto
um estiver sendo útil ao outro.

Amigos de verdade perguntam se podem ajudar.
Amigos profissionais solicitam favores.
Amigos de verdade estão no coração.
Amigos profissionais estão em uma planilha.

É bom ter uma penca de amigos profissionais.
É isso que, hoje, chamamos networking, um círculo de relacionamentos
puramente profissional.

Mas é bom não confundir uma coisa com a outra.

Amigos profissionais são necessários.
Amigos de verdade, indispensáveis.

Algum dia, e esse dia chega rápido, os únicos amigos com quem poderemos
contar serão aqueles poucos que fizemos quando amizade era coisa de
amadores.

Max Gehringer

VISITA DA LEILA E NÉOCLES - HÁ ANOS RADICADOS EM SÃO PAULO - À NOSSA CASA NA TIJUCA



FOTO DE SETEMBRO DE 2004 - RECORDANDO NOSSA JUVENTUDE NO SABOIALIMA CLUBE (ANOS 50/60) - Os casamentos do Leila e Néocles, Maria Clotilde e José Murilo e Tania e Zé Karlos nasceram  de encontros no Clube.



Posted by Picasa

68 - O PROFESSOR E O "MONGOLÓIDE"


                                                                                       

Naquele 1957, um fato pouco comum.
Já formado em letras anglo-germânicas pela Faculdade Nacional de Filosofia, Luiz César, contratado como professor de inglês do “São José” tornara-se professor do Segundo Colegial, e, portanto meu professor.
Sobrara para mim!
Em véspera de provas e sabatinas, era intensamente assediado por vários colegas na ânsia em conhecer a redação das questões. Evidentemente, eu nunca soube de nada, apesar da descrença de muitos.
- Teu irmão “roda” as provas em mimeógrafo, ali, juntinho, e você vem com essa que não sabe de nada? Essa não! - reclamavam os mais exaltados.
- Calma pessoal! Meu irmão está apenas começando a carreira e tem um nome a zelar.
Os menos honestos não entendiam, ou não queriam entender, meus argumentos.
Este episódio foi bom para mim e ensinou-me, na prática, como são largos os critérios de probidade para certas pessoas. Muitos sempre acharam que eu estava mentindo - para estes, certamente recebia uma “mãozinha” do irmão-professor.
Fora este fato, pouco agradável, não deixava de ser inusitado ter como mestre um ex-colega, contemporâneo de todos, fazia poucos anos. Luiz César havia de ter muita habilidade para contornar a indiscrição dos mais “engraçadinhos” que procuravam abusar de sua pouca idade.
Então vinham as piadas do programa PRK 30, o humorístico de maior audiência que apresentava aos seus rádio-ouvintes as sensacionais aulas de inglês.
A turma não perdoava, e procuravam gozar o novo mestre com os bordões do programa: “dog qui make au, au don’t morde nobody”, “two bicudos don’t se kissing”, “water mole in peter dure, tanto bate até que fure”, etc.
Sempre atento, conseguia levar a bom termo sua missão, adaptando a rigidez ao mínimo necessário ou, esquecendo-a por completo nos casos excepcionais, como por exemplo, no relacionamento com o Rafael, nosso colega de muitos anos, e que se comportava, em suas aulas, como um legítimo “mongolóide”. Luiz tratou-o como se assim ele fosse durante todo o ano, sem maiores perdas.
O que era muito engraçado no início, deixou de sê-lo em pouco tempo. Mas o “artista” não deu o “braço a torcer”, levando a farsa até o final. Um detalhe: Rafael era o melhor aluno de inglês da classe.
Com certeza a grande maioria gostou de ter um professor jovem, leigo, fato raro no “São José” daqueles tempos, e, sobretudo atualizado na matéria que ministrava. Acho que jamais esqueceram as famosas “Idiomatic Expressions”, praticadas exaustivamente ao longo de todo ano letivo.
Ao final, obtive nota média final sete; nem maior, nem menor que as dos anos anteriores.
Graças a Deus!

- Excerto de meu livro "Cheiro de Verão"

domingo, 27 de maio de 2012

67 - 'CASA DE CHÁ DO LUAR DE AGOSTO"


