Muita mágoa e aflição me traziam as inoportunas comparações, obras de vários mestres, ao longo dos 11 anos vividos junto aos maristas.
Os modelos, referenciais para as comparações, eram meus irmãos, principalmente o “famigerado” Guido Nelson, o “rei das medalhas”, o modelo de aplicação, paradigma a ser imitado a todo custo.
Atenção! Não quis ofender: “famigerado”, é um adjetivo inofensivo que significa: que tem fama, célebre, muito notável.
“Porque você não é igual a ele?”, frase que humilhava sem proveito e revoltava sem ódio.
Mas, machucava.
Guido sempre disputava os primeiros lugares e, merecidamente, nas festas de fim de ano, subia a palco do salão engalanado para receber calorosos aplausos, peito coberto de medalhas de ouro e algumas de prata.
Apesar do apelo de meus mestres, jamais consegui desempenho semelhante.
Custei a superar tal problema. Eu era diferente, e daí?
Fácil, hoje; muito difícil, entender tudo isto, naqueles dias.
Estes fatos afastavam meu irmão de mim, de verdade. Admirava-o, e muito, mas sentia-me rejeitado. Um coadjuvante de segundo plano. Jamais seria igual a ele...
1951, tão amargo para meu amigo Sidinho, apresentaria outro grande drama, que me aproximaria de meu irmão e ajudaria a superar o que poderia transformar-se , lamentavelmente , num tremendo complexo de inferioridade.
Naquele ano, ao fim das férias de julho, ao voltar de Friburgo com uma gripe mal curada, Guido foi examinado pelo nosso conhecido Dr. Jucá, ouvindo o diagnóstico perverso: tuberculose pulmonar.
Repentinamente, tudo mudaria lá em casa.
Um quarto só para o Guido, isolado. Louças e talheres separados e devidamente escaldados após cada uso. Deviam-se evitar maiores contatos. A vida de todos, totalmente mudada.
Em 1951, tuberculose era quase uma sentença fatal.
Imediatamente foi iniciado o tratamento com novas drogas, as últimas palavras para a época: coisas como, di-hidro-estreptomicina, hidrazina e assemelhados.
Cada injeção aplicada causava reações brutais, mas era preciso insistir no tratamento. Meu irmão ardia em febre, deixando todos nós consternados.
O quadro permaneceu inalterado por mais de uma quinzena.
Dava pena olhar para minha mãe, e certamente, naqueles dias, não ouvi sua cantigas. Acho que só ela sentia que alguma coisa não estava correta, numa intuição que não seria a única durante sua vida.
Numa manhã, provavelmente após uma noite insone, decidiu consultar nosso vizinho da casa oito, médico, por quem não tinha grandes simpatias.
“Hoje à noite, após o jantar, a senhora prepara um bom cafezinho e iremos com calma examinar a questão”, disse Dr. Rui com sua voz quase sussurrante e de um tom grave impressivo.
Lá pelas nove, a mesa já posta com cuidado ostentando a melhor louça, a longa espera de um dia sofrido teve seu fim com a chegada do ilustre convidado.
Rapidamente postei-me atrás da porta da copa, ouvidos muito atentos, pois esta não era conversa de se perder.
Dr Rui ouviu calmamente a história contada por papai com ajuda sempre chorosa da mamãe, sem dizer uma única palavra. Viu as radiografias sem muita demora e subiu para examinar o “doente”.
O café foi servido e com seu perfume ainda no ar, ouvimos finalmente, - eu, atrás da porta, naturalmente - o que todos queriam ouvir: “acho que tenho boas notícias” e prosseguiu pausadamente, “estas radiografias não estão boas e não auscultei nada de estranho nos pulmões do rapaz; amanhã, pela manhã, passarei para leva-lo a novas radiografias e vamos ver se meu diagnóstico favorável é confirmado”.
Depois de muitas noites, após mal educada indiscrição, finalmente dormi com muita esperança de que todo pesadelo iria terminar.
Poucas horas mais, e Guido estava livre das conseqüências de um desastrado diagnóstico.
Um mês perdido, logo o de seu aniversário de dezoito anos. Nota zero em todas as matérias no boletim do colégio. Apesar de tudo, muita alegria.
Mamãe acertara mais uma vez, e o Dr. Rui da Costa Leite, a partir daqueles dias, passava a ser um “deus” para Dona Tininha.
Apesar do mês perdido, Guido passou em sétimo lugar no vestibular da PUC para o curso de engenharia.
Vibrei demais com a grande vitória do meu herói.
Obs.- Trecho do meu livro "Cheiro de Verão".
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