por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 25 de abril de 2012

32 - "NIQUE-NAL"

                                       
        
         Os trens “Maria Fumaça” já eram meus velhos conhecidos das viagens que amiúde fazia toda a família, a Petrópolis.
Quando de férias, quase sempre em dias de julho, era quase um ritual de seguidas manhãs, o assistir as manobras dos trens do alto da ponte que cortava a Estação de Ferro.
          Ficava muito perto da pensão Vera Regina, nossa casa por poucos dias, e o apito das locomotivas era o irresistível chamamento para o desfile dos vagões de primeira e segunda classe, os comboios de carga, o carregamento de lenha e o enchimento das caldeiras.
Ficava deslumbrado com toda aquela agitação; tudo resultava muito bem arrumadinho em poucos minutos de movimentos bem sincronizados.
Coisa muito moderna pensava baixinho.
         Uma destas férias foi muito pesarosa, pois todos sofriam muito com as dores que papai não conseguia disfarçar, causadas por uma úlcera no duodeno que o levaria a uma cirurgia, poucos dias após a volta ao Rio de Janeiro.
         Lembro do cirurgião, Dr. Fernando Paulino, de grande nomeada na época.
         Papai ficou logo bom. Apenas, como lhe restara menos da metade do estômago, deveria, como aconteceu pelo resto de sua vida, alimentar-se com bastante comedimento.
         Visitar minha Tia Célia, Mère Margarida, por muitos anos freira do Colégio Sion de Petrópolis até seu falecimento já bem velinha, exigia viagem de ida e volta, no mesmo dia, sempre aos domingos, a bordo do nosso velho conhecido trem, envolto em grossos rolos de fumaça.
           Marcante a personalidade de Tia Célia: sempre com um largo sorriso, a conversar sobre tudo, sempre atualizada com seu tempo e quase nunca a falar de religião nos passava lições de fé pelo seu testemunho e sua afetividade. Demonstrava ser muito feliz com sua opção religiosasa e seu exemplo valia mais que mil pregações ou sermões inflamados.
O cheiro de lenha queimada que enchia os ares da cidade parece que atiçava ainda mais nosso apetite, só aplacado no Restaurante Falconi, com suas mesas e cadeiras impecavelmente protegidas por alvas capas de tecido rugoso e suas massas italianas que com “boa vontade” assemelhavam-se com aquelas feitas pelo meu tio Armando.

Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

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