 
A manhã nem começara quando fomos desafiados a interpretar um bilhete encaminhado a Dona Elvira.
A escrita garranchosa era mais ou menos assim : “Us coloio ton for gordon. Uamos aporo ueita auca tião. Roca mas unis pastus...”
Concluímos, após rápida consulta àquele papelucho disforme,  tratar-se provavelmente de um texto multi-idiomático. Conhecimentos postos à prova, eis a tradução : “Os colonos estão folgados. Vamos aproveitar a ocasião para roçar mais alguns pastos...”.
Naquelas últimas duas semanas a fazenda deixaria de ser só nossa, a turma dos seis. Tia Nilda iria aproveitar com sua tropinha os últimos dias de descanso.
Agradável surpresa: viria também uma convidada especial, Tania.
A notícia deixou-me entre eufórico e apreensivo, afinal não sabia dos sentimentos de minha eleita. Deveria ter muito cuidado para não por tudo a perder. Confesso: não gostei nada da reação do Afonso ao saber da chegada da irmãzinha do meu amigo. Ficou muito entusiasmado o “velhaco”.
Com tia Nilda, alargaram-se os horizontes. Conduzindo com muita desinibição a pick-up verde, os passeios multiplicavam-se. Várias idas e vindas a Cantagalo, compras em Cordeiro, passeios às fazendas do tio Neco e Sidoque ...
Rapidamente todos estavam a postos para uma saída, fosse para onde fosse. Na cabina iam Tia Nilda, Roseane, Tania e Marina, esta, quando permitiam suas ocupações. Atrás, na carroceria, misturados a sacos de ração, o resto do grupo, enfrentando na maior farra o jogar das curvas, o baque nos buracos, o vento, o frio e quando em vez, uma chuvinha impertinente.
Quando na fazenda, já noitinha, tia Nilda convocava-nos para uma oração coletiva, passos lentos pela estrada, quase sempre um piedoso terço e as ladainhas de Nossa Senhora.
Pelas manhãs, nova convocação: todos devíamos dividir a responsabilidade de tomar conta da Rose, então com três ou quatro anos; até que a missão não era das mais difíceis!
Em dias “inspirados”, Carlos Alberto era o que mais  “aprontava”.
Com a colaboração da  Marina, por exemplo, certa tarde, costurou as pernas das calças e as mangas dos pijamas de todos, fato desagradável só descoberto quando na penumbra do quarto, já tarde da noite, tiritando de frio descobriu-se a impraticabilidade de proteger-se do frio como todo bom “cristão”.
Aliás, Carlos Alberto “inspirado”  era desassossego certo para todos.
 Às vezes, puxava longas ladainhas, a seu modo, é claro, exigindo um coro afinado a responder : Saanta Camílae ! Ora pro nobis; Saanta Elvírae! Ora pro nobis; Saanta Marínae! Ora pro nobis... , e por aí continuava, sem parar, por longos minutos, inventando santos, ou “gozando” os mais chegados, notando-se de quando em quando uma pontinha de pirraça, maldades subliminares só compreendidas pelos “entendidos”.
Fazia sucesso na época o filme “Casa de Chá do Luar de Agosto”, estrelado por Glenn Ford fazendo papel de um militar americano, e Marlon Brando interpretando magistralmente um nativo japonês, o Sakini. 
Uma cena famosa do filme mostrava uma viagem que seria feita por Ford, de jipe, onde todos os nativos liderados por Sakini, Marlon Brando, tinham motivos de sobra para pleitear uma carona no pequeno veículo, carregando de tudo, deixando totalmente embaraçado o militar que tinha a missão de angariar a amizade do povo dominado pela conquista americana. No filme, esta cena era hilariante.
Pois bem, Carlos Alberto, decidiu parodiar esta cena fazendo com que todos participassem do enredo. O palco para este espetáculo, foi a velha cozinha da fazenda. Até cabra, patos e galinhas participaram da encenação.
Coisa de louco !
Mais umas férias de deixar saudades ...

OBS - Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

EXTRA - MAIS MOMENTOS DE FUTEBOL DO ZEZINHO





Por ocasião da feitura desse vídeo a "fera" tinha sete anos.
Atualmente já é um veterano com oito anos....
No vídeo camisa oito

sexta-feira, 25 de maio de 2012

EM BREVE FAZENDO GOLS PELA ESTRELA SOLITÁRIA E VESTINDO A AMARELINHA

     
Esse número 10, de camisa amarela, é Zezinho (José Guilherme), filho de meus amigos Luciana e Zé Renato.
Antes do fim desta década estará apto para vôos mais livres e mais altos.

SAUDAÇÕES ALVINEGRAS / ZK

Segue apenas uma pequena amostra...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

66 - A "CEU AZUL"



