por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 3 de abril de 2012

18 - SEM PORTÕES


         A vila não tinha portões, nem tão pouco vigia, porteiro ou lá o que seja. A liberdade como deve ser, total, irrestrita, escancarada.
Este fato, impossível nos dias de hoje, facilitava a entrada de todos os tipos que tinham algo a oferecer. Com o passar do tempo restou no ar, o som ora plangente, ora espirituoso, ora irritativo dos pregoeiros, oferecendo seus serviços ou produtos.
         O vassoureiro, que após anunciar todos os tipos de vassouras, espanadores, vasculhos, e até panelas, terminava o seu pregão com o infalível: “...e a figa de Guiné !”.
Não sabia e nunca perguntei para que servia a figa de Guiné, ainda mais misturada com vassouras e panelas. Desconfiava, afogado em muito preconceito, que era coisa de supersticiosos a se protegerem de doenças, pragas e demais mazelas.
Apesar do preconceito, não estava muito enganado...
         Compra objeto usado, roupa usada, relógio usado...”, era o “turco”, com seu sotaque arrevesado, querendo comprar por uma ninharia algo que ainda pudesse ter alguma serventia.
         O meladeiro, que vendia melado em latas de manteiga “Miramar”, aquelas amarelinhas e com uma tampa de rosca. Era um grito só : “Meladeiro!”.
         O peixeiro, um italiano já idoso, bem curvado, carregando sobre os ombros a canga pesada com dois cestos, um de cada lado, cheios de namorados, garoupas, vermelhos e camarões graúdos. Ficava difícil descobrir a cor real de suas roupas, tantos eram os remendos.
Um dia, conversando com mamãe naquele sotaque difícil de entender, disse que vendendo peixes, daquela maneira, tinha conseguido formar um filho médico e uma filha advogada. O seu sacrifício , foi recompensado .
Seria isto possível, hoje?
         Sem vender nem comprar nada, silencioso, andar pausado e bengala tateante, Seu Benedito era pontual no seu passeio matinal, indo e vindo várias vezes pelos corredores da vila.
Pessoa mansa era íntimo de todas as crianças que o adoravam. 
Aposentado da Marinha e cego, dizia-se ser dele o hino “Cisne branco”, melodia muito ouvida junto aos sons da guerra e hoje, salvo engano, hino oficial da marinha brasileira.
Outro dia, pesquisei com cuidado: “Cisne Branco”, canção do marinheiro, composta com música do 1º Sargento de Exército Antonino Manoel do Espírito Santo e letra de Benedito Xavier de Macedo, o Seu Benedito.
        
“Qual cisne branco que em noites de lua,
         Vai deslizando num lago azul,
         O meu navio também flutua
         Nos verdes mares do norte ao sul

         Linda galera que em noite apagada,
         Vai navegando num mar imenso,
         Nos traz saudades da terra amada,
         Da Pátria minha que tanto penso,

         Qual linda garça que aí vai cruzando os ares
         Vai navegando sob um céu de anil,
         Minha galera também vai cruzando os mares,
         Os verdes mares, os mares verdes do Brasil

         Quanta alegria nos traz a volta
         Á nossa Pátria do coração!
         Dada por finda nossa derrota,
         Temos cumprido nossa missão!

         Linda galera que em noite apagada,
         Vai navegando num mar imenso,
         Nos traz saudades da terra amada,
         Da Pátria minha que tanto penso.”

         Periodicamente, sempre zelando pela saúde da população, surgiam os “mata-mosquitos”, vestindo um uniforme quase militar. Com esmerada educação tiravam o boné ao serem autorizados a entrar em casa para fazer sua inspeção rotineira.
Lá fora, pendurada em algum lugar visível, ficava a badeira amarela, sinal da presença do agente que tinha como missão erradicar o mosquito da febre amarela, este mesmo que agora amedronta as populações propagando a dengue.
         A vila tinha dois empregados: Seu Manoel e Seu José.
Seu Manoel, apesar do nome, não era português, era negro como Seu José, este com um defeito na perna, andava arrastando um dos pés. Podia-se contar com os préstimos deles até determinada hora, depois a cachaça os dominava e adeus empregados.      
         A janela da copa dava para os fundos da vila.
De lá, mamãe procurava controlar meus passos, e a noite era comum a conversa debruçada ao parapeito com uma vizinha disponível. Eram longas estas conversas e muitas vezes juntavam três ou até quatro senhoras. Muito bom, porque com as atenções voltadas para o bate-papo, eram liberadas algumas horas a mais de brincadeiras.
         As noites ficavam mais longas quando meus primos vinham, por algum motivo, dormir em nossa casa. Era uma festa quando isso acontecia ; eu ficava bastante excitado, e em conseqüência, como de costume, era o último a pegar no sono.
         O dormir até que poderia ser coisa de muito sossego, pois, de hora em hora, ouvia-se o silvo do apito seguro do guarda-noturno que terminava mais uma ronda completa pela vila.
         Nos dias de chuva, as brincadeiras eram dentro de casa e muito raramente com algum companheiro.
Restavam algumas alternativas: brincar com meus irmãos, caso eles estivessem dispostos a aturar o pirralho ou refugiar-me na solidão do sótão para novas explorações.
Quando nenhuma das duas opções era possível, convivia com meu inseparável amigo Tim, em qualquer lugar da casa.

Obs. Trecho do livro Cheiro de Verão escrito por mim em 1997.

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