LEITURAS, E UMA INSÓLITA DESCOBERTA
As revistas de histórias em quadrinhos nunca me foram muito queridas.
“Vida Infantil” gostava de ler de tempos em tempos, principalmente por causa das histórias do singular “Coronel Farofa”.
Interessante, havia uma editora que publicava três revistas: “Vida Doméstica”, destinada às senhoras, “Vida Juvenil” para os adolescentes e a minha “Vida Infantil”.
Nos anos sessenta freqüentei muito a casa do dono desta editora, pai de um amigo – da Rua Saboia Lima, rua com muita história -, o Carlos Fidalgo.
Outra revista infantil de sucesso, “O Tico-Tico”, foi a primeira revista brasileira a publicar histórias em quadrinhos.
Fundada em novembro de 1905 (ano e mês do nascimento de papai e também da inauguração da luz elétrica no bairro de Botafogo), revelou à criançada uma série de personagens como: “Chiquinho”, “Benjamin” e “Totó”, a dupla “Para-choque e Viralata” e o “Barão de Rapapé”.
Também ficou famosos o “Lamparina”, criação do famoso cartunista J. Carlos, “Zé Macaco e Faustina”, de Alfredo Storni, e mais tarde, “Reco-Reco, Bolão e Azeitona”, de Luiz Sá; este trio, conheci bem.
Muito me atraia, os almanaques “Quebra-cabeças” editados pelo “Moinhos de Milho Brazil” - com “z”, mesmo -, que papai trazia vez por outra. Recordo as capas : “UM”, “DOIS”,..., “OITO”, até o “NOVE”, eu lembro.
O Sr. Cesar era esperado com ansiedade todos os dias.
Trazia sempre o vespertino “O Globo - a primeira edição saia às 11 da manhã e a final, por volta das 2 da tarde -, tradicionalmente dobrado debaixo do braço; na ponta do indicador, o aperto do barbante envolvendo um oscilante embrulho rosa, resultado da visita diária à Confeitaria Tijuca, a velha.
Era uma disputa para ver quem primeiro lia as famosas historias do “Brucutu”, “Ferdinando” e “Mandrake”.
Imperdíveis as aventuras do “Fantasma”, seu cão fiel “Capeto” e o eterno noivado com a princesa “Diana” ou, as agruras do “Pafúncio” na sua “Vida apertada” enfrentando a vigilância sem treguas da “Marocas”, sua mulher.
Destas tirinhas eu gostava; Luiz Cesar, mais intelectual, dedicava-se às palavras cruzadas.
“O Globo” não circulava aos domingos, substituído, ora pelo “Correio da Manhã”, ora pelo “Diário de Notícias”, comprados na companhia das revistas “A Careta”, mordazmente política, e a semanal “O Cruzeiro”.
Mas nem tudo ficava restrito a estas inocentes leituras...
Um descuido de papai, e o abandono de sua escrivaninha sem a chave passada, era convite a uma incursão aos escaninhos, normalmente vedada a curiosos, como eu, pelo tampo articulável fechado.
O deslizar lento e silencioso das taliscas envernizadas, liberava um mundo a ser explorado, a começar pelas revistas “Eu sei tudo”, normalmente ali guardadas - revista meio estranha; um pouco de ciência, um pouco de crendice, ficção, lá sei...
Era deslumbrante abrir cuidadosamente o estojo de veludo contendo uma caneta “Parker 51” com tampa de ouro, e deixar a pena macia deslizar pelo papel alguns garranchos tingidos em “azul lavável”, ou levar ao ouvido o tique-taque do velho relógio de bolso, já tantas vezes consultado.
Numa destas invasões, deparei-me com algo estranho, cuidadosamente embalado num pequeno invólucro impermeável de forma quadrangular.
Tentei ler, mas a língua estranha não ajudava : “...condom... for ...”
Dentro, alguma coisa como um anel, de fina borracha, impecavelmente enrolada, que deslizava com facilidade envolvendo os dedos curiosos.
A fina joça cabia todinha dentro da mão fechada.
A surpresa do inusitado fez com que rapidamente o objeto insólito voltasse para seu abrigo.
O que seria tal engenho? Qual sua utilidade?
No dia seguinte, os mais espertos companheiros foram notificados sobre o achado, e solicitados a esclarecer tal dúvida.
Por algum motivo subjetivo, não consultei meus irmãos.
Durante anos, fiquei sem resposta!...
A infânciadquele tempo era de uma inocência impossível de se ver nos dias atuais.
Obs. - Trecho do meu livro Cheiro de Verão de Verão
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