         Os dias em Santiago corriam indesejavelmente rápidos.
Aquelas férias talvez fossem as últimas a serem gozadas com tranqüilidade. Depois, 1958, último e decisivo  ano de colégio; ano de escolha da futura profissão e  de preparação ao vestibular.
         Brasão, Guarani, Danúbio, Volúpia, Pindorama, Estrela, Colibri, Tropicão. Em poucos dias, estes nomes tornaram-se muito familiares a todos nós; cavalos e éguas testemunhas cansadas de nossos passeios e aventuras.
         Certa noite saímos destino desconhecido, pelas estradas e atalhos, desacompanhados da lua, numa escuridão preocupante para nós, cavaleiros de poucos talentos.
Sem saber, estavam preparando uma cilada para mim.
         Montando Tropicão, que já meio idoso, tinha dificuldades em acompanhar a tropa, por muito tempo consegui, com não pouco esforço, mante-lo no meio da cavalgada. As cantorias a seis vozes, em altos brados,  espantavam o frio e afastavam os temores do negrume embaraçoso.
         Súbito, minha montaria empacou. Calmamente procurei convence-la a continuar. Nada!
         Aumentei o ritmo das pancadas, com os calcanhares, na barriga do animal.
Nada!
         Já meio preocupado, pensei: será que é assim que se faz?
         A cantoria já ia longe, quando notei que estava só.
         Comecei a gritar pelos companheiros sem sucesso. Mais um pouco, nem a cantoria ouvia mais.
Convenci-me, então, que devia preparar-me para uma longa vigília, naquele atalho sem nome e solitário no meio da mata. Grande amigo este Tropicão, “filho de uma égua”. Nem percebi da inutilidade do chingamento.
         Passada um boa meia-hora, um século, para mim, desfez-se a tramóia. De volta, todos riam as escancaras de minha desdita. Tudo fora preparado com requintes. Jorge e Carlos Alberto conheciam de sobejo o Tropicão, animal manhoso, sempre pronto a empacar quando derradeiro em uma tropa. Tudo combinado prepararam a farsa que me deixou bastante vexado.
         Felizmente havia passeios mais agradáveis.
         Quando montados a cavalo, em mansas passadas, quinze minutos, um pouco mais, um pouco menos, nos separava do “Céu Azul”, uma antiga fazenda de café, onde morava Dona Elvira, avó do Beco.
         Realmente o contraste ao longo da trilha em sobe-e-desce, aliando os afloramentos de rocha ao verde da mata, realçavam o azul do céu, naquele recanto de muita beleza e paz.
         O curral, a horta, o moinho dolente, o aroma profundo da erva cidreira compunham uma seqüência harmoniosa de paisagens, anunciando a chegada para breve. 
Na virada da curva suave, a visão do antigo terreiro, varrido com esmero como se pronto estivesse para receber os frutos da Rubiácea para secagem.
Mais alguns minutos, apeávamos junto ao avarandado da casa.
Alongando os braços e enchendo os pulmões com o puro ar do vasto sítio, invadimos o pomar.
E, lá vinham laranjas, campista, lima e seletas, os cambucás maduros, os abacates vergando os galhos carregados. Mais, cajueiros, ameixeiras, caquiseiros, abieiros, mangueiras. Os cajás-manga e as carambolas espalhavam-se pelo chão macio... Um sem-fim de doces frutas, tudo muito bem tratado, convidando a um saborear de nunca terminar.
         A vó, com muito carinho, convidou-nos para um cafezinho, ali moído e passado especialmente para nós, e fumegando à mesa, vestida com belas rendas, na sala acolhedora.
As cadeiras de palhinha realçavam a beleza da casa, onde os aparadores e o étagère requintado denotavam o bom gosto de um tempo de passar tranqüilo. As janelas esbanjavam vidros trabalhados com lindas garças em bucólicos panoramas; perene encantamento.
         A água cristalina viajando em meias-canas de bambu, abastecia sem pressa a casa, protegida apenas no cobrir das árvores e pelo imenso céu azul, toque rústico final àquela aquarela de muitas cores, gravadas em nossas memórias para sempre.
         Bem escolhido o nome: “Fazenda do Céu Azul”...
   

         -  Excerto de meu livro "Cheiro de Verão".





65 - O FRIO E O FUTURO


        
Em noites de muito frio, sentados ao redor da mesa da sala e protegidos pelos cobertores envolvendo os ombros, comprimindo-os ao peito com as mãos geladas, rolavam intermináveis papos, devaneios sobre o destino, nossas profissões, nossos amores, namoradas e até as famílias que certamente iríamos constituir corridos mais poucos pares de anos.
         - Quando pequeno passeio certo em muitos domingos de sol era ir à Praça Mauá. Agarrado à mão sempre quente de meu pai, com olhos brilhantes, acompanhava os transatlânticos atracarem no cais, as manobras dos navios de guerra e a chegada dos pesqueiros sonolentos saudados por uma revoada de gaivotas ariscas.
         Fui interrompido abruptamente.
         - Lindo! E daí?
         - Daí que, empolgado com o que via, não tinha dúvida: minha futura profissão seria a de Oficial de Marinha.
         - Milico?
         - É, mas isto foi coisa de garoto. Agora, não estou tão certo. Engenharia deverá ser minha carreira, talvez influenciado por meu irmão e orgulhoso do que ouço falar de meu avô.
         - É por aí que eu vou; certamente serei seu colega - retrucou o Fadini.
         De repente, ouviu-se o estalar de madeiras. O relincho grave e repetitivo de um cavalo aflito ecoou pelo vale silente. Ato contínuo, o galope nervoso do macho cruzou o terreiro, direção certa, morro acima, até onde pastavam as éguas.
         - É o Brasão - disse Jorge. É sempre assim. Alguma fêmea deve estar no cio e é impossível resisti-la, ainda mais o Brasão. É a força da natureza...
         Passado o inusitado, foi retomado o fio da meada.
         - Desde muito pequeno quero ser médico, apesar das dificuldades de um curso longo e bem mais difícil do que o de engenharia. Serei doutor, com toda certeza - ufanava-se, Afonso, com sua pose peculiar.
         Jorge interrompeu a cantilena emproada do  petulante:
         - Meu caso é o comércio. Não vejo a hora de trabalhar com meu pai.
         - Ainda tenho dois anos para pensar - arrematou Paulo, o mais jovem da turma. Por enquanto, acho advocacia uma bela profissão. E tem mais, o vestibular é bem tranqüilo; nada de noites insones sobre os livros! 
         Enquanto alguém reclamava do frio que aumentava, fez-se uma quietação prolongada, prenunciando o fim do bate-papo. Todos sentiram o apelo convidativo do aconchego de uma cama mais quentinha.
         - Falta o Carlos Alberto!
         - Meu caso é mais complicado. Certamente, ano que vem, estarei na Faculdade de Farmácia. Com meus irmãos, Paulo, estudando geologia em São Paulo e Luiz Mário, no Colégio Naval, acho que devo continuar os negócios de meu pai à frente do Laboratório Giffoni - completou o Beco, sem muito entusiasmo.
         Mais tarde, aquecido pelas várias cobertas que me protegiam, cismei sobre tudo que faláramos naquela noite. Como nunca, senti a necessidade de uma namorada para partilhar comigo todas aquelas incertezas.
         O quê o futuro reservaria para cada um de nós?   
                                                                                            

