Em fevereiro de 1952, um acontecimento. Pela primeira vez viajava sem a companhia de papai ou mamãe.
Custou, mas valeu a pena.
Fui para a colônia de férias do colégio, em Monerá, uns confins a meio dia de “Maria Fumaça”(*) do Rio de Janeiro, atrás das serras de Friburgo. Seriam quinze dias de muitas novidades. Comecei a vivê-las muito antes, passadas as festas de ano novo.
Na véspera, o auge da excitação. Mamãe rabujava: “pára, menino, está parecendo um bicho-carpinteiro”.
Noite partida pelo estridente despertador, pouco depois das três. O corre-corre dos últimos preparativos, o vestir, o fechar a mala, o farnel, e já o taxi encomendado de véspera estava a espera.
O bater da porta, a noite escura, a rua deserta, quase fria, desconhecida para os meus olhos de onze anos. A Gare Barão de Mauá, a plataforma, o leve cheiro de lenha queimada, o trem, as lâmpadas de carbureto sendo acesas uma a uma. As caras conhecidas, o assento junto à janela, o coro cada vez mais estridente de vozes infantis.
O soar do sino, o longo apito, o ranger de ferros, finalmente o trem em movimento.
Estamos a bordo de uma companhia inglesa “The Leopoldina Railways”; olho para o relógio da estação, cinco horas e vinte e cinco minutos. Saída no horário preciso; quanto a chegada...
Lembro cada detalhe desta primeira viagem. A palhinha verde escura do assento de encosto alto, a proteção em grosso tecido branco no espaldar das poltronas, o cheiro desagradável do acetileno incandescente, os rostos amigos dos colegas mais chegados, o Giordano, os Lages, Flávio e Roberto, o Edmar, o Maurício. O clarear do dia, o desfilar de pessoas mal acordadas em cenários inéditos, todos os pormenores estão fielmente gravados em minha memória.
Uma hora de viagem.
Lá, bem no fundo do coração, o primeiro aperto, bem de leve, saudade das minhas coisas, da minha casa.
Depois, a parada em Itaboraí e a longa espera pelo trem Campista. Várias manobras e a nova composição toma rumo de Cachoeiras de Macacu.
A vagarosa subida da serra, a cremalheira, Friburgo, Banquete, Bom Jardim e finalmente Monerá. A estação, a loja dos correios e do outro lado a igrejinha de Nossa Senhora da Guia.
Seis horas da tarde, o desembarque, o carregar de malas pesadas e a primeira surpresa: todos a bordo, no caminhão com pranchões de madeira apoiados nas laterais a guisa de bancos.
Meia hora numa estrada cheia de curvas; muita poeira, o penetrante perfume da erva cidreira, o cheiro do mato e o vento no rosto, davam uma maravilhosa sensação de liberdade.
Enfim, a chegada à Vila Berckmans, meu lar pelos próximos quatorze dias, pois o primeiro, praticamente já se fora.
O banho frio foi o primeiro teste para alguém acostumado com banhos mornos, conseqüência de uma superproteção indesejada. Ao passar o pente nos cabelos, o sinal dos tempos na quantidade de carvão acumulada nas longas horas do balançar da “Maria Fumaça”.
O jantar sonolento, o “chá de bode” (*), uma breve explanação sobre as regras a serem obedecidas para um convívio civilizado, e finalmente o dormitório, com camas separadas por tabiques de madeira a meia-altura; a privacidade era protegida por uma cortina de lona encorpada.
Como sempre o sono só chegou após o canto dos galos, o pensamento longe...- a vila, a minha casa, meus irmãos, meu pai, minha mãe, minha mãe, minha mãe ...
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(*) - “Maria Fumaça” : na realidade, tratava-se de mais uma das famosas locomotivas Garratt, fabricada pôr Beyer Peacock, famosas no mundo inteiro. Uma destas importantes locomotivas está exposta no Museu do Trem, em Recife, Pernambuco,
(*) - “Chá de Bode” : chá feito com erva cidreira e segundo às más línguas, adicionavam no seu preparo algum calmante para relaxar a garotada na hora de dormir. Sua ingestão era compulsória.
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