A “doença” de meu irmão e a morte do pai do meu melhor amigo foram dois grandes dramas que marcaram 1951. Duas dores, um repentino amadurecer e o começo do adeus à minha infância, selaram aquele ano.
Apesar de todas as turbulências este foi o ano das minhas melhores notas. Por mais de uma vez consegui ser o primeiro da turma; para ser mais exato, sem exageros, parece-me que foram duas vezes.
Um sonho mostrar o boletim em casa, igualzinho aos melhores do meu irmão.
Lamentavelmente este feito não iria repetir-se no futuro, mas foi uma boa a experiência, apesar de nunca gostar muito da cara dos primeiros de turma, “uma raça muito besta e meio por fora da realidade”, pensava com meus botões. Sempre achei-os muito tristes, vítimas de algozes paternos a exigir sempre mais e mais notas dez. Alguns pareciam até meio “maricas”. Não devia ser bem isto, mas era o que sentia.
O ritual da entrega dos boletins, ao início de cada novo mês, era um misto de emoção e tortura.
Os boletins superpostos pela ordem de classificação eram nomeados, sem pressa, um a um, pelo professor titular: “em primeiro lugar David Luiz Rozani Nunes com média nove vírgula seis; em segundo lugar Luiz Ronaldo Marino de Araújo com média nove vírgula quatro; em terceiro lugar José Carlos Coelho Leal com média nove vírgula um”.
Ufa! que alívio.
Havia meses, no entanto, que a tortura passava do vigésimo e até do trigésimo lugar. Aí, era preciso uma grande desculpa para justificar semelhante fracasso.
Ao final de 1951 estava completando quatro anos de colégio e com ares de veterano procurava de alguma forma suprir as minhas deficiências, uma delas ser um tremendo “perna-de-pau”, sempre o último a ser escolhido na formação dos times.
Inúteis meus esforços.
A cada rejeição sentia uma dor muito grande por dentro, mistura de humilhação e rancor. Rancor contra Dona Tininha que de tanto proibir não permitiu que aprendesse a jogar no momento certo. Agora, minha desvantagem era muito grande.
Nunca consegui superar tal problema. Minha sina era continuar sendo, cada vez mais, um belo “perna-de-pau”, com todo o ônus que fazia jus tal título. Pouco a pouco evitava jogar futebol, até desistir em definitivo. O mundo dos esportes deixou, assim, ingloriamente, de aplaudir uma grande estrela!
Obs. - Trecho o meu livro "Cheiro de Verão", escrito ao longo dos anos 1987 e 1988
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