        - Excerto de meu livro "Cheiro de Verão"


quarta-feira, 23 de maio de 2012

64 - O "GALO" CANTOU...




Apesar do susto inicial, o passar dos dias fez dos confortos da cidade uma leve referência, tudo compensado, de sobra, pela ventura das novas descobertas: a vida indolente do sertão, o inebriante cheiro de mato e o ócio reconfortante de tempos sem responsabilidades.
Alberto e Marina deveriam sofrer com nossas irreverências, de certo, maus hábitos de meninos mimados da cidade grande.
Desde o primeiro momento os dois tornaram-se nossos amigos para sempre, e cúmplices de nossas peraltices ao longo daquela maravilhosa temporada, primeira de mais outras.
A liberdade da vida sem compromissos compensava as pequenas obrigações de todos os dias, verdadeiros desafios às nossas habilidades, força e rapidez: bombear água, carregar aos ombros pesados sacos de roupa suja, até o alto do morro, e gritar a plenos pulmões pelo socorro de Dona Maria, a lavadeira.
Também cercar cavalos no pasto e quando não mais possível adiar, uma cansativa faxina no quarto compartilhado por seis vândalos. Tudo virava uma competição, do mais forte, mais rápido ou mais adestrado.
 Evidentemente, Carlos Alberto e Jorge, já acostumados com a vida campeira, levavam alguma vantagem nas tarefas da gente da terra. 
         Na andança dos dias, o banho frio não era atrativo para apurar o asseio pessoal, deixando rapidamente de ser hábito diário. Muitas vezes, completava-se um tríduo malcheiroso; afinal, estávamos na época mais rigorosa do inverno, que nos anos cinqüenta eram certamente mais sentidos, talvez ignorantes da destruição causada pela crescente poluição, ou do devastador “efeito estufa” dos anos de depois.
         Querendo ou não, as disputas dividiam o grupo; os do São Bento, Jorge, Paulo e Afonso e os do São José, Carlos Alberto, Fadini e Leal.
Somente no carteado, à luz do lampião de pressão e prolongando-se até o cantar do primeiro galo, cada um respondia por si, para evitar brigas.
Apesar de nossas cautelas, em certa noite não foi possível evitar a pauleira.
O jogo corria solto. A todo o momento Beco pedia licença para ausentar-se. A cada saída correspondia nova vitória do nosso “tentação”.
 Desconfiado, em certo momento decidi segui-lo na ponta dos pés.
 Munido de vários baralhos nosso esperto amigo trocava as cartas escondendo as imprestáveis debaixo de seu travesseiro. Estava descoberta a farsa. Desnecessário descrever as cenas seguintes...
Em certos fins de semana, tio Álvaro e tia Nilda, nosso carinho fazia chamá-los assim, vinham até a fazenda, acompanhados dos filhos menores, Álvaro Augusto, Marco Antônio e Roseane.
Nestes momentos o comportamento devia ser esmerado, afinal não devíamos deixar má impressão. Mesmo assim não foi possível evitar um terrível e constrangedor acidente.
Certa noite, todos já deitados, éramos sete. Ao grupo somara-se o Luiz Mário, irmão do Carlos Alberto, e mais novo que ele. Aconteceu justamente de ele ter que sair do quarto por um motivo qualquer, carregando um lampião para iluminar sua caminhada. Rapidamente a combinação foi feita: quando retornar, deverá ser recebido com uma chuva de tudo que estiver ao alcance de cada um.
Em poucos minutos viu-se no corredor o clarear da aproximação de alguém.
Dado o sinal, despencaram sobre o chegante uma chuva de chuteiras, sapatos e... Consternação geral e vergonha sem limites. Não era o Luiz Mário e sim tio Álvaro que vinha dar alguma recomendação a seu filho Jorge. Silêncio embaraçoso.
Dia seguinte, à mesa do café, tio Álvaro apareceu com um “galo” na testa, protegido por um discreto esparadrapo.
Ninguém teve coragem de levantar os olhos do chão... Tio Álvaro não fez nenhuma menção ao acontecido.

- Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997.

          

63 - FAZENDA SANTIAGO


Janeiro de 1957.
Novamente férias! Desta vez, sem surpresas desagradáveis. Nada de “bombas” ou “segundas-época”.
         Guido, já formado, foi trabalhar em São Paulo junto com seu colega de turma Hélio. Engenheiros da ABCP - Associação Brasileira de Cimento Portland, moravam num Hotel bem no centro velho da cidade, um quarteirão não muito recomendável.
         “São Paulo Quatrocentão”.
A cidade ainda guardava, com orgulho, as marcas das festas do IV Centenário que a engalanara ao longo de 1954.
         Não perdi a oportunidade e fui passar alguns dias com eles.
Quase noivo, e muito comportado, Guido habitualmente não saía à noite.
Restavam duas opções: aproveitar a companhia do Hélio, ótimo contador de piadas ou, o que era mais comum, sair com o Fadini que usualmente passava as férias em São Paulo na casa dos tios. Namorando uma paulistana metida à besta, meu amigo às vezes me deixava a “ver navios”; o jeito era sair sozinho e enfrentar o assédio das mocinhas da noturna paulicéia antes de retornar ao hotel.
         São Paulo tinha os mais luxuosos cinemas do Brasil. Uma festa assistir um filme no Marrocos, por exemplo.
Também os restaurantes eram muito atraentes, bons e baratos.
Ir ao cinema e comer bem, principalmente comidas italianas, foram os programas certos de todos os dias. Meu irmão ficava impressionado com meu almoço: lasanha verde acompanhada de um litro de leite.
Inacreditável!
         Nesta ocasião Jânio Quadros era prefeito de São Paulo. Era marcante sua popularidade. Quando aparecia no Jornal da Tela - noticiário que precedia à exibição dos filmes - a platéia aplaudia com entusiasmo, manifestação expontânea à sua brilhante administração.
         Este fato deixou-me vivamente impressionado, e por muito tempo acalentei a convicção de que aquele homem, no futuro, seria o presidente ideal para o Brasil.
O tempo provaria que eu estava redondamente enganado.
         Em julho, um convite irrecusável. Passar um mês na Fazenda Santiago, da família do Jorge. Naturalmente a “turma dos seis” estaria reunida.
         Na véspera da partida o pernoite na casa do Carlos Alberto.
Perto da Estação da Leopoldina, bastariam dez minutos a pé, percurso que seria feito antes das 5 da manhã, malas e mochilas a tiracolo.
 Finalmente consegui ver a Tania apenas de relance, o bastante para avivar ainda mais meus sentimentos.
         A emoção de estar perto de minha amada somada ao ataque agressivo de uns terríveis mosquitos fez-me passar a noite em claro, acompanhando cada badalada do relógio de parede do andar de baixo.
         O sol ainda não tinha aparecido e lá estavam “os seis” no velho trem das cinco e vinte cinco, rumo a Cantagalo, onde ficava a fazenda, passando antes pela querida Friburgo, naturalmente.
         Uma verdadeira maratona seria enfrentada até chegar à fazenda.
Passagem por Friburgo meio-dia já longe. Cantagalo (*), depois das cinco, e a espera da “viação”, um velho micro-ônibus que nos levaria até a porteira da fazenda, consumiria mais alguns bons quartos-de-hora.
O frio fazia-se presente nas pontas dos dedos enregelados e nos pés começando a ficar dormentes
         Já quase oito, rangia a madeira do velho portão para dar passagem aos esfomeados forasteiros. 
Ultrapassada a porteira, mais vinte, quem sabe trinta minutos, quase uma eternidade, a pé, carregando todo tipo de bagagem até a sede, acompanhando o vento frio a corar as faces e triscando os lábios numa sucessão de pequenos cortes doloridos.
         - Oh! De casa, oh! de casa!...- desde muito longe, um coral dissonante, seis vozes arfantes imploravam um aconchego na noite fria, alguma luz que afastasse aquela insipidez de trevas, o calor e a proteção de quatro paredes.
         Cada passo, um sem-fim...                            
- Oh! De casa! Oh! De casa!...      
Finalmente um contorno na escuridão deixou mostrar-se o perfil de uma casa.
Havia vida nela, e na porta aberta com muito cuidado e precaução, uma nesga de claridade deixou ver um assustado casal sonolento.
De repente, uma voz que nos seria muito familiar com o passar dos dias, exclamou:
- Êh! “Beco” tentação! Êh! Jorge! Isso são horas?
Era o Alberto, administrador da fazenda, a luz quase nenhuma realçava sua reluzente careca. Certamente não devia estar muito contente em recepcionar aqueles forasteiros inoportunos, Carlos Alberto, o “Beco’’, mais Jorge e um “bando” de desconhecidos, àquelas horas. Junto a ele, Marina, sua mulher.
Nem luz, nem água corrente. Só lampião e uma bomba manual para fazer brotar alguma água para melhorar nosso asseio já bastante comprometido.
E a lenha para o fogão?
Marina preparou algo para matar a fome daquelas pobres almas. Depois a cama, sem luxos de trocar de roupa.
Um sono profundo terminado com o novo dia já indo pelo meio.
Positivamente, um mundo bem diverso nos esperava.




