por José Carlos Coelho Leal

sábado, 31 de março de 2012

14 - A PROVÍNCIA E A CIVILIZAÇÃO

        
Dois mundos bem distintos. A vila, suas vizinhanças, seus contornos e a Praça Saens Peña, com seu comércio, cinemas e pessoas muito apressadas.
         Dois mundos.
         O meu mundo, com forte toque provinciano, era dominado pelo rio Trapicheiro a dividi-lo em duas partes.
De um lado, a leiteria do Seu João, o sapateiro e o imponente Colégio Baptista. Do outro, o “depósito” do Seu José - espécie de empório, onde minha família comprava de “caderno”-, o botequim de baixo, mais humilde e o botequim de cima, do Seu Lourenço, onde de raro em raro comprávamos algum refrigerante para consumo em dias especiais.
         Mais adiante, na Rua Bom Pastor, o barbeiro, a quitanda - que bela filha, tinha o quitandeiro? - e lá embaixo o açougue do Seu Antonio. Também o Asilo, o Hospital Evangélico e algo que não cheguei a conhecer bem, apesar de ter saboreado seus produtos: a vacaria, com curral e evidentemente, vacas; leite e queijos, frescos e da melhor qualidade, para crescer saudável a minha infância.
Incrível, vacas em plena Tijuca, abastecendo com dignidade uma geração certamente mais feliz.
         Unindo estas duas partes, a ponte; não uma qualquer. Era a ponte da minha aurora; arrogante, só permitia a passagem de um veículo por vez.
No entanto, consentia ao “Pinga Na Caneca”, o bêbado mais famoso da região, reger suas partituras, horas a fio, imaginadas nas folhas de velhos jornais, cuidadosamente dispostas na amurada de pedra. Diziam que fora maestro da banda do Corpo de Bombeiros, tendo sido expulso da corporação, sabe-se lá o porquê. A bebida seria sua fuga. Nunca conheci, ao certo sua verdade.
         De um lado, Rua José Higino e Rua Clóvis Bevilaqua. O “largo das amendoeiras” dividia tudo; à sombra de suas copas frondosas os menos ocupados jogavam longas partidas de “ronda” (*) e os trabalhadores tiravam suas sestas após o almoço, quase sempre esquentado suas marmitas ali mesmo numa estufa improvisada com tijolos.
         Em torno das amendoeiras o bonde fazia a volta; do outro lado, as ruas Bom Pastor, Sabóia Lima e, finalmente, ligando tudo, a principal, a Dezembargador Izidro, aquela que nos unia ao outro mundo, o civilizado, a Praça Saens Peña.
         O progresso destruiu nossa ponte, em 1950, quando o rio Trapicheiro foi canalizado. Era o começo do fim daquele mundo provinciano; o “largo”, passou finalmente a fazer jus ao pomposo nome de Praça Gabriel Soares; e os carros, mais e mais, conheceram novos caminhos.
         As amendoeiras permaneceram, e comecei a aprender, ano a ano, que quando caiam suas folhas, aproximava-se meu aniversário: primeiro de agosto.
Mais tarde percebi nova coincidência, não muito agradável: dia primeiro de agosto, dia de meu aniversário era sempre o primeiro dia de aula do segundo semestre.
Enfim, nada é perfeito!   
         Proximamente, o mundo civilizado da Praça Saens Peña viajará por estas páginas.


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          (*) - Roque Saenz Peña (1851/1914) – Advogado, estadista e presidente da Argentina entre 1910 e 1914, deu notável impulso à economia e às finanças do país, implantando, ainda, o voto secreto e obrigatório.

         (*) - Gabriel Soares de Souza (1540/1592) – Historiador português autor do “Tratado Descritivo do Brasil”, em dois volumes, contendo importantes dados geográficos, botânicos, etnográficos e lingüísticos do Brasil Colonial.

         (*) - Ronda - Jogo de azar praticado pela “malandragem” carioca, já causou não poucos crimes. Jogado com 36 cartas (não entram o 2, 3, 8, 9 e 10) . Quem recebe o Rei de Copas fica com a banca e o bolo de dinheiro das apostas. Aí começa o “desaguisado”. 

Obs.; extraído de meu livro “Cheiro de Verão’ escrito em 1997

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