por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 6 de abril de 2012

20 - MIL NOVECENTOS E QUARENTA E OITO


                                   

  Alguns anos são diferentes. Algo especial torna, cada um deles, indelével na memória das pessoas.
    Assim foi 1948.
        Já tinha oito anos e sentia com clareza que uma nova fase começava na minha vida. Nas aulas de religião falava-se em “idade da razão”; o certo é que os sentimentos afloravam com maior nitidez: alegria, tristeza, afeto, raiva, vergonha, amizade...
    Não conseguia mais guardar para mim as emoções, extravasando-as em qualquer momento ou lugar. Gostar ou não de alguém ou de alguma coisa não era sentimento para ser retido.
   Daí as simpatias e as rejeições.
   A vida surgia aos poucos e hoje, escrevendo estes acontecimentos  noto que ali, em 1948, está a origem de muita coisa; minha maneira de ser, o bom e o mal que me acompanham nestes 58 anos.
       Naquele início de ano, os jornais e as revistas teimavam em mostrar um velhinho, quase nu, óculos redondos na ponta do nariz aquilino, pele muito queimada e uma magreza de doer o coração.
         Diziam ser um homem muito importante.
 Procurava entender por quê?
 O “homem importante” era Gandhi, Mohandas Karamchand Gandhi, nascido no oeste da Índia em 2 de outubro de 1869, numa família da casta dos vaísias, de comerciantes e funcionários públicos.
Conseguiu estudar em Oxford formando-se advogado, só retornando ao seu país em 1915. Já famoso ganhou do poeta Tagore um novo nome: Mahatma, que significa “a grande alma”.
Sem armas na mão e de estômago vazio, apenas utilizando sua política de não-cooperação e não-violência, dobrou o colonialista império britânico.
Porém, com a emancipação da Índia, em 1947, a Coroa britânica dividiu o país em dois estados: o hindu e o islâmico, o Paquistão, resultando uma explosão de conflitos religiosos latentes que matou mais 200 mil pessoas, em um ano.
Em 30 de janeiro de 1948 Gandhi é assassinado pelo jornalista Nathuram Godse, membro de um grupo de extremistas hindus.
Evidentemente, eu não entendia tudo isso. Apenas ouvia falar...
Também naquele ano foi criado o Estado de Israel, na Palestina e, a ONU, adotava  a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
No Brasil, morria Monteiro Lobato, em 4 de abril e, em 15 de julho realizava-se no Rio de Janeiro, então Capital da República, a passeata do movimento “O Petróleo é Nosso”.
E eu? 
Finalmente fui matriculado no Externato São José, após ultrapassar o primeiro obstáculo: o concurso de admissão.
         A preparação foi feita pela minha professora Dona Aura, complementada pelas aulas ministradas por meu irmão Guido, muitas das quais acabavam em choro e muita raiva; por que ele sabe tudo isso?  Por que ele é maior?  Por que, por quê?
         Passei! Degrau inicial na escala hierárquica do colégio: “bicho-novo”.
         Primeiro dia de aula, terceiro ano primário, turma do Irmão Claudino.
Novo cenário, novos personagens que iriam me escoltar por mais de uma década, até 1958, que seria outro daqueles anos especiais.
         Foram onze anos, onze turmas, onze professores titulares.
Vou exercitar a memória tentando listar todos eles, ano a ano. 1948, 3º Primário: Irmão Claudino; 1949, 4º Primário: Ir. Claudino; 1950, Admissão: Ir. Renato; 1951, 1º Ginasial: Ir. Máximo; 1952, 2º Ginasial: Ir. Gil Caetano; 1953, 3º Ginasial: Ir. João Arsênio; 1954, 4º Ginasial: Ir. Gregório; 1955, 1º Científico: Ir. Próspero; 1956, 1º Científico, novamente ( pequeno descuido): Ir. Fidelis; 1957, 2º Científico: Ir. Ruperto; 1958, 3º Científico: Ir. Moisés Maria, o “Batatinha”, dividindo as responsabilidades de preparação ao vestibular com o inconfundível Ir. Borges, o “Bule”.
          Para terminar, o primeiro reitor, Ir. Gabriel Maria, o “Gabiru”.
         Ufa ! Consegui !
         Alguns destes nomes certamente estarão presentes nas páginas futuras.
         1948 ! Em 25 de maio, o “volante” brasileiro Chico Landi ( sinônimo de velocidade, na minha infância ), ganha na Itália o circuito do Grande Prêmio de Bari.
         Enquanto isso, em Hollywood, Charlie Chaplin, o “Carlitos” era chamado a depor na Comissão de Atividades Antiamericanas.
         1948! Botafogo de Futebol e Regatas, meu time: Campeão Carioca de Futebol. Nilton Santos, meu grande ídolo; Carlito Rocha, suas superstições, suas gemadas e o cãozinho “Biriba”, mascote em preto e branco, símbolo de uma época muito boa.
         Segunda-feira, dia de ler no “Campeão”, tablóide semanal, a façanha da véspera.
         31 de dezembro de 1948: as reservas de ouro do Brasil caem de 322 para 281 mil toneladas.
         Não dá para esquecer 1948  
  
0BS. - Capítulo do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997
                       

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