por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 9 de abril de 2012

21 - O PRIMEIRO DE MUITOS OUTROS


         A ansiedade de vestir o uniforme, ou melhor, a “farda” novinha e igual ao de um militar, era irresistível.
Impecavelmente passados, o dólmã e a calça cáquis, comprados na “A Colegial”, estavam ali, à minha espera junto com a camisa branca e os pares de meias e sapatos pretos. Tudo pronto para a estréia esperada depois de um amanhecer prematuro decorrência lógica de uma noite ansiosamente “mal-dormida”.
Mais o devagar de algumas longas horas, o banho, o almoço e finalmente o primeiro vestir de muitos outros.
         Sinto ainda o hálito de mamãe, rosto junto ao meu, a passar, lenta e levemente, o pente nos meus cabelos ainda úmidos, caprichando no repartir e no alisar. 
A pasta não era nova, mas de tão encerada estava como se fosse, abrigando os cadernos e livros encapados com esmero. A merenda não foi esquecida: café com leite, na garrafa térmica vermelha e pão com goiabada envoltos num guardanapo xadrez.
         “Lá vem o bonde”, alguém gritou ao ver acender o sinal vermelho  que indicava sua chegada iminente; cinco minutos, no máximo, tempo suficiente para fechar as janelas e bater a porta da rua. Agora, chegar ao colégio pela vez primeira era coisa de um abrir e fechar de olhos.
Acho que suava nas mãos.
         A caminhada, o último beijo, a caderneta azul entregue na portaria, devidamente aberta na página do mês de março; uma nova vida estava prestes a iniciar.
         No pátio repleto de vozes mal tonadas, os olhares se cruzavam na busca de um par conhecido.
O sino tocou agitado, e o veterano informou que era o primeiro sinal; mais cinco minutos, e o derradeiro ordenaria que as filas formadas se deslocassem, em ordem, na direção das salas. Fácil encontrar meu grupo, o primeiro na formação geral, os mais altos atrás e os menores à frente.
Uma, duas, três badaladas, e começava o fugaz desfile.
         As carteiras, recém envernizadas, austeras demais para tão jovem clientela, foram ocupadas rapidamente, sentados dois a dois; todos de pé à entrada do Irmão Claudino.
         Muito franzino e agitado, de um salto só, subiu ao tablado postado à frente do quadro negro, encimado pela polêmica frase emoldurada: “Deus me vê”.
       “Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo”... Assim repetir-se-ia durante onze anos: uma oração no início e ao fim de cada aula.
         A disciplina era bastante rígida e a adaptação não foi coisa fácil.
Em certos momentos, muita saudade de casa...

 Trecho do livro "Cheiro de Verão" escrito por mim em 1997


Um comentário:

  1. Super Zé Carlos,
    Suas crônicas são maravilhosas. Você deveria se dedicar mais a este "esporte", certamente se daria melhor do que no piano ou na engenharia, duas áreas onde você é excelente. Mas, no piano, nada como o Guido, é ou não é?
    As histórias do "sabonete eucalol" eu já conhecia.
    Os títulos são memoráveis, como "o dia que virou noite" ou "o primeiro de muitos outros". Além da recuperação de palavras que, hoje, quase ninguém sabe o que significam: pandulho e lafranhudos, por exemplo.
    Você tem que republicar seu livro e fazer um lançamento. Estaremos todos lá!
    abs

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