Um pouco antes dos meus sete anos, no tempo de frio nos fins de junho, comecei a ter fortes acessos de tosse.
O Dr. Jucá não demorou no diagnóstico: “É coqueluche!”
Da porta do quarto no alto da escada, ouvidos bem aplicados, escutei parte da conversa do médico, lá embaixo, na sala: “... e muito ar puro e fresco, não contrariar o menino, bastante carinho, que é mal para poucos dias”.
Muito oportuna minha indiscrição. A partir daquele momento, sem muito interessar a gravidade da doença, passei a explorar cada minuto, procurando aproveitar o desvelo de todos que se esforçavam ao máximo para evitar a piora da tosse comprida.
Realmente, em poucos dias, senti, só para mim, a rápida melhora. Mas a atenção, que todos me devotavam, era delícia que não podia acabar sem mais nem menos.
Um carro, cabriolé, sem dúvida, propriedade singular naqueles quarenta, eu tinha à disposição três vezes por semana, para passeios maravilhosos na Floresta da Tijuca, graças à amizade de um companheiro de meu pai, Sr. Bauer.
Grandes bordejos (*), capota aberta, vento puro a invadir meus pulmões sofridos.
Ganhei brinquedos novos, peças para armar casinhas, soldadinhos de chumbo e o mais cobiçado: um lindo telefone vermelho, igualzinho ao do armazém.
À noite, o sono era benvindo no colo de Dona Zita, seios fartos, ao embalo de doces e demorados cafunés.
Ah! Os cafunés...
Tudo isto não podia terminar de repente.
Por alguns dias consegui fingir acessos de tosse, prolongando, o mais possível, as mordomias do paraíso.
Logo, a farsa foi descoberta.
Enquanto durou, foi bom ficar doente...
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(*) – Apesar da palavra não estar perfeitamente colocada no texto, era assim que mamãe dizia quando qualquer de seus filhos estivesse “prá baixo”: “sai da toca, menino, vá dar uns bordejos por ai!.
Acho que valeu o esclarecimentoo...
Obs. : trecho do livro "Cheiro de Verão, escrito em 1987.
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