Minha geração é certamente das últimas a ter uma razoável base para entender e gostar da chamada música erudita. Muito se deve aos famosos “Concertos para Juventude” que aconteciam sempre aos domingos, pela manhã, no Cinema Rex no centro da Cidade, nos anos 40 e 50.
Em 1940 foi fundada a Orquestra Sinfônica Brasileira pelo maestro José Siqueira ; o maestro húngaro Eugen Szenkar, presenteado ao Brasil em decorrência das perseguições nazistas, foi um dos incentivadores destes concertos que formou um público apto a apreciar todas as maravilhas da música clássica.
Mais tarde estes concertos passaram a ser realizados no Teatro Municipal já com a direção do Maestro Eleazar de Carvalho. Antes de cada audição explicava ao jovem público, de viva voz, detalhes sobre o autor, sua época, os movimentos da peça que iria ser ouvida, a participação e as características dos instrumentos, os solistas e por aí a fora.
Começava a apurar meu gosto e a eleger as músicas preferidas ficando exultante quando as identificava ao serem executadas nas rádios - “Os mestres cantores” de Wagner, “Clair de Lune” de Debussy, “Bolero” de Ravel, “Abertura da ópera Lo Schiavo” e a “Protofonia de O Guarani” de Carlos Gomes, “Batuque” de Lorenzo Fernandes.
Depois, fui sendo apresentado, sem pressa, a Mozart, Beethoven - seu concerto número três foi o mais querido por anos e anos - Chopin, Brahms,Tchaikovski...
“Pedro e o lobo” de Sergei Prokofiev foi um acontecimento inusitado - uma história completa contada pelo Paulo Santos, locutor famoso no rádio de então, acompanhada pela orquestra com os instrumentos solando e fazendo as vezes dos personagens.
Os personagens são representados pelos seguintes instrumentos respectivamente:
Pedro: Quarteto de Cordas;
O Pássaro: Flauta;
O Pato: Oboé;
O Gato: Clarinete;
A avó: Fagote;
O Lobo: Três Trompas;
Os Caçadores: o tema é introduzido pelas Madeiras e os disparos são representados pelos Tímpanos e pelo Bumbo.
Tudo isto fez com que fosse oportuna minha iniciação musical com aulas de piano.
Entre minha infância e adolescência, tive quatro professoras: Dona Marci, Dona Maria da Penha, Dona Maria Emília e Dona Ninita.
As célebres audições deixavam os nervos à flor da pele.
“Gavotte de Maturin” ensaiada até a exaustão. Mesmo assim, os dedos presos pelo tormentoso nervosismo, comprometia a interpretação.
Minhas professoras sofriam comigo.
Certamente, frustrei-as, todas !
Trecho do meu livro "Cheiro de Verão"
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