por José Carlos Coelho Leal

sábado, 28 de abril de 2012

34 - O MELHOR DO ESPETÁCULO

                                    

         Nas férias, outro acontecimento, infelizmente muito raro, era acompanhar papai em um dia de trabalho.
Papai era o que se chamava “vendedor pracista” da Perfumaria Myrta S.A., executando trabalho externo em diversos bairros, e mesmo em algumas cidades do então Estado do Rio de Janeiro, inclusive sua capital Niterói.
A Myrta foi o único emprego de papai durante seus 76 anos de vida. Lá entrou como auxiliar de escritório chegando à diretoria, devido simplesmente à sua capacidade de trabalho, honradez e lealdade.
Só o via reclamando, quando no verão, ao ouvir o “Reporter Esso” antes de sair de casa, como fazia diariamente, escutava incrédulo o “speaker” dizer “... tempo bom, previsão para a máxima de hoje, quarenta graus...”.
Aí, ele perdia a paciência: “como tempo bom? Quarenta graus? Vá trabalhnar na rua, filho de uma égua, para ver se isto é tempo bom...”.
Batia a porta, e lá ia resmungando, “tempo bom...”.      
         Admirava muito sua eficiência e dava-me orgulho sua disposição para enfrentar sol ou chuva, entrando e saindo de farmácias, drogarias e empórios, a retirar pedidos e cobrar faturas de vendas anteriores.
         Acompanhava com muita atenção sua atuação, sempre ágil, raciocínio rápido numa habilidade fora do comum em manejar números. Dúzias, grosas, percentagens, descontos, tudo feito com muita firmeza, fechando negócios em poucos minutos e vendendo quase sempre mais do que pretendia o comprador.
         Seus instrumentos de trabalho resumiam-se numa pequena caderneta de apontamentos em espiral, pouco maior que um maço de cigarros, e um lápis bem apontado. Quando sentia que tudo estava resolvido, dizia: “então, estamos conversados! até para o mês”.
          Sabonete, talco e pasta de dentes Eucalol, sabonetes Carin, Orquídeas do Brasil, 145 passaram a ser produtos muito familiares para mim. Lindas caixas de madeira acondicionavam os sabonetes Pinho da Sibéria ou Parisiana.
Até hoje tenho algumas destas caixas, guardando lembranças que me são muito caras.
         Colecionavam-se as famosas estampas do sabonete Eucalol, arquivando-as em grossos álbuns de cartolina cinza. Pedrinhas semipreciosas vez por outra eram encontradas dentro dos produtos em promoções de muito sucesso.
         Normalmente até a hora do almoço, lá pela uma da tarde, conseguia acompanhar o ritmo do “velho” Cesar.
Com o “pandulho cheio” (*), entregava os pontos.
Papai então me colocava num cinema, e continuava a trabalhar até às 18 horas quando marcava encontro para me apanhar. Uma vez, em dia de mais serviço, cheguei a assistir três sessões seguidas no cinema Roxy.
Achava muito bom, pois já gostava muito de cinema.
         Papai trabalhava muito e tinha outros compromissos que impedia sua maior presença junto aos filhos. Eu sentia muito, e por tão preciosa companhia, recordo-me da maioria das vezes que saímos, sobretudo quando o programa era noturno.
Sentia-me muito importante.
         Certa noite fomos todos ao Metro-Passeio, na Cinelândia, segundo ele o melhor cinema da cidade, para ver um filme que até hoje seria capaz de rememorar cada pormenor.
         Gregory Peck, Jane Wyman estrelavam este filme, “Virtude Selvagem”, uma singela história vivida por um casal desbravador e seu filho solitário a lutar pela companhia de uma pequena corsa selvagem. Toda a trama é desenvolvida  no interior do Colorado, com belas paisagens valorizando a narrativa, cheia de grandeza e fé no ser humano.   
         “Carnaval no Gelo” era outro programa imperdível. Armavam um verdadeiro circo na ponta do Calabouço, local próximo ao Aeroporto Santos Dumont, para exibição de patinadores famosos. Muita luz, luxo e beleza a encher meus olhos.
         Respeitavam mais o Brasil naquela época; hoje, sem a menor sem-cerimônia o espetáculo passou a chamar-se “Holiday on Ice”.
A estrela da companhia era a famosa patinadora norueguesa Sonja Henie, porém o melhor do espetáculo era estar junto do papai.
        

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         (*) - “Pandulho cheio” - Era uma expressão muito usada por papai. Pandulho significa estômago, barriga. Estar de barriga cheia; ter acabado de almoçar.

Obs. - Excerto do meu livro "Cheiro de Verão"


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