___________

(*) Cantagalo – A região, até a chegada dos portugueses, era ocupada pelo indios Puris e Coroados.
A colonização começa junto com a “febre do ouro”.
Apesar da proibição da Coroa Portuguesa, por volta de 1761, um aventureiro lusitano Manoel Henrique, apelidado “Mão de Luva” pelos garimpeiros, atravessou o rio Paraíba do Sul, vindo de Minas. Chegou à nascente das Lavrinhas, cujo acampamento foi precursor da descoberta das terras de Cantagalo.
Procurado pela Corte, o cantar de um galo denunciou sua presença no local, sendo então capturado.
Diz a lenda que esta é a origem do nome dado à cidade

- Excerto do livro "Cheiro de Verão".



segunda-feira, 21 de maio de 2012

62 - COROINHAS E ARTISTAS

        
A tradição começou quando Luiz César, já no Científico, coordenava os coroinhas que acolitavam as cerimônias da Semana Santa no Colégio dos Santos Anjos.
Eu, o mais novo da turma, achava importante recitar as “profecias”, em latim, som ecoando em cantochão pela nave da igreja, e chegando bem suave ao ouvido das meninas contritas, ou aparentando tal.
         Era trabalho puxado, desde quarta-feira com a cerimônia do Lava-pés até o solene domingo de Páscoa, inclusive, passando pelo sábado, cerimonias madrugada a dentro.
         A missão começava uma semana antes com a escolha das batinas e sobrepelizes que cada um deveria usar ao longo de todo o cerimonial. Afinal deveríamos ser elegantes ao máximo; não poderíamos desapontar as irmãs que se dedicavam com muita devoção e esmero para que tudo saísse a contento.
Aliás, como era linda a irmãzinha da sacristia. Por que tão linda criatura escondia-se envolta em tão pesado hábito.
Um desperdício!                          
         Além do agradável convívio com as meninas dos Santos Anjos - “que as meninas dos Santos Anjos sejam os anjos das outras meninas” - éramos sobejamente gratificados com lautos lanches servidos com o requinte de louças finas e toalhas rendadas de linho.
No derradeiro dia, além dos ovos de Páscoa, discretos envelopes contendo uma mensagem carinhosa e dinheiro de boa serventia era delicadamente depositado logo abaixo dos alvos guardanapos.
         Herdei do Luiz esta missão, cumprida com prazer por mais dois ou três anos.
         Luiz César, “chegado” a uma igreja, anos mais tarde, já cursando a Faculdade de Filosofia e muito ligado ao Padre Máximo, pároco da matriz dos Sagrados Corações, criou um grupo teatral que tinha por base o salão da igreja; e lá estava eu, agora artista da ribalta, pronto a interpretar qualquer papel de moleque, garoto ou alguma "ponta" de maior ou menor participação.
Na realidade eram “pontas” que fazia com prazer. O que valia era o convívio junto aos mais velhos; até aprendi como se faziam “cacos” quando o texto original era abandonado ou esquecido pelos atores principais.
         Os espetáculos eram variados, misturando pequenas peças teatrais, dramas ou comédias, poesia e muita música.
         Uma das estrelas da companhia era o Carlos Vaz, colega de colégio do Guido, sempre dono do papel principal e também autor de sucesso.
Com o monólogo “Leonora”, sua interpretação cheia de emoção atingia o clímax ao som de “Uma noite em Monte Calvo”, de Mussorgsky, na sonoplastia impecável do Luiz César. Apesar da precariedade dos aparelhos disponíveis na época.
O Guido quando não morria, sempre interpretando os personagens mais sóbrios, acompanhava ao piano os cantores Francisco Verta e Humberto Gallo, tenores apaixonados pelas canções napolitanas.
Juarez, meu padrinho, sabia atingir a sensibilidade das platéias interpretando com muita convicção o longo “Navio Negreiro” de Castro Alves: “... Fatalidade atroz que a mente esmaga!.../ Extingue nesta hora o brigue imundo/ O trilho que Colombo abriu na vaga/ Como um íris no pélago profundo!.../... Mas é infâmia demais... Da etérea plaga/ Levantai-vos, heróis do Novo Mundo.../ Andrada! Arranca este pendão dos ares!.../ Colombo! Fecha a porta de teus mares!...”.
Palmas, muitas palmas.
Ficava arrepiado!     
         Em dia de muito sucesso com o Ginásio de Clube Aliados, em Campo Grande, totalmente lotado, nosso diretor, nervos à flor da pele, sofreu uma grave “crise intestinal” sendo obrigado a dirigir seus comandados diretamente da “casinha”.
Inesquecível!...
         Em tempo: minha estréia  teatral foi no palco do Colégio São José no dia 29 de setembro de l952, dia da morte de Francisco Alves, o “Chico Viola” e “Rei da Voz”.
        
