por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 19 de abril de 2012

29 - O REBELDE.

         A medida do meu crescimento era a mesma dos conflitos com Dona Tininha. Pouco a pouco, sem que eu quisesse ou sequer notasse, ia tornando-me um rebelde; pelo menos era tratado como tal.
         Às vezes ficava difícil obedecer.
Não conseguia entender a razão de certas proibições. Na verdade mamãe levava ao extremo a missão de educar três filhos, com temperamentos bem diversos, e talvez pela diferença de idades sentia-me mais isolado e por conseqüência, com uma carga maior de exigências a cumprir.
          Somente com o passar dos anos, comecei a perceber algumas coisas.
          Em primeiro lugar, havia algo mal resolvido no passado de mamãe, talvez sua infância de pouca duração, caçula que era de sete irmãos e  ausente da mãe, morta prematuramente.
         As dificuldades financeiras deviam ser grandes, pois cedo, antes dos treze, deixou os cadernos em troca de patrão, além de enfrentar todas as tarefas de uma casa cheia de irmãos, já homens - meus tios, Augusto, Humberto, Carlos e Ângelo que conheci, e tio José e vovô Vicenzo que não.
          Imagino sua dedicação para atender a todos, transpirando responsabilidades por todos os poros, procurando se superar dia após dia e às irmãs - tias Angelina e Helena.
         Depois, casada aos dezessete anos e morando com meus avós, num ambiente bem diverso, foi envolvida pela expectativa da chegada de um primogênito que desse continuidade ao nome da família - meu pai era o único homem a acompanhar as irmãs, Célia, já freira do Sion, Heloisa e Nelsinda.
          A perda do primeiro filho deve ter abalado muito seu íntimo já em conflito com tantas mudanças e oprimida ao peso de tantas reponsabilidades.
         Tudo isto teve influência direta na sua maneira de ser como mãe, sempre procurando garantir para seus filhos uma segurança que provavelmente jamais conheceu.
Excesso de amor, com certeza.
         Sentia mamãe muito sozinha. A casa, os filhos e uma quase doentia obceção pelo cumprimento do dever a afastavam de papai e isto me fazia sofrer.
         Hoje reconheço que muito do que consegui devo a disciplina rígida que me foi imposta. Difícil era entender tudo isto aos dez, onze, quatorze anos. E aí, os conflitos e a rebeldia impotente, pois querendo ou não, o desfecho natural era acabar capitulando às suas ordens.
Sentia-me seguidamente triste, solitário e aos poucos uma timidez indesejável fez-se em mim. Acho que mamãe exagerou nas doses de carinho

Obs.: trecho do meu livro “Chuiro de Verão”.

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