por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 4 de abril de 2012

19 - O DIA QUE VIROU NOITE


        
         Um dos impedimentos para brincar na vila, ou simplesmente sair de casa, era quando uma febrinha, por menor que fosse, viesse  afligir a qualquer um de nós três. Meus irmãos deviam sofrer menos, pois a vila para eles não tinha valor, acho eu, pois já maiores seus horizontes deviam ser bem mais largos.
         Com a percepção, que só as mães tem, bastava um olhar e as costas da mão direita em minha testa, para o veredicto maternal infalível : “ Cucho, você está com febre, nada de sair hoje !” - ia esquecendo, “Cucho” era como mamãe me chamava, sempre que estava com mais carinho.
         As vezes “Cucho”, e em dias de mais mimo, “Cuchinho” e até “Cuchininho”. Nunca soube a origem destas palavras, talvez corruptela do vocábulo pequerrucho, quem sabe? Ou seria algo parecido com alguma palavra em italiano?
Muito bom ser caçula nesses momentos.
         Filho com febre era sinal de algumas regalias, tais como : dormir largueza do quarto do casal, comidinha na cama, rádio privativo colocado na cabeceira e o direito de ver os retratos antigos, cuidadosamente guardados numa velha lata de biscoitos “Aymoré”.
         Ruim mesmo, só quando a febre subia um pouco mais e o nordestino Dr. Jucá, de sempre, era chamado.
Logo aparecia a toalha de fino linho para proteger as costas quando da auscultação do pulmão e, o temido terror: mostrar a garganta  dizendo “Aaaaaah...” com um terrível cabo de colher de sopa a pressionar a língua para baixo. Náuseas, na certa...
         Cada mal com seu curativo: dor de barriga, pequenas ampolas de “Camboaci”; para garganta inflamada, uma boa pincelada de “azul de metileno”; tosse, rebuçados de “guaco”; duas gotas de “solução de argirol” em cada narina e adeus nariz entupido.
Febre: um bom “suadouro” acompanhado de um chá de folha de laranja, ou quem sabe, um “salopheno” bem triturado misturado na água com bastante açúcar.
Para que serviam as injeções de “Gadusan” ?...
         Houve um dia sem chuva e sem febre que fiquei dentro de casa.
Estava assustado, com medo até. Uma manhã como as outras, meio cinzenta, mas uma manhã.
De repente  começou a escurecer cada vez mais e pelo vidro da janela vi as luzes da vila serem acesas. Eram dez, onze da manhã, um pouco para mais um pouco para menos.
Mais um tempinho, era dia de novo. Não entendi bem do que falavam.
         Muitos anos depois, a explicação, ao folhear uma enciclopédia : dia 20 de maio de 1947, eclipse total do sol atingindo Argentina, Paraguai, Brasil, oceano Atlântico e África Central.
         “Eu farei o sol desaparecer e escurecerei a terra no meio de dia claro”.
         Esta profecia bíblica, segundo os entendidos, só acontecerá de novo no Brasil no ano de 2046.

           



Nenhum comentário:

Postar um comentário