Admiração tive muitas e por várias pessoas.
Ídolos acho que nunca os tive, diferentemente de uma multidão de fanáticos por artistas, políticos, estadistas, e até jogadores de futebol. Vi muitas brigas, algumas sérias, por causas estéreis de este ou aquele ser o melhor, o perfeito - como se dizia nos bons tempos, “o tal...”.
Acho que exagerei um pouco.
Minhas calças curtas me davam o direito de ter um ídolo, ou para não me contradizer totalmente, uma “grande admiração”, pela figura de um jogador de futebol, crack de um clube só em toda sua carreira: Nilton Santos.
Campeão comigo em 1948, esteve fora do maior desastre do futebol brasileiro, a derrota para a seleção do Uruguai, na Copa de 1950, em pleno Maracanã.
Flávio Costa, técnico da seleção de 50, preferiu escalar Bigode e o resultado foi o que se viu.
Anos mais tarde, Nilton Santos dava o seguinte depoimento: “1950 foi a minha primeira Copa. Fiquei de fora porque o Flávio Costa não gostava de mim. Primeiro ele implicou com minha chuteira. Disse que o bico era mole e devia ser duro para eu poder dar bico para frente. Eu já tinha jogado como atacante e para isso era preciso ter habilidade, certo? Portanto a chuteira obedecia. Além disso, ele achava que jogador de defesa tinha que chutar para cima. Daí eu já não cruzei bem com ele. Ai ele me mudou de posição. Eu era lateral esquerdo e quando fui convocado para a Copa de 1950 já era campeão carioca pelo Botafogo e campeão sul-americano pela seleção. Ele me botou de lateral direito, reserva do capitão do time, que era o Augusto. Eu não ia jogar nunca, só se o Augusto morresse...”
O gênio daquele time Campeão do Mundo de 1950 era Schiaffino, Juan Alberto Schiaffino, um ponta-de-lança de toques rápidos e arremates precisos.
O curioso é que o arremate mais importante de sua vida, o primeiro gol contra o Brasil, não foi nada preciso. Declaração de Schiaffino: “quando Ghiggia cruzou, tentei escorar a bola de raspão, só que acertei o peito do pé. Em vez de ir para o canto direito, ela foi para o esquerdo. Foi uma sorte espantosa”.
O gol decisivo, o segundo, foi cópia do primeiro, com Ghiggia vencendo Bigode na corrida e Barbosa (o goleiro) se adiantando para se antecipar ao cruzamento para Schiaffino. Juvenal veio na corrida para fazer a cobertura.
Mas, em vez de cruzar, Ghiggia chutou.
A bola passou entre a trave e o goleiro, silenciando o estádio e todo país. Faltavam apenas 11 minutos para o término da partida.
O público embora muito chocado aplaudiu a vitória uruguaia.
Barbosa não teve qualquer culpa na derrota, no entanto nunca mais readquiriu o grande prestígio que tinha até então.
Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, Barbosa tentou entrar na concentração brasileira para apoiar os jogadores, mas foi barrado.
Muito triste, declarou à imprensa: “No Brasil a pena máxima por um crime é de 30 anos. Eu pago há 44 anos por um crime que não cometi...”
Com toda certeza, aquela noite de 16 de junho de 1950, foi a mais triste e silenciosa de toda a história deste Rio de Janeiro.
Da janela do meu quarto não via viva alma na rua. Ficava difícil imaginar que poucas horas antes, tudo eram festas e confiança na vitória e no carnaval que viria em plena época de festas juninas.
Apesar de tudo, eu sonhava...
Sonhava ver de perto meu ídolo, conversar com ele e quem sabe, trocar uns passes com uma “número cinco” em qualquer pedaço de verde do gramado da minha imaginação.
Um dia isto quase aconteceu, de verdade, mas era o Ademir (outro participante do desastre de 1950) e o verde era a cor de seu carro “rabo de peixe”, em ligeira parada, num sinal vermelho na Praça Saens Peña, bem ali, em frente ao bar Éden. (*)
Valeu a pena ter, pelo menos, um ídolo, pois nunca me decepcionou, mesmo ao final de sua carreira, beirando os quarenta anos.
E ainda, depois de largar as chuteiras, me deu uma grande satisfação quando num jogo em que o Botafogo foi seriamente prejudicado, presenteou o árbitro Armando Marques com umas merecidas “bolachas”. Neste dia, dormi com minha alma botafoguense lavada.
(*) - O bar Éden ficava onde hoje está o edifício do Banerj. Servia o melhor sorvete “italiano” do Rio de Janeiro, e no final da minha adolescência era uma delícia saborear um “bife a cavalo com arroz”, no meio da madrugada na volta de um baile qualquer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário