por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 2 de abril de 2012

15 - O BONDE DA LIGHT

         As gerações que não conheceram o bonde perderam muito do conforto, lirismo e numa certa dose, do romantismo cativo daqueles anos.
         O “meu bonde” era o saudoso 64, Aguiar-Fábrica.
         Por que Aguiar?
Por que Fábrica?
         Aguiar, relativamente fácil explicar, pois passava pela Rua Aguiar.
         Na verdade, a Rua Aguiar surgiu do desmembramento da chácara de certo Sebastião da Costa Aguiar, que vendia a chamada “água do vintém” também comercializada pelas redondezas em grandes pipas.
         Ainda na Rua Aguiar estabelecera-se um hotel com vastas cocheiras e confortáveis diligências, que subiam até o Alto da Boa Vista antes da implantação do bonde elétrico, passando ao longo do rio Maracanã, então de águas límpidas, aquelas que Tiradentes sonhara captar para alimentar novos chafarizes para a cidade.
          Fábrica, por que, naquele nosso mundo provinciano, junto à vila e ao ponto final do “64”, existia no passado uma fábrica; a “Fábrica das Chitas”, aberta por volta de 1820 em terrenos das chácaras do Barão de Bonfim, de Izabel Martins e de Dona Maria Bibiana de Araújo.
         Na realidade na Fábrica das Chitas não havia fios e teares. Lá só se estampavam tecidos de algodão importados da Índia.
         A partir deste núcleo surgiria o primeiro foco de urbanização da Tijuca que na linguagem dos índios significa terreno argiloso e lamacento, no qual até então se desenvolviam apenas lavouras variadas ou engenhos de açucar.
         Nestas terras de Dona Bibiana foram abertas as atuais ruas dos Araújos, Desembargador Izidro, Bom Pastor (por causa da Congregação do Bom Pastor d´Angers, ali estabelecida desde 1889), Carlos de Vasconcelos, General Roca, Pirassununga e Enes de Souza.
         Este bairro em formação passou a ser conhecido, por mais de cem anos, como Fábrica das Chitas.
         E o bonde...
         Em 1866 a “Botanical Garden Rail Road Company” inaugurou um novo serviço de transporte coletivo no Rio.
Para facilitar a cobrança das passagens, em razão das dificuldades de troco, a empresa norte-americana mandou confeccionar cupons que agrupavam cinco passagens em forma de bilhetes (bonds em inglês) com o valor das passagens. O nome do bilhete, que tinha ao fundo a figura de um tramcar, passou a designar o próprio veículo.
Era o bonde, assim ficou sendo chamado em definitivo.
         Limpo, pontual e arejado. Não muito rápido, mas a pressa não era coisa de preocupar, pelo menos para nós crianças. E mais, não poluente, também tema muito prematuro para a época.
         Na galeria dos personagens desta história, mais alguns estão surgindo: o motorneiro, o condutor, o fiscal e ainda o inspetor, autoridade máxima, responsável pela mantença do bonde na linha, na estrita acepção da palavra.
         Não compreendia bem o nome “condutor”, pois se tratava na realidade de um mero “cobrador”, terror dos caloteiros. Na verdade, o autêntico condutor, aquele que fazia o bonde andar, era o motorneiro.
Esta minha dúvida jamais foi sanada.
         Aliás, outras dúvidas, inquietavam minha meninez. No dia 19 de novembro, Dia da Bandeira (quem se lembra, hoje, deste dia?...), cantava-se: “Salve lindo pendão da esperança; salve símbolo “augusto da paz”...”.
         Quem teria sido este herói, Augusto da Paz, cantado e louvado em hino tão importante?
         Voltemos ao bonde.
         Todos, condutor, motorneiro, fiscal e inspetor, usavam uniformes idênticos, confeccionados com uma pesada casimira azul-marinho.
A diferença ficava no quepe; os fiscais e o inspetor usavam quepes semelhantes à de um garboso general francês. Eram elegantes. Imagino o sofrimento ao usar tal fardamento não muito apropriado para nosso clima quente.
Mas os privilégios já existiam.  Ao inspetor e fiscais era facultado o uso de uniformes claros, quase brancos, feitos com um leve tecido tropical.        
          Quanto ao condutor, tinha que ter muita agilidade e esperteza.
          Trabalhava percorrendo o estribo como um bailarino, agarrando-se ao balaustre como um malabarista, recolhendo o dinheiro, fazendo o troco, registrando as passagens (algumas, eram esquecidas...) e ainda controlava os passageiros que subiam e desciam.
Cessado o movimento de sobe e desce, puxava a cordinha da campainha por duas vezes, sinal para que o motorneiro desse a partida em segurança.
         Os horários eram respeitados religiosamente, coisa tipo, sete e treze, sete e vinte e seis, sete e trinta e oito, e por aí afora. Coisa de inglês, dizia-se, apesar da “Light” ser canadense.
Para mim, tanto se fazia...
         Nossa linha, 64, não devia ser muito importante. Seus bondes, não traziam, atrás de si, reboques, que tornavam as composições bem mais imponentes.
Ficava magoado, comparando-a com outras, mais sofisticadas, com reboques: “66 – Tijuca”, “68 - Uruguai-Engenho Novo”, e mais algumas de causar inveja.
Quando um 64 vinha com reboque, meu íntimo festejava com alegria. Nosso 64 estava ficando importante!
         A coisa complicava um pouco nos dias de chuva, sobretudo com vento forte. As cortinas de couro não protegiam o suficiente, e muitas vezes
chegava-se em casa  como um “pinto”.
Outra dúvida cruel: porque “pinto”?
         Os adultos, durante a viagem, liam seus jornais; muitas senhoras faziam tricô ou fuxicavam sobre a vida alheia. Nós, crianças, acompanhávamos o “trim, trim...” da alavanca puxada pelo condutor, que fazia dançar os números no grande relógio registrador, bem visível atrás da cabine do motorneiro.
E vinham as apostas: “será que vai chegar ao 21 até a Saens Peña ?”, “não, vai dar 27 !”. Chegávamos ao nosso destino, e quase sempre ninguém ganhava a aposta, que por sinal, não valia nada.
Nas épocas de carnaval, o bonde perdia toda sua imponência, transformando-se num andarilho palco mambembe, onde os atores desfrutavam o gozo de seu próprio espetáculo.
Brincava-se o carnaval, o saudoso, democrático e universal “carnaval de rua”.
Para dar mais liberdade aos foliões, tiravam-se as cortinas, as luzes eram drasticamente reduzidas (as poucas lâmpadas que sobravam, ou eram surrupiadas ou quebradas no calor das “batalhas de confetes”).
Também desapareciam os “reclames” e até alguns bancos eram retirados para aumentar o espaço para a folia.

