por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 9 de abril de 2012

22 - VIAJANDO EM CASA

                                       
         O colégio veio a separar-me, por várias horas, a cada dia, do meu mundo: minha casa, minha vila, meus camaradas e meus brinquedos.
         Quando a saudade apertava muito, esquecia-me das aulas e começava um devaneio, passeando de longe pelos lugares queridos.
         A esta hora, pensava, o sol deve estar começando a derramar seu calor na parede do quarto da mamãe e uma leve brisa, espalhando o cheiro bom do pão fresquinho das três horas, lembrará que um novo café deve ser coado para juntar-se ao leite fumegante.
Mais um pouquinho, a terra molhada do gramado, regado apressadamente pelo Seu Manoel, antes da primeira talagada, irá impregnar o ar até a minha volta, sol já se pondo. Aroma que despertava sentimentos e desejos até então desconhecidos para mim...
         Minhas primeiras aulas no São José certamente não foram das mais proveitosas, pois o pensamento continuava viajando...
         A casa, com a varanda cheia de vasos, dois pendurados com samambaias, nem sempre viçosas e na frente a árvore do Luiz Cesar, assim chamada, plantada por ele em algum dia de boas ações. O grande toldo de lona grossa, às vezes verde, outras, alaranjado, requerendo uma tarefa de por e tirar, só dispensada em dias de chuva. Para o bom papo com os amigos, duas cadeiras de lona, eternas, ainda hoje dando conforto no sítio de meu irmão Guido.
         A porta envernizada, com um estreito postigo de vidro protegido por uma delicada grade de ferro, dava segurança à casa. Pela fresta feita com um dedo na cortina, via-se quem chegava, e se de boas vindas a entrada à sala era coisa para logo.
         Ocupando o lugar de honra, um velho piano alemão, cheio de elogios pelo seu valioso passado, de onde, em noites silenciosas, ouvia-se o labor dos cupins a destruir pouco a pouco sua sonoridade clássica.
Lá estava dócil e prestimosa minha peça preferida: a cadeira de balanço que embalou meus primeiros sonhos.
         No estreito aparador ao pé da escada, um velho caramujo pintado com motivos marinhos, deleitava com sons de praia deserta quem o levasse ao ouvido.
         Na parte de cima, os dois quartos e o banheiro com seu antigo aquecedor arquejante, dando impressão de explosão iminente. Tinha medo de tal geringonça.
         Três camas “patentes”, cobertas por pesadas colchas de croché, feitas pelas mãos habilidosas de vovó Alice, quase enchiam o quarto maior.
Minha cama ficava bem junto à janela principal, lado a lado com a do Guido, partilhando a mesma mesinha de cabeceira. Mais, o grande armário e a cama do Luiz, de frente para a janela do telheiro que cobria a varanda.
Por fim, o chamado “buraco”, local para um provável armário embutido jamais instalado, que protegido por grossa cortina quardava de tudo, desde capas, perelines e guarda-chuvas, até malas, colchas, cobertores e ainda as caixas com retratos e algumas roupas velhas.
         No quarto de meus pais, ainda preservado na sua originalidade, mobiliando um cômodo no sítio do Luiz Cesar, destacava-se o armário com seu grande espelho arranhado por uma pedra, folia dele mesmo, o Luiz quando pequeno, justificando que o estava limpando.
         Completando a casa, o sótão e embaixo a cozinha, a copa e o meu velho conhecido quintal, das bolas perdidas e dos filhotes de pardais caídos ofegantes nas tardes quentes de verão, exigindo cuidados de todos para um lapso de sobrevivência.
         Subitamente a voz do Ir. Claudino me faz voltar à realidade e tento anotar, com pressa, o trabalho de casa para ser entregue no dia seguinte.
          Por hoje as aulas terminaram.

 Os, - trecho do livro "Cheiro de Verão",



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