Com o apoio decisivo de “O Líder”, Sidinho foi eleito presidente da A.L.C.A. - Academia Literária Castro Alves - para a gestão de 1957.
Em nossos editoriais de apoio, figuravam expressões tais como: “...pedimos incessante apoio dos colegas porque o movimento não é nosso, mas, de vocês e para vocês.”, ou, “...poderemos ser o instrumento de seus anseios durante o ano vindouro.”, ou ainda, “...em época alguma faltaremos com a verdade, pois temos muito amor à Academia para a desonrar na pessoa de qualquer acadêmico. Temos adversários, mas, lhes somos amigos” .
Patéticos apelos tais como: “Este é o momento de pedirmos silêncio, grande silêncio; queremos ouvir a grande resposta de seus lábios, queremos ouvi-los com a promessa de colaboração para juntos subirmos à presidência da casa de Castro Alves e a promessa de nos tornarmos sempre e sempre amigos, suportando as mesmas tristezas, sentindo as mesmas alegrias...”.
Passados alguns meses, as coisas estavam bem diferentes.
Sidinho, numa avassaladora guinada para esquerda, uniu-se ao grupo dominante da política estudantil, adeptos contumazes dos velhos chavões extremados, sem muito senso ético, em suma, os chamados “estudantes-profissionais”, ou mais rasteiramente, os “comunas”.
Daí, até o nosso rompimento, tudo aconteceu rapidamente; meus pensamentos, e de todos nós de “O Líder”, eram radicalmente opostos ao do Presidente que ajudáramos eleger.
Passamos a militar em campos opostos.
Soava dissonante aquelas palavras: “..,sempre e sempre amigos, suportando as mesmas tristezas, sentindo as mesmas alegrias...”.
Ao contrário de agora, os estudantes de então eram muito politizados.
Na Academia, além das aptidões literárias, não descuidava-se da política e dos assuntos de interesse nacional. Em pouco tempo, formavam-se correntes com opiniões diversas. Certamente as idéias defendidas por Sidinho de longe coincidiam com as da maioria dos acadêmicos.
Ao final de cada ano realizava-se o Congresso dos Estudantes Secundaristas do Distrito Federal, culminando com as eleições gerais para escolha do presidente e demais diretores da A.M.E.S. - Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários .
Todos os colégios da Capital estavam credenciados a participar do conclave, normalmente representados pelos diretores dos respectivos grêmios, no caso do São José, da A.L.C.A..
Ao longo de quase uma década os “vermelhos”, abusando de táticas muitas vezes não recomendáveis, venciam as eleições com certa facilidade.
Naquele 1957, decidimos participar para valer e se possível interromper aquela monótona cantilena.
No entanto, havia um problema. Apesar da decisão da maioria de apoiar o candidato anticomunista, Sidinho, o credenciado oficialmente a votar pelo colégio, pensava apoiar o continuismo.
Estava criado o impasse.
Utilizando a tática de sempre, a “situação” procurava prolongar, sem pressa, a sessão de encaminhamento das eleições.
O objetivo era vencer pelo cansaço fazendo com que os colégios não tradicionalmente militantes se retirassem. Num esforço digno de nota íamos conseguindo mantê-los no plenário.
Já alta madrugada, até prostitutas foram introduzidas no recinto para espanto das meninas dos colégios católicos e horror das freiras que ameaçavam abandonar tudo em prol do respeito aos bons costumes. Com muito trabalho tentávamos mostrar que esta era uma velha tática, bastante conhecida, e que não poderia prevalecer desta vez.
Fomos convincentes; todas permaneceram muito atentas, seguindo rigorosamente nossas orientações.
As chances de vitória cresciam a cada minuto.
Faltava ser resolvido um só problema, o Sidinho.
Fazê-lo votar conosco era tarefa descartada. Só restava uma solução, posta em prática com uma precisão de filme policial. Devíamos seqüestra-lo, substituindo-o pelo Vice-Presidente que votaria com a “oposição”.
Missão cumprida! Sidinho foi “convidado” a permanecer por algumas horas no apartamento do tio do Flávio Lage, pertinho dali.
Vitória!...
Depois de muitos anos, a “esquerda festiva” deixava de vencer as eleições da A.M.E.S.
A comemoração foi estrondosa, apesar dos olhos arregalados das freirinhas, escudeiras aflitas das donzelas, estas sim, verdadeiramente as heroinas da noite.
O sol já vinha nascendo quando atravessamos a rua na expectativa de tomar a primeira condução que passasse.
Exultando de alegria, acompanhamos os gritos de desafogo atirando na Baía da Guanabara, que estava ali, juntinho de nós, as latinhas de fluido de isqueiro que ganháramos da ESSO, a título de propaganda. Naquela época ainda não existia o Parque do Flamengo que, logo-logo, levaria o mar para bem longe...
Na volta para casa, quase dormindo no lotação barulhento, pensava com os meus botões : “ganhei uma batalha e perdi um amigo...”.
NOTA IMPORTANTE - Com o passar dos anos tudo foi esquecido e voltamos à nossa amizade dos tempos de criança
NOTA IMPORTANTE - Com o passar dos anos tudo foi esquecido e voltamos à nossa amizade dos tempos de criança
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997.
