Não foram muito difíceis os primeiros dias no São José, mas confesso que contava os minutos para estar em casa novamente.
As aulas eram de segunda a sábado, do meio-dia às quatro e meia, diferente de quinta, com saída as três e sábados quando éramos liberados meia hora antes do habitual.
Interessante, o fim de semana começava exatamente aí, sábado, dezesseis horas. No entanto, parecia longo. Quanta coisa podia ser feita nestas poucas horas de descanso. Seria a ausência da Televisão, até então uma quimera? Seria a despreocupação normal da infância? Sinceramente, não tenho resposta.
Na realidade, estávamos no colégio todos os dias, inclusive aos domingos, pois às 8 horas havia a missa, com o comparecimento de todos os alunos. Mesmo assim, o fim de semana tinha o sabor de prolongado ócio.
Era muito bom.
Após a missa, dois programas: torcer, nos jogos de vôlei do time do colégio e às onze, o encontro com a matinê do Carioca.
O time de vôlei do Externato era muito bom; vibrava muito com suas vitórias, inclusive contra os clubes que disputavam o campeonato da cidade.
No meu mundo de oito anos, aqueles atletas de dezesseis a dezoito eram verdadeiros ídolos; quando um pouco mais tarde, comecei a armar meus times de “botões”, os batizava com os nomes daqueles jogadores preferidos.
O cinema era programa imperdível; uma hora de pequenos filmes do “O gordo e o magro”, “Os três patetas”, “Abbott & Costello” e alguns desenhos animados do “Mickey Mouse”, “Popeye” ou “Pernalonga”.
De quando em quando ainda vejo, na televisão, estes mesmos filmes antigos de mais de cinqüenta anos e confesso certa emoção.
O ritual de uma sessão de cinema me fascinava.
O som das badaladas do gongo eletrônico, as luzes principais se apagando lentamente enquanto nas laterais, junto à tela, focos de vários matizes iam se alternado trazendo lentamente a penumbra no mesmo ritmo da abertura das grossas cortinas.
Ficava rigorosamente “arrepiado”.
Completando, o friosinho do ar condicionado, e antes dos filmes, o “Jornal da Tela”.
Nota dez!
Os dias passando, o rol dos companheiros aumentando: Mário Augusto, os Sergios, Coutinho e Leite, o Paulo Martins...
Começava a entender melhor os critérios de disciplina e a não entender nada da conversa entre os mestres, pois entre si só falavam francês, possivelmente uma tradição da congregação dos maristas, fundada na França pelo Padre Champagnat.
Tudo ia muito bem até que em certo dia, um grave acidente de percurso.
Logo na primeira aula, comecei a sentir certa indisposição, pela região do chamado “baixo ventre”.
Tudo sob controle.
Durante os primeiros quinze minutos da segunda aula, certo ciclo de revoluções intestinas fez-se notar, cada vez com maior nitidez e cadência mais sincopada. Urgia uma providência: dedo levantado, para solicitar permissão para ausentar-me da sala por apenas alguns minutinhos.
Acho que o Ir. Claudino, que, aliás, não tinha lá minhas simpatias, era meio míope, pois não enxergava meu sinal. Com braço o mais alto que me era possível erguer, o suor começava marejar pela minha cabeça, nesta altura já bem desassossegada com o que poderia acontecer.
Aconteceu!
Quando finalmente liberado, consegui dar apenas alguns passos até fora da sala, e aí, deu-se a vexação: o que estava preso conseguiu a liberdade de uma única vez.
Ali estava eu, no meio do pátio, totalmente, com licença da má palavra, “borrado!”.
Minha salvação veio na ajuda do porteiro, Seu Manuel, que me levou para o banheiro da secretaria para as providências de praxe. Telefonemas - para casa de nossa vizinha, Dona Aline, pois telefone era coisa muito rara -, banhos e roupas limpas trazidas pela Dina, nossa empregada por muitos anos.
Seu Manuel foi um dos mais duradouros empregados do colégio, e quando completei o curso ainda lá estava tranqüilamente postado à portaria controlando a tudo e a todos.
Não sei, mas durante anos, a cada vez que olhava para mim, achava que Seu Manuel, intimamente, lembrava daquele célebre dia, e por dentro, zombava da minha desdita.
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