          - Excerto do livro "Cheiro de Verão".

sábado, 19 de maio de 2012

61 - "PRÁ VALER!"


         Aqueles olhos verdes, vistos no breve lapso de uma apresentação formal, tomaram conta, sem licença, de meus pensamentos.
Coisa de não apagar com o passar dos dias.
         Nas conversas de fim de noite, várias vezes fui indagado pelo Carlos Alberto:
         - E os amores, como vão? Como vai a Inah? Você pouco tem falado dela. Brigaram?
         - Não, apenas estou dando um tempo para ver como ficam as coisas. Ainda mais que a menina mora longe demais, e já estou “cheio” destes amores longínquos - desculpava sem muita convicção, querendo de imediato mudar de assunto.
          Na verdade já fazia tempo que não estava “amarrado” e evidentemente sentia a carência de novos sentimentos.
         Complicado.
Não podia desabafar com meu melhor amigo, afinal minha paixão repentina era pela sua irmã. Definitivamente, ficaria muito constrangido de fazer qualquer comentário. Não imaginava qual seria sua reação, ainda mais que a coisa poderia ser passageira -  naqueles tempos, paixão nova era coisa para cada quinze dias.
         Que menina!
Difícil nossos passos cruzarem novamente. Nos meus sonhos a imagem do primeiro encontro, alimentava um sentimento que crescia a cada novo dia.
Amor a primeira vista! Ficava, pelo menos para mim, provado que isto não era ficção de romances para meninas-moça. Era “prá valer”!
         O sigilo foi mantido por mais tempo que permitia a minha emoção, até que se fez o não mais agüentar. Jorge, o primo, foi o meu confidente de ocasião e por ele sabia das notícias da casa dos Giffonis, acompanhando de longe a história de minha amada.
         Em noites de sábado sem festa, forçava a “barra”, e vira-e-mexe acabávamos todos, a turma dos seis, na casa do Carlos Alberto para ouvir discos e papear madrugada à dentro; na vitrola repetiam-se Mantovani, Românticos de Cuba, Ray Anthony, Billy Vaughan...
E nada da menina aparecer.
Estava ficando difícil a empreitada.

- Parte do livro "Cheiro de Verão"



60 - "AMARELO E NEGRO"



