por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 3 de abril de 2012

16 - É BOM FICAR DOENTE?



         Um pouco antes dos meus sete anos, no tempo de frio nos fins de junho, comecei a ter fortes acessos de tosse.
O Dr. Jucá não demorou no diagnóstico: “É coqueluche!”
         Da porta do quarto no alto da escada, ouvidos bem aplicados, escutei parte da conversa do médico, lá embaixo, na sala: “... e muito ar puro e fresco, não contrariar o menino, bastante carinho, que é mal para poucos dias”.
         Muito oportuna minha indiscrição. A partir daquele momento, sem muito interessar a gravidade da doença, passei a explorar cada minuto, procurando aproveitar o desvelo de todos que se esforçavam ao máximo para evitar a piora da tosse comprida.
         Realmente, em poucos dias, senti, só para mim, a rápida melhora. Mas a atenção, que todos me devotavam, era delícia que não podia acabar sem mais nem menos.
         Um carro, cabriolé, sem dúvida, propriedade singular naqueles quarenta, eu tinha à disposição três vezes por semana, para passeios maravilhosos na Floresta da Tijuca, graças à amizade de um companheiro de meu pai, Sr. Bauer.
Grandes bordejos (*), capota aberta, vento puro a invadir meus pulmões sofridos.
         Ganhei brinquedos novos, peças para armar casinhas, soldadinhos de chumbo e o mais cobiçado: um lindo telefone vermelho, igualzinho ao do armazém.
         À noite, o sono era benvindo no colo de Dona Zita, seios fartos, ao embalo de doces e demorados cafunés.
         Ah!  Os cafunés...
         Tudo isto não podia terminar de repente.
Por alguns dias consegui fingir acessos de tosse, prolongando, o mais possível, as mordomias do paraíso.
         Logo, a farsa foi descoberta.
Enquanto durou, foi bom ficar doente...


____________
        
(*) – Apesar da palavra não estar perfeitamente colocada no texto, era assim que mamãe dizia quando qualquer de seus filhos estivesse “prá baixo”: “sai da toca, menino, vá dar uns bordejos  por ai!.
         Acho que valeu o esclarecimentoo...

Obs. : trecho do livro "Cheiro de Verão, escrito em 1987.

Nenhum comentário:

Postar um comentário