“Não pago o bonde, iaiá
Não pago o bonde, ioiô
Não pago o bonde
Que eu conheço o condutor.
Quando estou na bricadeira
Não pago o bonde
Nem que seja, por favor,

Não pago o bonde
Porque não posso pagar
O meu é muito pouco
E não chega pra gastar
Moro na rua das casas
Daquele lado de lá
Tem uma porta e uma janela
Mande a Light me cobrar” (*)

No carnaval, como sempre, quem mais sofria era o “conduta”, numa cansativa e inútil tarefa em tentar cobrar passagem de odaliscas, arlequins, pierrôs, palhaços, bailarinas e também dos “sujos”, travestidos e bêbados...

“Seu condutor, dim, dim.
Seu condutor, dim, dim.
“Para o bonde p’ra descer o meu amor...”

Esta era uma marchinha de Alvarenga e Ranchinho, composta em 1935. Fez sucesso enquanto duraram os bondes.
O bonde era o grande amigo dos foliões, e com seu fim também agonizou o carnaval de rua.
É vasto o repertório dos escritores tendo o bonde como tema, e ainda tenho guardado um trechinho de uma crônica de Rachel de Queiroz descrevendo uma viagem no bonde “Engenho de Dentro”.
“... Muita gente pendurada entre um carro e outro, e havia um crioulo de bigode à Stalin, muito distinto, tinha cara de dirigente do Ministério do Trabalho, que muito sub-repticiamente viajava sobre o pino de ligação entre os dois carros ou, para dizer melhor, com um pé na sapata do carro-motor e o outro na sapata do reboque. E quando o condutor aparecia para cobrar a passagem, se era o condutor da frente ele punha os dois pés no reboque, e se era o condutor do reboque que vinha com o “faz favor” ele então executava o vice-versa. Sei que não pagou passagem a nenhum dos dois e devia fazer aquilo por esporte; não tinha cara de quem precisa se sujar por cinqüenta centavos; esporte, aliás, que todo o mundo aprova e aprecia, pois quem é que não gosta de ver se tirar um pouco de sangue da Light?...”
Já Emílio de Menezes, ia num bonde, quando sentaram no banco à sua frente, duas senhoras de grandes banhas.
Com o peso das matronas, o banco range, estala, geme, estranhando a carga.
O poeta, que observava o caso, leva a mão à boca no seu gesto característico, e põe-se a rir.
Como o companheiro o olhasse, explicou:
- Sim senhor! É a primeira vez que eu vejo um banco quebrar por excesso de fundos.
Mas, cresci.
Aprendi a ler, e sentia-me emproado, decifrando os “anúncios”, postados em tabuletas, penduradas no teto branco: “Veja ilustre passageiro, o belo tipo faceiro...”.
Dois fatos desta época deixaram-me atormentado.
“Para facilitar, junto com a mesada papai dava a cada filho uma bem calculada quantidade de “passes” da Light”, que eram bilhetes comprados previamente, com desconto, correspondendo cada um a uma passagem.
Certa vez, indo para o colégio, peguei com cuidado meu passe enquanto desenrolava o envólucro de um singelo caramelo de chocolate.
 Distraido joguei fora o passe e entreguei o enxovalhado papel de bala ao condutor, que não gostando da brincadeira, expulsou-me do bonde.
Que vergonha!...
Noutra feita, tão afogado em pensamentos, saltei do bonde deixando sobre o banco minha pasta com todos os livros, cadernos, lanche, etc. etc.