As meninas usavam “ban-lon”, os rapazes arriscavam um “pileque” abusando da “cuba-libre” ou do “hi-fi” - run com laranjada - e as dondocas jogavam “pif-paf”.
         A televisão ganhava audiência com “O Céu é o Limite”.
O “Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna, no teatro, e “Rio 40 Graus”, no cinema, arrebatavam grandes públicos.
         “O Cruzeiro” a revista mais lida no Brasil atingia a tiragem de  570 mil exemplares semanais e na esfera da Igreja era criada a CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
         “Conceição, eu me lembro muito bem/ Vivia no morro a sonhar/ Com coisas que o morro não tem...”, samba-canção repetido até a exaustão pelas rádios na voz do cantor de bigodinho, inconfundível, Caubí Peixoto.
         As revistas publicavam propagandas, até certo ponto, educativas como “Proteja seu Sorriso de Saúde eliminando o amarelo dos dentes com o Creme Dental Eucalol”, quando não, com um tímido atrevimento, ousavam - “Comece a viver! Goze a liberdade que jamais pensou alcançar. Aproveite as vantagens de Modess, a proteção da mulher moderna. É completamente invisível. Fantasticamente absorvente. Leve como uma pluma. Incrivelmente confortável Absolutamente seguro. Nada para lavar - é usado uma só vez. Ao comprar, basta dizer Modess”.
         Anúncios muitas vezes românticos - “Use o novo baton Coty, a mais bela moldura para o seu sorriso” , ou objetivos e modernos: “Munidor de lâminas Gillette Azul - Faça uma leve pressão do polegar e... zaz. Uma das dez lâminas desliza suavemente, pronta para o uso.”
         Assim íamos vivendo a segunda metade dos anos cinqüenta, quando o descartável ainda não tinha atingido irreversivelmente  as coisas, as criaturas, os sentimentos.
Tudo, as casas, os aparelhos usados no dia a dia, as profissões, as amizades, o amor,  se aproximava do definitivo e a sociedade ia absorvendo as novidades com bastante parcimônia.
Salvo algumas hipocrisias, as pessoas eram mais delicadas no trato pessoal. Época em que as chamadas palavras de baixo calão só eram ouvidas nas rodinhas masculinas. Impossível ouvi-las da boca dos brotinhos e menos ainda de qualquer pessoa de responsabilidade.
         Lembro até que ainda em Friburgo numa brincadeira de salão, o Ronaldo, gauchão de boa cepa, saiu-se com um “babaca”, palavra muito inocente lá no sul e pesadíssima nas bandas do Rio de então. Os olhares de reprovação, principalmente das mães injuriadas, fuzilaram o ânimo do nosso chê, olhos pregados no chão.
Nestes tempos de muito bons modos e de convívio mais saudável, ele surgiu. Não sei de quem a idéia, o certo é que não houve contestação: estava fundado o Sabóia Lima Clube (*).
Tudo muito organizado. Estatuto, diretoria, carteirinhas e até alguma coisa parecida com uma sede, improvisada na garagem da casa da “Ia”, novo ponto de encontro da moçada.
         O sucesso foi total, alicerçado na participação expressiva da juventude da Tijuca e adjacências.
         Em pouco tempo tínhamos um time de basquete de peso, invicto por muito tempo, enfrentando inclusive times mais organizados e que disputavam os campeonatos da cidade - juvenil, evidentemente.
Vibrávamos muito com o “amarelo-e-negro” - estas as cores do Saboialima Clube - uniforme igualzinho ao do Penharol do Uruguai.
         Festas, passeios e até desfile de modas passaram a ocupar febrilmente os tempos livres de todos e, como não podia faltar, um jornalzinho passou a ser editado regularmente, evidentemente com a direção deste seu criado; mais uma responsabilidade assumida pôr mim, a somar-se às muitas naquele ensejo de desafios. 



________________________

(*) - Mais tarde, por imposição da família do homenageado, que dava nome à rua, jurista por sinal, o clube passou a chamar-se : “Saboialima Clube"

Obs. - Excerto de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

quinta-feira, 17 de maio de 2012

59 - "INTERMEZZO"




         O relembrar é uma atividade mental que não exercitamos com freqüência porque é desgastante ou embaraçosa. Mas é uma atividade salutar. Na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos decorridos, os mil fatos vividos”, escreve Norberto  Bobbio em “O tempo da memória”.
         Para mim, relembrar não tem sido decididamente desgastante ou embaraçoso. Talvez, quem sabe, mais adiante, mude de opinião, forçado que possa ser por algum acidente de percurso.
Concordo que este reencontro tem sido realmente salutar, repleto de  momentos de intensa emoção. Até agora o passado não precisou de retoques e nem estive tentado a fazê-los.
Ainda, Norberto: “Quando percorremos uma vez mais os lugares da memória, os mortos perfilam-se em torno de nós em número cada vez maior. Parte dos que nos acompanharam já nos abandonou. Mas não podemos apagá-los como se nunca tivessem existido. No momento em que os trazemos à mente, os fazemos reviver e ao menos por um instante não estão de todo mortos, não desapareceram no nada... São os afetos que o tempo não consumiu”.
         Palavras  verdadeiras; as tenho vivido intensamente ao longo destas páginas. Sinto a felicidade perene de viver novamente tantas experiências, mesmo aquelas carregadas de dor ou desânimo. Como foram importantes!  Só agora posso avalia-las, alma aberta, sem prevenção ou atitudes preconcebidas.
A rigidez de minha mãe, a ausência várias vezes sentida de meu pai, mescladas ao contrastante cheiro de verão, resultaram em profundas vivências, somente consolidadas na maturidade conquistada a pouco e pouco.
Sinto-os perto, como que participando comigo de cada lembrança, cada sorriso ou lágrima desta história. Visto assim, restam apenas suaves reminiscências, boas de saborear. Todas misturadas no tempo, desde a cadeira de balanço que embalou os meus primeiros sonhos, ao frio chão de ladrilhos da madrugada na varanda lá de casa em noite de vigília, porta trancada à rebeldia juvenil.
Minha avó, meus tios, os vizinhos, muitos amigos... Quantos já se foram e agora quando as recordações vêm ao meu auxílio, estão de novo junto a mim e me acompanham nesta jornada. Tem sido muito bom tê-los de volta.
Mais uma vez, Norberto Bobbio: “...o que logramos desencavar desse poço sem fundo, é apenas uma ínfima parcela da história de nossa vida. Nada de parar. Devemos continuar a escavar! Cada vulto, gesto, palavra ou canção, que parecia perdido para sempre, uma vez reencontrado, nos ajuda a sobreviver”.
Confesso: já não sinto o imenso desalento das primeiras linhas.
Ainda há muitas laudas a viver...
 
            - Trecho de meu livro "Cheiro de Verão"