Não era coisa para todos os dias, mas às vezes acontecia.
Nunca soube ao certo se era alegria, tristeza, alguma preocupação ou um simples hábito trazido de sua infância de Santa Tereza. Nestes dias, ecoava pela casa uma voz afinada, nem alta, nem muito baixa, maviosa que ainda hoje em noites de muita saudade ouço com bastante clareza.
A voz de minha mãe trazia na nostalgia das canções, uma calma que fazia muita bem à alma.
Hoje, as melodias e as poesias das letras me chegam meio partidas, mas é impossível esquecer versos como:
“Cai a tarde tristonha e serena,
Em macio e suave langor;
Despertando no meu coração,
A saudade do primeiro amor.
Quando os sinos saudosos murmuram,
Badaladas da ave-maria.
Sino que tange com tanta alegria,
Recordando os sonhos da aurora da vida,
Traz ao coração paz e harmonia,
Nas preces da ave-maria”.
Estas melodias eram cantadas enquanto, sem parar, varria a casa, lavava uma peça de roupa ou temperava o perfumado refogado para o arroz soltinho, até hoje, o de minha preferência.
“Sertaneja, porque choras quando eu canto,
Se este canto é todo teu;
Sertaneja, pra secar teus olhinhos
Vai ouvir os passarinhos que cantam mais do que eu.”
.
Em dias especiais, parecia recordar sua infância, e certamente vinha aos seus ouvidos canções que meus avós cantavam.
E soava em tom lamentoso o forte sotaque napolitano.
“A voglio bbene,
a’ voglio bbene assaie,
dicintencello, vuie
ca num m’’ a scordo maie!
E’’na passiona
Cchiù forte’e’na catena,
Ca me turmente ll’anema
E nun me fa campá! (*)
A maneira de cantar era quase igual a das cantigas de ninar, como dizem os versos, da aurora de minha vida:
“Nossa Senhora, a beira do rio,
Lavava os paninhos de seu lindo filhinho;
Senhora lavava, São José estendia,
Menino chorava do frio que sentia
E como era bom dormir, no calor das suas mãos cansadas do trabalho da casa e ao som do Acalanto:
“Boi, boi, boi da cara preta,
Pega esse menino que tem medo de careta”.
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(*) – A tradução destes versos ( a música era “Dicitencello Vuie ) é mais ou menos o que segue:
“Que eu a amo,
Que eu a amo tanto
Diga você a ela
Que não a esqueço nunca!
É uma paixão
Mais forte do que uma “corrente”
Que me atormenta a alma
E não me deixa viver”
Obs. - Trecho do meu livros Cheiro de Verão escrito ao longo do anos de 1979
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