Quando dei pela desatenção, o bonde já havia sumido, fazia tempo.
Suei frio. Fiquei alguns minutos como um paspalho, até que consegui pensar: o bonde que vai, volta. Ato contínuo atravessei a rua e fiquei ansioso esperando seu retorno.
Uma hora depois, lá vinha vindo o “bicho”.
E o milagre aconteceu...
Alguma “boa alma”, ao descobrir o “esquecido”, entregou-o ao motorneiro que me devolveu intacto. Ufa!...
Quanto às aulas: já eram. O negócio era fazer uma “cerinha” e voltar para casa com uma desculpa esfarrapada, não me lembro qual.
Coisa “fina” o bonde.
O motorneiro agitado puxava a cordinha sem parar enquanto vociferava: “olha à direita, olha à direita, olha à direita...”.
         “Acabou o conforto!”, gritou o velho Barros, o mais antigo condutor do 64.
          Final da linha, hora de saltar.
 Acabou a viagem!




         (*) – Durante 70 anos o bonde elétrico circulou pelas ruas do Rio.
         Os cariocas despediram-se simbolicamente do bonde numa solenidade realizada na noite de 1º de março de 1963, ao som do hino “Cidade Maravilhosa” tocado por uma banda da Polícia Militar. O bonde “13-Ipanema” fez, então, sua última viagem levando em seus bancos e estribos, artistas, boêmios, intelectuais e o povo da zona sul da cidade.
         A desativação, para valer, aconteceu devagarinho, como quem teima em ficar mais um pouco, afinal era uma amizade de 70 anos.
         Tudo, finalmente, terminou em 1967. A “pá de cal” no sistema foi a desativação da linha “67-Alto da Boa Vista”, em virtude de seus trilhos terem sido engolidos por uma avalanche de pedras e lamas. Em 23 de janeiro de 1967, a cidade do Rio de Janeiro sofria uma catástrofe difícil de ser esquecida, em forma de um temporal que matou mais de 1.500 pessoas.
         Daí para frente foi só o passar de poucos meses e o bonde tornou-se coisa do passado...
         Restam os seus “filhos bastardos” que obstinados, sobem e descem diariamente as ladeiras da velha Santa Tereza .
(*) – Marcha de J. Cascata e Leonel Azevedo, gravada por Odete Amaral

Obs; trecho extraído de meu livro escrito em 1997 "Cheiro de Verão"

4 comentários:

  1. Respostas
    1. É INACREDITÁVEL A MANEIRA COMO TRATAM ESTA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO AS AUTORIDADES EM EXERCÍCIO.
      E PENSAR QUE UM DIA ESTA CIDADE FOI CHAMADA DE "MARAVILHOSA".
      APESAR DESTE "ESPÍRITO DESTRUTIVO" E "EGOÍSTA" A NATUREZA CONTINUA NOS PRESENTEANDO COM SUA BELEZA SEM PAR.

      GRATO PELO COMENTÁRIO / ZÉ KARLOS

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  2. Meu pai foi condutor nos anos sessenta, Artur de Oliveira Braga, já falecido, morava em Bangu. Tenho parentes por parte dele que gostaria de conhecê-los, meu ZAP 21 998315048 grato!

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  3. Boa tarde, tudo bem? Gostaria de saber se teria fotos do Bonde da linha 64 que passava na Rua Aguiar. Tenho vontade de fazer um quadro. Caso tenha, segue meu contato 979310746 - Leandro.

    Abraço

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