por José Carlos Coelho Leal

sábado, 28 de abril de 2012

35 - CINEMA REX, SZENKAR, PROKOFIEV...


         Minha geração é certamente das últimas a ter uma razoável base para entender e gostar da chamada música erudita. Muito se deve aos famosos “Concertos para Juventude” que aconteciam sempre aos domingos, pela manhã, no Cinema Rex no centro da Cidade, nos anos 40 e 50.
         Em 1940 foi fundada a Orquestra Sinfônica Brasileira pelo maestro José  Siqueira ; o maestro húngaro Eugen Szenkar, presenteado ao Brasil em decorrência das perseguições nazistas, foi um dos incentivadores destes concertos que formou um público apto a apreciar todas as maravilhas da música clássica.
         Mais tarde estes concertos passaram a ser realizados no Teatro Municipal já com a direção do Maestro Eleazar de Carvalho. Antes de cada audição explicava ao jovem público, de viva voz, detalhes sobre o autor, sua época, os movimentos da peça que iria ser ouvida, a participação e as características dos instrumentos, os solistas e por aí a fora.
         Começava a apurar meu gosto e a eleger as músicas preferidas ficando exultante quando as identificava ao serem executadas nas rádios - “Os mestres cantores” de Wagner, “Clair de Lune” de Debussy, “Bolero” de Ravel, “Abertura da ópera Lo Schiavo” e a “Protofonia de O Guarani” de Carlos Gomes, “Batuque” de Lorenzo Fernandes.
         Depois, fui sendo apresentado, sem pressa, a Mozart, Beethoven - seu concerto número três foi o mais querido por anos e anos - Chopin, Brahms,Tchaikovski...
         “Pedro e o lobo” de Sergei Prokofiev foi um acontecimento inusitado - uma história completa contada pelo Paulo Santos, locutor famoso no rádio de então, acompanhada pela orquestra com os instrumentos solando e fazendo as vezes dos personagens.
          Em O Pedro e o Lobo é utilizada uma Orquestra Sinfônica completa em que cada personagem é representado por um instrumento ou naipe da orquestra e possui um tema musical.
Os personagens são representados pelos seguintes instrumentos respectivamente:
            Pedro: Quarteto de Cordas;
        O Pássaro: Flauta;
        O Pato: Oboé;
        O Gato: Clarinete;
            A avó: Fagote;
            O Lobo: Três Trompas;
      Os Caçadores: o tema é introduzido pelas Madeiras e os disparos são representados pelos Tímpanos e pelo Bumbo.
           Tudo isto fez com que fosse oportuna minha iniciação musical com aulas de piano.
Entre minha infância e adolescência, tive quatro professoras: Dona Marci, Dona Maria da Penha, Dona Maria Emília e Dona Ninita.
          As célebres audições deixavam os nervos à flor da pele.
“Gavotte de  Maturin” ensaiada até a exaustão. Mesmo assim, os dedos presos pelo tormentoso nervosismo, comprometia a interpretação.
 Minhas professoras sofriam comigo.
Certamente, frustrei-as, todas !

Trecho do meu livro "Cheiro de Verão"
        




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