Foram três anos seguidos de férias em Monerá, sempre na primeira quinzena de fevereiro.
Assim foi em 52, 53 e 54. Dias maravilhosos que deixavam saudades.
À volta, aconteciam os preparativos para as aulas, que não tardariam, aumentando em fortes tons, uma indisfarçável melancolia.
Aliás, férias na minha infância não significavam dias inteiros de “boa vida”. Havia sempre alguma obrigação a ser cumprida.
Uma, era marcante e até prazerosa, a pintura de cadeiras, armários, latas de mantimentos e tudo mais que necessitasse ficar como novo. Evidentemente que o pior pincel sobrava para mim, em restrita obediência à lei do “mais forte”, no caso, cada um dos meus irmãos.
Outras missões eram mais desagradáveis, e fugir delas era tarefa quase sempre fadada ao fracasso. Lavar pratos, talheres e panelas, encerar os quartos, a sala e degrau por degrau da íngreme escada que nos levava ao segundo andar eram encargos cumpridos com resignação.
Muitas vezes usava-se o pesado escovão e não com a enceradeira elétrica, que segundo nossa “chefa” era um modernismo que não correspondia a um trabalho esmerado.
Mamãe a tudo fiscalizava e só liberava após uma vistoria rigorosa.
Nem sempre as coisas corriam em paz e muitas vezes os atritos eram inevitáveis. Dona Tininha ficava muito brava e eu inutilmente revoltado.
Nas colônias de férias em Monerá havia, em se tratando de um evento patrocinado pelo colégio, uma orientação religiosa ao longo de toda nossa estadia. Felizmente, os padres que nos acompanhavam eram bastante esclarecidos e preparados para tratar com crianças e adolescentes.
Faziam-me muito bem as missas celebradas sempre às cinco e trinta da manhã, na paz do dia ainda nascendo, bem como os Ofícios a Nossa Senhora, rezados e cantados em calmas caminhadas ao cair da tarde, pulmões repletos do bom ar da mata adormecendo.
Excelente terapia...
As partidas de futebol, a piscina, as olimpíadas, os jogos de botão e pingue-pongue e muitas outras atividades, sempre muito bem planejadas e dirigidas pelo Irmão Moisés, o nosso querido “batatinha”, e pelo Professor Tarlé, o eterno mestre de História e Geografia, fazia as horas correrem muito depressa.
Os passeios de barco no lago de águas negras, a pesca das carpas, bagres e lambaris, o churrasco na Fazenda Santa Bárbara são acontecimentos de não mais esquecer.
Como era divertido o prosa com “Tio Pedro”, velho ex-escravo com quase cem anos, a tocar sua flautinha de bambu e a cantar repetidamente, “tatu tá no pau, ô tira Antônio...”.
Era impressionante que durante alguns dias conviviam crianças e rapazes desde dez até dezoito anos, numa harmonia quase perfeita e desenvolvendo atividades que agradavam com unanimidade.
Após o jantar, todos, já bastante cansados, participavam do sarau, onde cada um dos participantes demonstrava alguma arte ou habilidade.
Mágicas, canções em solo acompanhadas por acordeon, o instrumento da moda, ou em corais recém improvisados. Pequenos esquetes eram seguidos de célebres piadas, algumas mais do que conhecidas outras nem tanto, principalmente quando na voz do Fernando Vieira, um humorista nato e trocadilhista militante.
Fernando e suas charadas infames: “Um sujeito ia dirigindo seu carro na Rio-São Paulo, quando de repente é ultrapassado em grande velocidade por dois malucos que seguem na contramão. Ele sorri e prossegue a viagem. Mais adiante se depara com os dois malucos chocados contra uma árvore. Qual a moral da história?”.
Após alguns segundos de confabulação da platéia, vem a resposta inesperada: “mais vale um, passar rindo na mão, que dois voando”, evidentemente um trocadilho do provérbio “mais vale um passarinho na mão, do que dois voando”.
Era incrível o Fernando Vieira, sempre com uma observação divertida para alegrar a turma.
Evidentemente que não viajava tão sozinho para estas colônias. No primeiro ano, por exemplo, seguiu comigo o Pedro Glauco, colega e amigo do Guido, que recebeu de mamãe a desconfortável incumbência de zelar por mim.
Gostava muito do Pedro, já quase adulto, sempre muito calmo e atencioso comigo e, sobretudo um “freguês de caderno” a levar várias surras nas partidas de botão que disputávamos.
Hoje, Pedro é o Padre Glauco, jesuíta em plena atividade no Colégio Santo Inácio.
Em dias especiais eram feitos passeios mais longos até as cidades vizinhas.
Na volta, a noite escura e o vento frio eram enfrentados ao som de canções cantadas numa seqüência sem intermitências, o ritmo marcado nas mãos e pés em batidas compassadas.
De quando em vez um uníssono grito saldava um caminhante ronceiro ou a tênue luz vinda de um indolente casebre de beira de estrada.
Quem acordado estivesse poderia ouvir estranho coro, cortando o silêncio da boca da noite:
“My Bonnie lies over the ocean;
My Bonnie lies over the sea;
my Bonnie lies over the ocean;
Oh! bring back my Bonnie to me;
Bring back, bring back,
Oh! bring back my Bonnie to me, to me!;
Bring back, bring back,
Oh! bring back my Bonnie to me !”.
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997.
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