por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 3 de abril de 2012

17 - AS DUAS PRAÇAS.

         O bonde, o nosso conhecido 64, era a maneira mais rápida de chegar-se à civilização - a Praça Saens Peña.
Minha meninice conheceu duas praças Saens Peña.
         A primeira, até 1947, em terra batida, com gigantescos oitis, ficos e amendoeiras, acho assim, onde nos fins de tarde era ensurdecedor o barulho dos pardais.
         Esta praça primitiva foi inaugurada em 30 de abril de 1911 com a presença do Prefeito Bento Ribeiro. 
A imprensa da época saudou com elogios a transformação do velho e feio largo da Fábrica, até então um vazio resultante do encontro da Estrada do Andarai Pequeno (atual rua Conde de Bonfim) com a Travessa do Andarai (atual rua Desembargador Izidro).
         No trecho fronteiro à rua Major Ávila, alguém inventou um  teatrinho de marionetes com um palco feito de pedra, bancos fixos de madeira, sem encostos, que era cuidadosamente cercado, antes das seções,  com pesada lona listrada em verde e branco, para que se cobrassem entradas.
         Este “bendito” teatrinho era um terror para mim. Tinha muito medo daqueles bonecos medonhos e até hoje estranho a insistência de minha mãe em levar-me para vê-los.
Isto me fez detestar a velha praça, para sempre.
         Felizmente, na nova praça, não havia espaço para os insuportáveis fantoches.
Menos árvores, piso em pedras portuguesas, jardins, bancos confortáveis e um lago, semelhante ao existente hoje, com vários repuxos com fluxos variáveis e com luzes coloridas. Alguns precipitados diziam : são as “águas dançantes”. De certo, mania de grandeza de meia-dúzia de tijucanos.
Tão bonita, a nova Praça, que teve até Presidente da República na inauguração. Vi o Marechal Dutra bem de perto e ouvi a banda tocar o Hino Nacional, depois de um longo palavrório, o primeiro de minha vida.
         Os cinemas volteavam a praça; o Olinda, maior do Distrito Federal - nasci na Capital da República -.
O América (também teatro no passado, onde fizeram sucesso as atrizes América e Alda Garrido - construído na forma de um pagode chinês, com 1200 lugares, foi inaugurado solenemente em 01 de junho de 1918) e, o Carioca separados pela rua Major Ávila.
Também o Tijuca - afetuosamente chamado de Tijuquinha, que em noites quentes abandonava abertas as portas laterais para compensar a falta de refrigeração -, e o Metro-Tijuca, o mais novo e mais moderno, onde as manhãs de domingo eram festejadas com desenhos de Tom e Jerry, e a calçada fronteira era deliciosa de passar, geladinha, com o ar condicionado que não cabia dentro do cinema.
         As confeitarias, muito grandes e muito fartas; a Tijuca Velha, com deliciosas “mães-bentas”; lá, pela primeira vez soube da existência de um “misto-quente”, comprado sempre com as economias da mesada minguada.
A Tijuca Nova, com seu salão de chá onde à noite até violinos eram ouvidos.
          Muito elegante!
         Livros e cadernos eram comprados na “A Futurista”, e remédios na “Casa Granado” ou na “Farmácia Santos”.
Tamém tinha grande frequência de fregueses a grande Loja de Ferragens próxima à esquina da Rua Carlos de Vasconcellos
         Ia esquecendo, o salão de barbeiro, bem na esquina de General Rocca,
junto ao ponto do bonde,  onde os cabelos das crianças eram cortados pelo agitado e baixinho Seu Alcides, ou pelo lerdo Seu Caldas, este, a testar toda nossa paciência com seu corte demorado, sempre interrompido por um comentário de futebol, um cumprimento a um amigo complementado pelo ritual demorado de uma tragada no cigarro “mata-ratos” que desafortunadamente fumava.
         Do outro lado, no início da Dezembargador Izidro, estava a festa maior: uma casa de balas e doces onde, para mim, as balinhas de “bonecos” eram as eleitas.
         Domingo de carnaval, ou seria na segunda-feira? Não importa, neste dia havia o tradicional desfile da “Azul e Branco”, a escola de samba do bairro, pois até então, Salgueiro seria coisa para o futuro.
         Na porta do botequim sem nome, rodeado de amigos, era comum a pessoa de Lamartine Babo, quase sempre num terno branco não muito alinhado.
         Num canto da praça, o ponto do 73, um ônibus verdinho que sabia levar-nos até a casa da Vovó Alice, em Botafogo.
         Esta praça não existe mais.

       -  Obs. capítulo do livro escrito em 1997 - "Cheiro de Verão"

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